Documentos vistos pela ABC mostram divergências entre a McConnell Dowell e consultores técnicos sobre as estacas da ponte Bridgewater, obra de US$ 786 milhões inaugurada em 2025 na Tasmânia, enquanto o governo estadual afirma que a estrutura é segura e monitorada.
A ponte Bridgewater, obra de US$ 786 milhões inaugurada em junho de 2025 na Tasmânia, Austrália , enfrenta questionamentos sobre suas fundações após documentos revelarem divergências técnicas envolvendo estacas, solo do rio Derwent e padrões contratuais de segurança.
Ponte Bridgewater concentra debate sobre fundações
A nova travessia de quatro pistas substitui a antiga ponte elevatória de Bridgewater, estrutura próxima do fim da vida útil após quase 80 anos de operação. A construção começou em 2022 e concluída em 2025.
O projeto é tratado como o maior empreendimento de infraestrutura da Tasmânia. Sua execução ficou sob responsabilidade da McConnell Dowell, construtora em disputa técnica com consultores contratados pelo governo estadual.
-
Chamado de “material do futuro”, o “bambu engenheirado” que a China criou desmonta a planta até a fibra e a reconstrói tão resistente que chega a “superar o aço”, e promete virar um substituto da madeira mais barato e sustentável na construção
-
Chamado de “novo Nilo”, o megaprojeto que o Egito acaba de inaugurar cava um “rio artificial” de 170 km no deserto para transformar 9 mil km² de areia em lavoura, mas o “milagre” depende de uma água que, segundo especialistas, pode estar acabando
-
Sem conseguir uma hipoteca por ser autônoma, uma mãe solo “driblou” o aluguel e o financiamento, projetou a própria casa flutuante e montou por dentro um barco de 20 metros: hoje mora “fora da rede” num canal da Inglaterra com os dois filhos e painéis solares
-
Homem transforma contêiner marítimo enferrujado em casa de luxo com espuma isolante nas paredes, amplos vidros e acabamento em drywall, e o resultado engana quem vê de fora
As preocupações envolvem as estacas de concreto que sustentam os pilares da ponte. Documentos vistos pela ABC mostram discordância entre a construtora e a Equipe Consultiva Técnica, contratada pelo Departamento de Crescimento do Estado para verificar se a obra seguia o contrato.
O ponto central era a adequação do projeto às condições do leito do rio Derwent. Havia receio de que as estacas não garantissem suporte suficiente aos pilares, com possibilidade de danos após a correção de defeitos.
Especialista classificou risco como intolerável
O especialista geotécnico Derek Pennington, que integrou a equipe consultiva, afirmou que o grupo considerava intolerável o risco de a estrutura não funcionar conforme o contrato. Ele descreveu o terreno como o mais complexo de seus 35 anos de carreira.
Pennington relatou que a equipe foi dispensada pelo governo da Tasmânia em 2024, em meio ao impasse com a McConnell Dowell sobre as estacas. Na avaliação dele, a decisão teria ocorrido para evitar atrasos.
O governo estadual e o Departamento de Crescimento do Estado não comentaram por que a equipe consultiva foi afastada. A McConnell Dowell não comentou diretamente e encaminhou perguntas ao departamento.
O departamento informou que a ponte é segura e não apresentou movimento inesperado. Também afirmou que marcadores de levantamento foram instalados nos pilares para acompanhar deslocamentos.
Projeto usou estacas únicas verticais
As estacas são postes de concreto introduzidos no solo para sustentar pilares. Na ponte Bridgewater, o projeto adotou estacas verticais únicas, perfuradas entre 30 e 88 metros abaixo da superfície do rio.
Pennington afirmou que pontes em condições estuarinas profundas podem usar múltiplas estacas, inclusive inclinadas, para ampliar a estabilidade lateral. Para ele, o modelo escolhido exigia grande confiança na leitura do terreno.
A equipe consultiva avaliava que parte do solo na travessia era frágil demais para sustentar o desenho de estaca única. Segundo Pennington, havia trechos com 40 a 50 metros de solo muito macio, incapaz de oferecer apoio lateral relevante.
Nos documentos, a McConnell Dowell sustentou que sua modelagem era precisa e suficiente. O departamento afirmou que os projetos estruturais foram revisados por engenheiro de prova, verificador independente e consultores técnicos.
Monitoramento pode influenciar uso futuro
Pennington disse não temer dano repentino e significativo à estrutura. A preocupação, segundo ele, está em possíveis necessidades futuras de gestão de carga, como redução de fluxo de tráfego ou limites de velocidade.
A ABC já havia noticiado uma grande rachadura no pedestal de concreto de um dos pilares, associada a modelagem incorreta. Para Pennington, esse episódio pode indicar que questões mais amplas levantadas pela equipe não foram resolvidas.
O Departamento de Crescimento do Estado afirmou que os dispositivos de monitoramento foram instalados para confirmar se as estacas funcionavam como esperado depois da construção. Também disse que verificações adicionais foram obtidas sobre questões técnicas do contratante e verificadores.
A controvérsia mantém a ponte Bridgewater sob atenção pública porque envolve obra recém-inaugurada e estratégica, construída sobre fundações projetadas em terreno descrito como altamente complexo.
