Penitenciária da Agronômica, em Florianópolis, está no centro do projeto da Cidade da Cultura, com teatro para até 2,5 mil pessoas, mas a desativação total ainda depende de novas vagas no sistema prisional entre 2027 e 2028.
Penitenciária com cerca de 2,6 mil pessoas privadas de liberdade no coração de Florianópolis poderá dar lugar à chamada Cidade da Cultura, projeto que prevê a requalificação do Complexo da Agronômica e sua integração com o Centro Integrado de Cultura em uma área de 173 mil m². A proposta foi debatida publicamente nas últimas semanas e envolve concessão de longo prazo, novos equipamentos culturais, áreas abertas de lazer e uma virada urbanística em uma das regiões mais sensíveis e valorizadas da capital catarinense.
Segundo o portal nd+, o detalhe que transforma a história em algo muito maior do que uma simples troca de uso do solo é que o projeto ainda não depende só de vontade política ou desenho arquitetônico. A liberação completa da área trava em um ponto decisivo: sem novas vagas no sistema prisional, o Estado não consegue retirar os internos do Complexo da Agronômica e, por isso, a desativação total segue empurrada para um horizonte gradual entre 2027 e 2028.
O detalhe mais forte está no tamanho da área e no porte do teatro previsto
O dado que mais chama atenção é a escala da transformação. O governo catarinense já apresentou o local como uma área de 173 mil metros quadrados destinada à futura Cidade da Cultura, com integração entre o atual complexo penal e o CIC. Dentro desse redesenho, um dos pontos mais chamativos é a discussão de um novo teatro com capacidade para algo entre 2 mil e 2,5 mil pessoas, quase triplicando a estrutura atual do Teatro Ademir Rosa.
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Esse porte muda totalmente a leitura do terreno. O espaço que hoje simboliza encarceramento e pressão sobre o sistema prisional passa a ser pensado como polo de atração urbana, com potencial para concentrar grandes eventos, exposições, circulação turística e novos usos cotidianos em uma faixa nobre de Florianópolis.
A virada curiosa é que o lugar de uma prisão pode virar uma espécie de nova central cultural da capital

O ponto mais incomum do projeto é justamente a inversão de vocação. A área que abriga presídios, hospital de custódia e estruturas de segurança poderá ser convertida em um complexo de cultura, lazer, esporte, gastronomia e turismo, com cafés, restaurantes, espaços expositivos, convivência e agenda multifuncional integrada ao CIC.
É essa mudança de sentido que dá força à pauta. Não se trata apenas de demolir muros antigos para erguer algo novo, mas de substituir um dos endereços mais marcados pela lógica prisional em Florianópolis por um equipamento pensado para presença pública, encontros, eventos e circulação de moradores e visitantes.
O contexto ampliado mostra que o projeto já anda, mas ainda não está liberado para acontecer por completo
O governo estadual já vinha avançando nessa direção desde 2025, quando apresentou oficialmente a proposta da Cidade da Cultura após visita técnica de secretários ao Complexo da Agronômica. Na época, o Estado descreveu o projeto como uma revitalização completa da área, voltada a cultura, lazer, esporte e turismo. Em 2026, a discussão ganhou novo corpo com audiência pública na Alesc e detalhamento de estudos sobre concessão e exploração da área por até 35 anos.
Ao mesmo tempo, a demolição parcial da antiga penitenciária já havia começado em dezembro de 2025, sinalizando que a reconfiguração do espaço não está mais só no campo das ideias. Ainda assim, o avanço físico do projeto não resolve o principal gargalo operacional, que continua sendo a transferência dos presos para outras unidades.
Por que essa transformação pode mudar a leitura sobre o centro expandido de Florianópolis
Poucos projetos em Florianópolis reúnem ao mesmo tempo localização estratégica, escala territorial e peso simbólico como esse. A Agronômica ocupa uma área central, valiosa e cercada por equipamentos públicos importantes. Se a conversão realmente sair do papel, a capital pode ganhar um novo eixo de dinamização urbana, cultural e turística com força para reconfigurar o uso de uma região hoje marcada por muros, vigilância e limitações de acesso.
A mudança também mexe com a imagem da cidade. Em vez de manter uma estrutura prisional antiga, descrita pelo próprio Estado como inadequada às exigências contemporâneas de segurança e arquitetura penal, Florianópolis passaria a projetar naquele mesmo terreno uma vitrine de uso público e economia criativa.
O que ainda falta confirmar antes de a Cidade da Cultura deixar de ser promessa
Apesar do apelo do projeto, ainda não há como cravar um calendário final para sua entrega. O Estado admite que a desativação total da unidade depende da abertura de novas vagas no sistema prisional e que o cronograma detalhado só poderá ser apresentado quando essa condição avançar. O horizonte trabalhado hoje segue gradual, entre 2027 e 2028, justamente porque a retirada dos detentos ainda enfrenta entraves operacionais.
Também resta acompanhar como o mercado reagirá ao modelo de concessão e qual desenho definitivo será escolhido para o teatro, os museus, os espaços de convivência e os demais equipamentos previstos. O projeto já é grande o bastante para chamar atenção, mas ainda depende de amarrações técnicas, prisionais e econômicas para sair da narrativa de transformação e entrar de vez na fase de execução.
No fim, o que torna essa história tão forte é a coexistência de dois tempos completamente diferentes no mesmo terreno. De um lado, uma penitenciária ainda ativa, com 2,6 mil presos e sem data fechada para esvaziamento total. Do outro, a promessa de um megacomplexo de 173 mil m² com teatro monumental, turismo, cultura e vida urbana aberta. A Cidade da Cultura já existe como visão de futuro, mas sua virada real ainda depende de algo bem menos simbólico e muito mais concreto: espaço no sistema prisional para que a prisão saia, enfim, do mapa da Agronômica.
