Análise de dados climáticos globais entre 1901 e 2020 mostra que secas sincronizadas atingiram de 1,8% a 6,5% da superfície terrestre, e que oscilações na temperatura dos oceanos, como o El Niño-Oscilação Sul, limitam a propagação simultânea de crises hídricas em vários continentes
Durante décadas, projeções climáticas alertaram para o risco de secas simultâneas atingirem vários continentes ao mesmo tempo. No entanto, um novo estudo liderado por pesquisadores do Instituto Indiano de Tecnologia de Gandhinagar indica que o cenário é mais complexo do que se estimava.
Publicado na revista Communications Earth & Environment, o trabalho analisou registros climáticos globais entre 1901 e 2020.
A conclusão é que secas sincronizadas afetaram entre 1,8% e 6,5% da superfície terrestre ao longo do período – proporção inferior às estimativas anteriores, que sugeriam que até um sexto do planeta poderia enfrentar seca simultaneamente.
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O papel dos oceanos na limitação das secas globais
Os pesquisadores identificaram que as temperaturas da superfície do mar exercem influência decisiva na forma como as secas se distribuem pelo planeta.
Oscilações oceânicas criam respostas regionais distintas, impedindo que um único padrão de seca se espalhe de maneira uniforme por vários continentes.
Um dos principais mecanismos envolvidos é o El Niño-Oscilação Sul (ENOS). Durante eventos de El Niño, a Austrália tende a se destacar como um polo de seca, enquanto outras regiões podem apresentar impactos diferentes. Já nos períodos de La Niña, os padrões de seca se reorganizam e costumam ficar mais dispersos geograficamente.
A equipe tratou o início da seca como eventos interligados em uma rede global. Quando duas regiões distantes entravam em seca em curto intervalo de tempo, eram consideradas sincronizadas. Mesmo assim, a ocorrência de uma seca verdadeiramente global mostrou-se rara.
Impactos sobre culturas agrícolas estratégicas
O estudo também examinou dados históricos de produção de trigo, arroz, milho e soja. Em várias regiões agrícolas relevantes, uma seca moderada pode elevar a probabilidade de perdas de colheita acima de 25%, chegando a 40% ou 50% no caso de milho e soja.
Foram identificados “polos de seca” recorrentes, incluindo Austrália, América do Sul, sul da África e partes da América do Norte. Essas áreas apresentam maior propensão à coincidência temporal de eventos, mas ainda dentro de limites regionais.
Precipitação ainda predomina, mas a temperatura ganha peso
Cerca de dois terços das mudanças de longo prazo na severidade das secas estão associados à variação na precipitação. O terço restante está relacionado ao aumento das temperaturas, que intensificam a evaporação e a demanda atmosférica por umidade.
Embora a chuva continue sendo o principal fator determinante em escala global, a influência da temperatura tem aumentado em diversas regiões de latitude média, como Europa e Ásia.
A principal conclusão do estudo é que o sistema climático funciona como uma rede interconectada. As oscilações oceânicas criam padrões regionais que limitam a propagação simultânea das secas, reduzindo a probabilidade de um evento uniforme atingir o planeta inteiro ao mesmo tempo.
