Pneus inservíveis deixam de virar passivo ambiental e entram em fornos de cimento como combustível alternativo. Em 2024, o Brasil destinou 321,9 mil toneladas por coprocessamento, segundo o Ibama.
Muito mais do que lixo visual. Quando acumulam água, transformam-se em criadouros de mosquitos. Quando queimam sem controle, liberam fumaça tóxica. Quando são largados no ambiente, tornam-se um passivo difícil de eliminar. Mas uma parte expressiva desse material já segue outro caminho: os pneus são recolhidos, triturados e enviados para fornos de cimento, onde entram como combustível alternativo no processo de produção do clínquer, a matéria-prima básica do cimento.
No Brasil, o Relatório de Pneumáticos 2025 do Ibama, com dados referentes a 2024, registrou 784.111,58 toneladas de pneus inservíveis destinadas no país. Desse total, 321.953,51 toneladas foram encaminhadas para coprocessamento, tecnologia que representou 41,06% da destinação nacional no período.
Pneu velho vira combustível em forno de cimento
O coprocessamento é a tecnologia que permite usar resíduos em fornos de clínquer, substituindo parte dos combustíveis convencionais e aproveitando componentes minerais no processo industrial.
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O próprio Ibama define o coprocessamento como a utilização de pneus inservíveis em fornos de clínquer como substituto parcial de combustíveis e como fonte de elementos metálicos.
Na prática, o pneu deixa de ser tratado apenas como resíduo. Depois de coletado e preparado, ele vira uma fonte de energia para uma das indústrias mais intensivas em calor do mundo: a produção de cimento.
Brasil destinou 321,9 mil toneladas por coprocessamento
O dado mais forte está no balanço nacional. Em 2024, segundo o Ibama, o país destinou 321.953,51 toneladas de pneus inservíveis por coprocessamento.

A mesma tabela mostra outras rotas de destinação: 227.469,64 toneladas foram para granulação, 209.222,54 toneladas para laminação e 25.465,88 toneladas para pirólise.
Isso mostra que o pneu usado não tem um único destino. Ele pode virar borracha moída, artefatos de borracha, óleo, aço recuperado, negro de fumo ou combustível alternativo para a indústria pesada.
Por que o pneu serve como combustível
O pneu tem alto poder calorífico porque sua composição inclui borracha, negro de carbono, aço, fibras e aditivos. Essa mistura concentra energia suficiente para ser aproveitada em processos industriais de alta temperatura.
A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, EPA, afirma que o tire-derived fuel, combustível derivado de pneus, é usado por causa de seu alto valor energético. Segundo a agência, esse poder calorífico pode ser 25% a 50% maior que o do carvão e 100% a 200% maior que o da madeira.
Por isso, fornos de cimento, caldeiras industriais e fábricas de papel estão entre as instalações que usam pneus como combustível suplementar. No caso do cimento, o uso é especialmente relevante porque o forno já opera em temperaturas extremas.
Fornos chegam a cerca de 2.000 ºC
A Associação Brasileira de Cimento Portland, ABCP, explica que o coprocessamento ocorre em fornos rotativos usados para fabricar clínquer. Esses equipamentos devem ser licenciados e monitorados pelos órgãos ambientais competentes.
Segundo a ABCP, as temperaturas internas do forno onde o resíduo é inserido chegam a cerca de 2.000 ºC. A entidade afirma que, por causa do calor extremo, compostos orgânicos presentes nos materiais são destruídos com eficiência de 99,999%, enquanto os inorgânicos são incorporados à estrutura cristalina do clínquer.
Esse ponto é central para entender por que a indústria de cimento aparece como destino para pneus inservíveis. O processo combina recuperação energética e incorporação mineral dentro de uma cadeia industrial já existente.
O pneu substitui parte do coque de petróleo
Na produção de cimento, combustíveis fósseis como carvão mineral e coque de petróleo são usados para gerar o calor necessário ao forno de clínquer. O pneu triturado entra como substituto parcial dessa matriz energética.
A ReciclANIP informa que, pelo alto poder calorífico, pneus inservíveis são usados como combustível alternativo em fornos de cimenteiras, em substituição ao coque de petróleo.
A substituição não significa eliminar completamente os combustíveis fósseis da indústria. Significa reduzir parte da dependência energética usando um resíduo que, se fosse descartado de forma irregular, criaria risco sanitário e ambiental.
Pneu abandonado é passivo ambiental
O problema começa quando o pneu deixa de rodar e não entra em uma cadeia de coleta. A Resolução Conama nº 416, de 30 de setembro de 2009, trata da prevenção à degradação ambiental causada por pneus inservíveis e de sua destinação ambientalmente adequada.
A norma afirma que pneus dispostos inadequadamente constituem passivo ambiental e podem representar sério risco ao meio ambiente e à saúde pública.
Também determina que fabricantes e importadores de pneus novos, com peso unitário superior a 2 kg, são obrigados a coletar e dar destinação adequada aos pneus inservíveis existentes no território nacional.
A lógica é de responsabilidade pós-consumo. O pneu não deve simplesmente desaparecer da conta quando sai da loja ou deixa o veículo. Ele precisa ter uma rota ambientalmente adequada quando chega ao fim da vida útil.
Acúmulo aumenta risco de dengue e incêndios
A ANIP alerta que pneus descartados incorretamente podem acabar em quintais ou terrenos baldios, virar foco de dengue, entupir calhas de rios e provocar poluição quando queimados.
Esse risco sanitário é direto. Pneus acumulam água da chuva em cavidades internas e podem criar ambiente favorável para mosquitos vetores de doenças.
Há também o risco de incêndios em pilhas de pneus. A EPA afirma que pilhas abandonadas representam ameaça à saúde e à segurança das comunidades e citou milhões de pneus abandonados nos Estados Unidos em proposta regulatória recente sobre uso energético desse material.
Trituração prepara o pneu para a indústria
Antes de entrar no forno, o pneu precisa passar por uma cadeia de coleta, triagem, transporte e preparação. Em muitos casos, o material é triturado para facilitar alimentação, dosagem e controle operacional.

A ANIP informa que fabricantes de pneus novos, representados pela entidade, arcam com custos de coleta e destinação dos pneus inservíveis, incluindo transporte, trituração e destinação.
Essa preparação é indispensável porque o forno de cimento não funciona como depósito improvisado. A entrada de resíduos precisa seguir critérios técnicos, licenças ambientais e padrões de controle.
Nem todo pneu vai para o forno
Embora o coprocessamento seja a maior rota individual registrada pelo Ibama em 2024, nem todo pneu inservível vira combustível. A granulação, a laminação e a pirólise também aparecem no relatório oficial.
Na granulação, o pneu é processado para gerar borracha moída em diferentes granulometrias, com separação e aproveitamento do aço. Na laminação, o material pode virar artefatos de borracha. Na pirólise, ocorre decomposição térmica em baixa presença de oxigênio, gerando óleos, aço e negro de fumo.
O dado reforça que a destinação de pneus é uma cadeia industrial diversificada. O forno de cimento é uma parte importante dela, mas não a única.
Cimento final continua no mercado
Uma dúvida comum é se o uso de resíduos no forno altera o cimento final. A ABCP afirma que o cimento resultante atende às normas técnicas específicas da ABNT e pode ser comercializado normalmente, pois suas características não são alteradas.
Isso ocorre porque o pneu é usado na etapa de fabricação do clínquer, em ambiente de alta temperatura, com controle operacional e incorporação de componentes inorgânicos à matriz mineral.
A entidade também afirma que o coprocessamento deve ocorrer em fornos licenciados e monitorados pelos órgãos ambientais competentes.
Fornos de cimento não são queima comum
A diferença entre coprocessamento e queima irregular é fundamental. Queimar pneu a céu aberto é prática poluente, perigosa e inadequada. Coprocessamento é um processo industrial controlado, com licenciamento, monitoramento e parâmetros operacionais.
A ABCP destaca que os fornos rotativos de clínquer são indicados para tratamento de resíduos por causa das altas temperaturas, do ambiente oxidante e alcalino, da estabilidade térmica e do longo tempo de residência dos gases dentro do forno.
A EPA também reconhece o uso de combustível derivado de pneus como alternativa viável a combustíveis fósseis, com base em experiência acumulada em dezenas de instalações.
Paraná, São Paulo e Santa Catarina lideraram destinação
O relatório do Ibama também mostra a distribuição da destinação por estado. Em 2024, o Paraná destinou 118.847,50 toneladas, seguido por São Paulo, com 117.693,23 toneladas, e Santa Catarina, com 97.948,43 toneladas.
Goiás aparece com 91.189,55 toneladas, Minas Gerais com 83.374,44 toneladas e Mato Grosso com 49.848,88 toneladas.
Esses números indicam que a destinação de pneus não é concentrada apenas em um polo industrial. Ela depende de redes regionais de coleta, empresas destinadoras e plantas licenciadas.
Brasil cumpriu 94,92% da meta nacional
O Ibama informa que a meta nacional de destinação de pneus inservíveis em 2024 era de 826.062,98 toneladas. O saldo efetivamente destinado foi de 784.111,58 toneladas, equivalente a 94,92% da meta nacional.
Fabricantes de pneus novos cumpriram 101,26% da meta definida para o ano. Importadores cumpriram 89,12%.
O resultado mostra avanço relevante, mas também revela que ainda houve déficit nacional. Segundo o gráfico do relatório, 5,08% da meta ficou sem destinação comprovada em 2024.
Pneu inservível entra na economia circular
A destinação por coprocessamento não resolve sozinha todo o problema dos pneus usados, mas reduz uma parte importante do passivo. Em 2024, mais de 321 mil toneladas seguiram para esse caminho no Brasil, segundo o Ibama.
A diferença está na rota. Quando o pneu é abandonado, ele vira risco sanitário e ambiental. Quando entra em uma cadeia de destinação, pode virar borracha moída, artefato industrial, óleo por pirólise ou combustível alternativo para cimenteiras.
No caso dos fornos de cimento, o destino é especialmente simbólico: um resíduo da mobilidade urbana, feito para rodar em carros, motos, caminhões e ônibus, termina triturado em uma indústria de base, ajudando a produzir o material que sustenta casas, prédios, pontes e estradas.

