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Pescadores cansaram de esperar ajuda e criaram cooperativa para salvar mangue destruído por óleo: em 16 anos plantaram 30 mil mudas com técnica própria, transformaram pesca em turismo sustentável e geraram renda para 5 mil famílias sem depender de governo
Pescadores cansaram de esperar ajuda e criaram cooperativa para salvar mangue destruído por óleo: em 16 anos plantaram 30 mil mudas com técnica própria, transformaram pesca em turismo sustentável e geraram renda para 5 mil famílias sem depender de governo
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Na madrugada de 18 de janeiro de 2000, 1,3 milhão de litros de óleo da Petrobras transformaram 40 km² da Baía de Guanabara em um deserto negro. Pescadores que viram seu sustento desaparecer decidiram não esperar por promessas e reconstruíram o mangue com as próprias mãos.
Alaildo Malafaia tinha 46 anos quando acordou com a notícia que mudaria sua vida para sempre. Um duto da Petrobras que ligava a Refinaria Duque de Caxias ao terminal Ilha d’Água rompeu antes do amanhecer, despejando uma quantidade de petróleo equivalente a quatro milhões de latinhas de refrigerante diretamente no mar. A mancha se espalhou por 40 km², atingindo praias, ilhas e o coração dos manguezais de Guapimirim — uma área de proteção ambiental que abriga centenas de espécies. O episódio entrou para a história como um dos maiores acidentes ambientais ocorridos no Brasil.
Para os pescadores, foi o fim de um mundo. Até o dia do vazamento, os barcos pescavam por noite em média 100 kg de camarão. Em 2003, o volume não ultrapassava 30 kg. Imagens de aves cobertas de óleo circularam pelo mundo. Cerca de 12 mil pescadores tiveram suas atividades prejudicadas.
A decisão que mudou tudo
Há 45 anos Alaildo Malafaia trabalha com a pesca na Baía de Guanabara. Conhece cada curva de rio, cada árvore de mangue, cada comportamento do caranguejo. Quando viu técnicos de fora chegarem para “recuperar” o mangue sem entender nada do ecossistema, tomou uma decisão.
“Às vezes, quando a gente consegue investimento para cuidar de manguezal, a maioria das empresas traz pessoas de fora que não conhecem aqui”, conta Malafaia.
“Ficam perdidas ou fazem coisas que não é para fazer. Tem que chamar as pessoas locais, porque somos nós que vivemos dentro do mangue. A gente sabe como é que cuida disso”.
Em 2009, ele ajudou a criar a Cooperativa Manguezal Fluminense, uma organização formada por pescadores e catadores de caranguejo que decidiram assumir o controle da recuperação. Mais de 400 famílias fazem parte da cooperativa, trabalhando na APA de Guapimirim, nos municípios de Magé, Guapimirim, Itaboraí e São Gonçalo.
A técnica que os cientistas não conheciam
O desafio era enorme. As ONGs parceiras produziam mudas em viveiros, mas quando chegavam ao campo, perdia-se mais de 50% das mudas.
Foi aí que o conhecimento empírico dos pescadores fez a diferença.
“Na nossa expertise como pescadores, começamos a pegar os plânctons debaixo da planta mãe, tirar da sombra e levar para a luz, eles não morriam”, explica Malafaia.
A técnica — chamada de transplantio — reduziu a mortalidade das mudas para quase zero.
“Quando produzíamos mudas no viveiro, muitas eram perdidas. Passamos a transplantá-las, tirando-as de baixo da planta mãe e levando-as ao sol. Desta forma, ficamos dentro da margem de perdas, chegando a, no máximo, seis por cento”.
O que começou como uma solução local virou referência nacional. “O conhecimento empírico é fundamental na regeneração natural do manguezal”, diz Malafaia, que hoje é convidado para dar palestras sobre restauração de manguezais por todo o Brasil.
“Hoje produzimos conhecimento para o Brasil todo e até mesmo para fora do país”, orgulha-se.
Os números da recuperação
Em 16 anos de trabalho incessante, a cooperativa transformou a paisagem:
Área recuperada: Os cooperados já recuperaram 150 hectares de área de manguezal
Plantio recente: O Projeto Guanabara Verde, iniciado em 2021, envolveu o plantio de 30 mil mudas em 12,2 hectares
Total de mudas em 2024: Junto com a ONG Guardiões do Mar, plantaram 57.500 mudas só em 2024
Biodiversidade: A Cooperativa, que contabilizava cerca de 160 espécies de pássaros, agora já soma mais de 242 espécies presentes na área
Já foram reflorestados 90 dos 116 hectares do Parque Natural Municipal Barão de Mauá, com árvores de cerca de 20 metros de altura. As populações de caranguejos se restabeleceram e estão distribuídas entre mais de dez espécies diferentes.
De pescador a empreendedor ambiental
A transformação não foi só no mangue — foi nas pessoas.
“Quando eu era pescador, eu vivia do recurso natural. Hoje eu trabalho para perpetuar a existência do recurso natural”, reflete Malafaia, hoje com 62 anos.
Assista o vídeo
A cooperativa não parou na restauração. Os pescadores se transformaram em guias de turismo de base comunitária, realizando passeios de caiaque e educação ambiental.
Nilo Ferreira Filho, 72 anos, pescador a vida inteira, agora conduz turistas ecológicos para imersões nos manguezais. “Esse negócio de passeio turístico é uma novidade, mais uma forma de sustento”.
A pescadora Lucimar Machado, fundadora dos projetos Luthando pela Vida e Remando o Manguezal, explica a filosofia: “A gente preserva e quer que as pessoas venham aqui e nos ajudem a divulgar e a preservar esse ambiente, porque a gente vive desse ambiente”.
O impacto econômico
De acordo com Pedro Belga, fundador da ONG Guardiões do Mar, 650 famílias são cadastradas na Baía de Guanabara como catadoras de caranguejo e 5 mil vivem da pesca, com rendimento médio de pouco superior a R$ 2 mil mensais.
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“Quando a gente planta mangue, a gente está gerando bioeconomia. Quando a gente faz o turismo de base comunitária, está gerando bioeconomia. O artesanato, nós estamos gerando bioeconomia”, explica Malafaia.
A oceanógrafa Liziane Alberti ressalta: “Os manguezais também são valiosos para a economia — a pesca artesanal e o turismo são apenas algumas das atividades que se beneficiam da saúde desses ecossistemas”.
Por que o mangue importa para o planeta
“Quando a gente planta uma muda aqui, a gente está plantando uma muda para o planeta, porque o serviço que o manguezal presta é absurdamente grande. 60% das espécies marinhas dependem do mangue”, explica Pedro Belga.
“São 1 bilhão de pessoas que consomem proteínas todo dia, que em algum momento precisam do manguezal. Eles protegem a costa, são filtros biológicos”.
A área recuperada ficou conhecida como “Pantanal Fluminense”. Golfinhos sobrevivem na Baía de Guanabara resguardados pela renovação de água promovida pelo manguezal.
Lições para o mundo
A história da Cooperativa Manguezal Fluminense prova três coisas fundamentais:
1. Conhecimento local é essencial: “Eles não sabiam plantar mangue, e aprenderam com a gente. O que eles aprendem na sala de aula querem aplicar aqui e no manguezal não se aplica assim”
2. Comunidades podem liderar: A cooperativa executa projetos que vão de educação ambiental a turismo, passando por restauração florestal — tudo com protagonismo local
3. Autonomia gera resultados: Sem depender de verbas públicas diretas, usando patrocínios de empresas e criando suas próprias fontes de renda, a cooperativa mostra um modelo sustentável de recuperação ambiental
O pescador que virou biólogo
Apesar de não ter formação acadêmica em Biologia, os anos de cooperação com pesquisadores transformaram Malafaia em um “pescador-biólogo”.
Essa troca entre saberes tradicionais e conhecimento científico virou modelo. As organizações asseguram o mangue a partir da troca entre os saberes tradicionais dos pescadores da região e o conhecimento científico dos pesquisadores — movimento que também promove a valorização das comunidades locais.
“Até chamar a gente de ‘burro’ já chamaram”, desabafa Malafaia, lembrando do preconceito inicial. Hoje, ele viaja o Brasil inteiro compartilhando técnicas, participa de congressos nacionais de manguezais e ajuda a treinar outras comunidades.
O trabalho continua
O desastre de 2000 deixou cicatrizes. As indenizações aos pescadores levaram quase 20 anos para serem pagas e muitos já haviam morrido quando o acordo foi homologado em 2019.
Mas enquanto a Justiça e as empresas se arrastavam em processos, os pescadores não esperaram. Eles pegaram pás, botas, mudas e conhecimento ancestral — e reconstruíram seu mundo.
“Foram muito importantes as parcerias, as amizades, a felicidade de fazer coisas interessantes não só para a APA Guapi-Mirim. Hoje aqui vamos na contramão do planeta. Aqui a gente restaura”, celebra Malafaia.
A Cooperativa Manguezal Fluminense é a prova viva de que a mudança não precisa esperar permissão — ela começa quando pessoas comuns decidem agir.
PANTANAL FLUMINENSE EM NÚMEROS
14 mil hectares de área protegida na APA de Guapimirim
150 hectares recuperados pela cooperativa
242 espécies de pássaros registradas (antes eram 160)
5 mil pessoas vivem da pesca na região
650 famílias cadastradas como catadoras de caranguejo
400+ famílias fazem parte da cooperativa
60% das espécies marinhas dependem do mangue em alguma fase da vida
Como visitar: A Cooperativa Manguezal Fluminense oferece passeios de barco e visitas técnicas na APA de Guapimirim. Os tours são conduzidos pelos próprios pescadores, que compartilham histórias e conhecimentos sobre o ecossistema.
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Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!
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