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Pesquisadores da Universidade de Surrey descobrem que basta NÃO remover a água de um material de bateria para dobrar sua capacidade e, de bônus, o mesmo sistema consegue dessalinizar água do mar enquanto armazena energia

Escrito por Bruno Teles
Publicado em 05/04/2026 às 19:43
Atualizado em 05/04/2026 às 19:45
Manter a água em bateria de sódio dobra a capacidade e ainda permite dessalinizar água do mar enquanto armazena energia limpa. Estudo da Univ. de Surrey.
Manter a água em bateria de sódio dobra a capacidade e ainda permite dessalinizar água do mar enquanto armazena energia limpa. Estudo da Univ. de Surrey.
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Cientistas da Universidade de Surrey descobriram que manter a água dentro de um composto essencial de baterias de sódio quase dobra a capacidade de carga, acelera o carregamento e, quando testado em água do mar, o material também remove sal da solução enquanto armazena energia.

A ciência às vezes avança por descobertas complexas que levam décadas para serem compreendidas. Outras vezes, o avanço vem de uma ideia tão simples que ninguém havia tentado antes. Pesquisadores da Universidade de Surrey descobriram que manter a água dentro de um material crítico de baterias de íon-sódio, em vez de removê-la como sempre foi feito, aumenta drasticamente o desempenho. A versão hidratada do composto armazena quase o dobro de carga, carrega mais rápido e permanece estável por mais de 400 ciclos, colocando-a entre os melhores materiais de bateria de sódio já relatados pela ciência.

Mas a surpresa não parou na capacidade de armazenamento. Quando o mesmo material foi testado em água do mar, ele continuou funcionando de forma eficaz e ainda removeu íons de sódio da solução salina, em um processo chamado dessalinização eletroquímica. Isso significa que, no futuro, uma bateria de sódio poderia armazenar energia e produzir água doce ao mesmo tempo. A pesquisa foi publicada no Journal of Materials Chemistry A e abre caminho para alternativas mais baratas, seguras e versáteis às baterias de lítio que dominam o mercado atual.

O que os cientistas fizeram de diferente com a água no material da bateria

O composto em questão é o óxido de sódio-vanádio, um material já conhecido e estudado há anos no campo das baterias de íon-sódio. Tradicionalmente, esse composto passa por tratamento térmico para remover a água, porque sempre se acreditou que a presença de umidade causaria problemas no funcionamento da bateria.

A equipe da Universidade de Surrey decidiu desafiar essa suposição e testar o material em sua forma hidratada, sem eliminar a água do processo.

O resultado surpreendeu até os próprios pesquisadores. O vanadato de sódio hidratado nanoestruturado, batizado de NVOH, apresentou desempenho quase duas vezes superior ao dos materiais catódicos padrão para baterias de sódio.

O Dr. Daniel Commandeur, pesquisador da Escola de Química e Engenharia Química da Universidade de Surrey e autor principal do estudo, admitiu que os resultados foram completamente inesperados. A água, que todos pensavam ser um obstáculo, revelou-se justamente o ingrediente que faltava para desbloquear o potencial do material.

Os números que explicam por que essa bateria com água muda o cenário

Os dados da pesquisa são expressivos. A versão hidratada armazenou quase o dobro de energia em comparação com a versão seca do mesmo material, que passa pelo tratamento térmico convencional.

Além de armazenar mais, o composto com água também carregou mais rápido e manteve estabilidade por mais de 400 ciclos de carga, um indicador fundamental para a viabilidade comercial de qualquer bateria.

Esse desempenho coloca o NVOH entre os melhores cátodos já reportados para baterias de íon-sódio na literatura científica. Para contextualizar, as baterias de íon-lítio dominam o mercado atual, mas dependem de materiais caros e ambientalmente problemáticos.

O sódio, por outro lado, é abundante e barato. O grande obstáculo sempre foi igualar o desempenho das baterias de lítio, e a descoberta de que a água potencializa o material de sódio encurta significativamente essa distância.

A descoberta de que a mesma bateria dessaliniza água do mar

Além do desempenho como bateria, a equipe de Surrey testou o material em um ambiente especialmente exigente: água do mar. O NVOH não apenas continuou funcionando de forma eficaz em solução salina, como também removeu íons de sódio da água.

Simultaneamente, um eletrodo de grafite extraiu íons de cloreto em um processo de dessalinização eletroquímica, ou seja, o sistema armazenou energia e limpou a água ao mesmo tempo.

O Dr. Commandeur descreveu a possibilidade como empolgante, afirmando que a descoberta demonstra que baterias de íon-sódio podem fazer mais do que apenas guardar energia.

A longo prazo, isso significa que seria possível projetar sistemas que utilizem a água do mar como eletrólito seguro, gratuito e abundante, produzindo água doce como parte do processo. Em um mundo onde a escassez de água potável é um problema crescente, uma tecnologia que gera energia limpa e dessaliniza ao mesmo tempo tem implicações enormes.

Por que a ciência busca alternativas ao lítio e como a água entra nessa corrida

As baterias de íon-lítio revolucionaram a tecnologia moderna, mas têm limitações que a indústria conhece bem. O lítio é caro, concentrado em poucos países e sua extração gera impacto ambiental significativo.

O sódio, em contraste, está disponível em praticamente qualquer lugar do planeta, inclusive na água do mar, e custa uma fração do preço. A barreira sempre foi técnica: baterias de sódio simplesmente não armazenavam energia suficiente para competir.

A descoberta da Universidade de Surrey muda essa equação ao mostrar que a água, o recurso mais comum da Terra, pode ser a chave para desbloquear o potencial das baterias de sódio.

Em vez de complicar o sistema, a presença de água no material melhora a capacidade, a velocidade de carga e a estabilidade. E quando combinada com a capacidade de dessalinizar água do mar, a tecnologia ganha uma dimensão dupla que nenhuma bateria de lítio oferece.

O que falta para essa bateria com água chegar ao mercado

A pesquisa publicada no Journal of Materials Chemistry A representa uma prova de conceito em laboratório, não um produto pronto para as prateleiras. Os próximos passos envolvem escalar a produção do NVOH hidratado, testar a tecnologia em condições reais de uso e avaliar a viabilidade econômica da fabricação em larga escala.

A dessalinização eletroquímica como subproduto de uma bateria funcional também precisa ser validada fora do laboratório antes de se tornar aplicação comercial.

Os possíveis usos incluem armazenamento de energia renovável em larga escala para redes elétricas e aplicações em veículos elétricos. Ao simplificar a produção de baterias de sódio de alto desempenho, a equipe de Surrey aproxima o armazenamento de energia sustentável da realidade comercial.

A água, que por décadas foi vista como contaminante a ser eliminado, pode acabar se revelando o ingrediente mais valioso de toda a cadeia produtiva.

O que você acha de uma bateria que funciona melhor justamente porque mantém a água dentro dela? E a ideia de dessalinizar água do mar enquanto armazena energia parece viável ou distante demais? Deixe sua opinião nos comentários. Descobertas como essa desafiam tudo o que achávamos saber sobre baterias.

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Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

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