Pequenas indústrias enfrentam pior situação financeira em cinco anos, segundo a CNI. Impostos elevados, juros e crédito restrito preocupam empresários.
As pequenas indústrias brasileiras encerraram o terceiro trimestre de 2026 com a situação financeira mais desfavorável dos últimos cinco anos. O resultado foi identificado no Panorama da Pequena Indústria, divulgado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI) na sexta-feira (30 de outubro). O indicador que acompanha as condições financeiras desses negócios atingiu 38,5 pontos, após perder 0,9 ponto em relação ao trimestre anterior. A avaliação considera a percepção dos empresários sobre lucro operacional, acesso a financiamento e saúde financeira das empresas.
A deterioração ocorre em um cenário de dificuldades para conseguir crédito, enquanto a carga tributária permanece entre as maiores preocupações dos empresários. Mesmo com uma melhora na confiança registrada em outubro, os indicadores mostram que o ambiente para os pequenos negócios industriais continua desfavorável.
Impostos lideram as dificuldades enfrentadas pelas pequenas indústrias
O peso dos tributos aparece como a principal reclamação dos empresários de pequeno porte em dois segmentos da indústria: transformação e construção. Nos dois casos, aumentou a parcela de entrevistados que identificaram a carga tributária elevada como um obstáculo às atividades.
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Na indústria de transformação, o percentual de empresários que apontaram esse problema passou de 37,3% para 41%. Já na construção, a proporção avançou de 42,9% para 43,6%.
Embora os aumentos tenham ocorrido em intensidades diferentes, os números mostram que a preocupação com os impostos ganhou espaço nos dois segmentos. O resultado também evidencia que os desafios das pequenas indústrias não se limitam ao financiamento, envolvendo outras condições que afetam a rotina dos negócios.
Confiança dos empresários reage, mas permanece abaixo dos 50 pontos
Em outubro, os pequenos industriais demonstraram uma percepção um pouco menos negativa sobre o ambiente de negócios. O indicador de confiança subiu de 44,4 para 46,8 pontos, interrompendo parte da perda de confiança observada no setor.
A melhora, porém, não foi suficiente para levar o resultado à faixa considerada positiva. O índice continua abaixo dos 50 pontos, patamar utilizado para separar confiança de falta de confiança entre os empresários.
Segundo a CNI, esse indicador permanece em território pessimista desde novembro de 2024. A situação também se reflete na avaliação das perspectivas para as pequenas indústrias, cujo índice ficou em 46,6 pontos no terceiro trimestre de 2026, igualmente abaixo da linha divisória.
Assim, apesar da reação observada em outubro, os empresários ainda não demonstram confiança suficiente para que o indicador ultrapasse o nível de referência da pesquisa.

Produção, emprego e capacidade instalada acompanham piora do desempenho
Além das dificuldades financeiras, as pequenas indústrias apresentaram uma redução no indicador que mede o desempenho das atividades. O índice terminou o terceiro trimestre em 44,3 pontos, depois de recuar 0,9 ponto diante dos três meses anteriores.
A comparação com o mesmo trimestre de 2025 revela uma diferença ainda maior, de 2 pontos. Apesar da retração, o resultado atual permanece ligeiramente acima da média histórica, com uma vantagem de apenas 0,1 ponto.
Para construir esse indicador, a CNI considera três aspectos da atividade industrial: o volume de produção, o aproveitamento da capacidade instalada e a evolução do número de empregados.
Dessa forma, o levantamento permite acompanhar o comportamento das operações industriais para além das condições financeiras. Os dados do terceiro trimestre mostram uma piora tanto na avaliação das finanças quanto no indicador de desempenho das pequenas empresas.
Juros elevados dificultam o crédito e pressionam a situação financeira
A dificuldade para conseguir financiamento é outro ponto destacado no levantamento. De acordo com Julia Dias, analista de Políticas e Indústria da CNI, o crédito continua bastante restrito, principalmente em razão das taxas de juros elevadas.
A situação é especialmente difícil para as pequenas indústrias. Segundo a analista, além dos obstáculos enfrentados para obter recursos, muitas empresas que conseguem acessar o crédito recebem quantias inferiores às necessárias para atender às suas demandas.
Essa percepção integra o indicador de situação financeira, cuja pontuação varia de zero a 100. O cálculo reúne a avaliação dos empresários sobre a margem de lucro operacional, as condições financeiras dos negócios e a facilidade de obtenção de crédito.
O resultado de 38,5 pontos representa uma redução de 2,5 pontos em relação ao terceiro trimestre de 2025. A marca também está 0,3 ponto abaixo da média histórica da pesquisa, reforçando a dimensão da piora registrada no período.
Os resultados do Panorama da Pequena Indústria revelam, portanto, um contraste entre a reação recente da confiança e as dificuldades enfrentadas pelos negócios. Enquanto o indicador de outubro apresentou melhora, as avaliações financeiras e de desempenho haviam recuado no terceiro trimestre.
