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Parasita da malária usa a melatonina humana para sincronizar ciclo de 48 horas no sangue, e descoberta de receptor próprio abre caminho para novos medicamentos

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Escrito por Carla Teles Publicado em 21/10/2026 às 16:27 Atualizado em 21/10/2026 às 16:30
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Parasita da malária usa a melatonina humana para sincronizar ciclo de 48 horas no sangue, e descoberta de receptor próprio abre caminho para novos medicamentos (1)
parasita da malária Plasmodium falciparum usa melatonina e MT-PfSR1 para sincronizar ciclo de 48 horas, aponta estudo.
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Parasita da malária detecta melatonina humana por receptor próprio, sincroniza ciclo de 48 horas nas hemácias e revela alvo potencial para novos medicamentos contra doença.

O parasita da malária Plasmodium falciparum consegue perceber sinais de melatonina produzidos pelo organismo humano e usar essa informação para regular seu desenvolvimento dentro das hemácias. Pesquisadores da USP, em colaboração com cientistas da Université Paris Cité, identificaram o receptor MT-PfSR1 como uma das estruturas responsáveis por essa resposta.

O trabalho, divulgado em outubro de 2026, ajuda a explicar um fenômeno investigado há mais de duas décadas: a capacidade de grande parte dos parasitas presentes no sangue de evoluir de maneira sincronizada ao longo de aproximadamente 48 horas. A descoberta não representa um novo medicamento pronto, mas revela uma via biológica que pode ser explorada em futuras estratégias terapêuticas.

Parasita da malária acompanha sinais do relógio biológico humano

parasita da malária Plasmodium falciparum usa melatonina e MT-PfSR1 para sincronizar ciclo de 48 horas, aponta estudo.
 Imagem: Omikron/Science Source/Reprodução.

A melatonina é produzida principalmente pela glândula pineal e participa da regulação do ciclo de sono e vigília. Sua liberação aumenta durante a noite e funciona como um dos sinais temporais utilizados pelo organismo humano para organizar diferentes processos fisiológicos.

O que chama atenção é que o parasita da malária também parece conseguir interpretar esse sinal. O Plasmodium falciparum possui mecanismos capazes de responder à melatonina e ajustar etapas de seu próprio desenvolvimento dentro das células vermelhas do sangue.

Isso significa que o parasita não se comporta como um organismo totalmente isolado dentro do hospedeiro. Ele consegue perceber elementos químicos presentes no ambiente humano e transformar essas informações em sinais celulares capazes de interferir no seu ciclo.

Essa relação ajuda a explicar por que a atividade dos parasitas pode ocorrer de forma coordenada, com muitos deles atingindo etapas semelhantes de desenvolvimento ao mesmo tempo.

Ciclo de 48 horas termina com ruptura das hemácias

Uma das características do Plasmodium falciparum é a progressão relativamente sincronizada durante sua fase dentro das hemácias.

Grande parte dos parasitas pode avançar de maneira coordenada por um ciclo de aproximadamente 48 horas, que termina com a ruptura das células sanguíneas e a liberação de novos parasitas na circulação. Esse comportamento está relacionado aos episódios periódicos de febre observados na doença.

Quando muitas hemácias se rompem em períodos próximos, ocorre uma liberação concentrada de parasitas e componentes celulares.

Essa dinâmica ajuda a compreender a regularidade de alguns sintomas associados à malária e demonstra que o relógio biológico do hospedeiro pode oferecer pistas temporais aproveitadas pelo próprio agente infeccioso.

A pergunta central para os pesquisadores era justamente descobrir como esse sinal chegava ao interior do parasita.

Receptor MT-PfSR1 ajuda a explicar resposta à melatonina

A busca começou anos antes da identificação atual. Em 2008, pesquisadores já haviam localizado quatro possíveis receptores acoplados à proteína G no genoma do Plasmodium.

Esses receptores, conhecidos pela sigla GPCR, atuam como sistemas de comunicação celular: recebem um sinal externo e desencadeiam respostas dentro da célula.

Em estudos recentes, dois desses candidatos foram analisados com ferramentas computacionais e experimentos em culturas celulares.

Os resultados mostraram que o MT-PfSR1 responde funcionalmente à melatonina, fornecendo uma explicação molecular para uma conexão que vinha sendo investigada desde os anos 2000.

A identificação é relevante porque transforma uma observação biológica em um mecanismo mais específico. Em vez de apenas saber que a melatonina interfere no desenvolvimento do parasita, os cientistas passam a ter uma estrutura celular concreta para investigar.

Descoberta cria possível alvo para novos medicamentos

Receptores celulares são alvos frequentes na farmacologia porque podem ser estimulados ou bloqueados por determinadas moléculas.

No caso do parasita da malária, a identificação do MT-PfSR1 abre a possibilidade de estudar compostos capazes de interferir nessa via de sinalização sem necessariamente atuar da mesma maneira sobre células humanas.

Durante a pesquisa, os cientistas também caracterizaram um composto sintético chamado AR34.

Nos testes realizados, o AR34 ativou o MT-PfSR1 sem se ligar aos receptores humanos de melatonina e inibiu o crescimento do parasita em condições in vitro.

Esse resultado é promissor do ponto de vista experimental, mas ainda está distante de representar um tratamento disponível.

Experimentos em culturas celulares são uma etapa inicial. Antes de qualquer aplicação clínica, ainda seriam necessários estudos adicionais de eficácia, segurança, toxicidade e comportamento do composto em organismos vivos.

Resistência aos antimaláricos aumenta importância de novos alvos

A busca por novos mecanismos de ação ganhou importância porque o combate à doença enfrenta o surgimento de parasitas resistentes aos medicamentos já utilizados.

Encontrar estruturas próprias do Plasmodium pode permitir o desenvolvimento de terapias que atuem em pontos ainda pouco explorados da biologia do agente infeccioso.

Quanto mais específico for o alvo presente no parasita, maior o interesse em verificar se é possível interferir nele sem provocar efeitos indesejados sobre estruturas equivalentes do organismo humano.

É nesse contexto que o receptor ligado à melatonina chama atenção.

Além de ajudar a compreender a sincronização do parasita da malária, ele pode servir como base para pesquisas destinadas a desenvolver moléculas capazes de desorganizar processos essenciais ao crescimento ou à reprodução do Plasmodium.

Plasmodium falciparum está ligado às formas mais graves

A malária é causada por parasitas do gênero Plasmodium e normalmente transmitida aos humanos pela picada de fêmeas infectadas do mosquito Anopheles.

Cinco espécies podem provocar a doença em humanos, mas Plasmodium falciparum e Plasmodium vivax estão entre as mais relevantes do ponto de vista sanitário.

O P. falciparum é particularmente importante porque está associado às manifestações mais graves da doença.

A infecção pode evoluir para complicações severas envolvendo órgãos como rins, fígado, cérebro e pulmões, o que reforça a necessidade de manter pesquisas sobre novas formas de diagnóstico, prevenção e tratamento.

Em 2024, foram registrados 282 milhões de casos de malária no mundo, cerca de 9 milhões a mais do que no ano anterior, segundo dados citados na pesquisa. Nas Américas, foram contabilizados aproximadamente 536,7 mil casos no mesmo período.

Pesquisa conecta ritmo circadiano e biologia do parasita

O aspecto mais incomum da descoberta está na capacidade do Plasmodium de usar sinais associados ao relógio biológico humano para organizar seu próprio desenvolvimento.

A melatonina não serve simplesmente como um hormônio relacionado ao sono nesse contexto. Para o parasita, ela pode funcionar como uma informação sobre o estado fisiológico do hospedeiro.

Essa capacidade mostra como organismos infecciosos podem evoluir mecanismos sofisticados para interpretar o ambiente em que vivem.

O parasita da malária não controla o relógio humano, mas consegue aproveitar sinais produzidos por ele para regular sua própria atividade.

Ao identificar o receptor relacionado a essa comunicação, os pesquisadores passam a compreender melhor onde essa informação é recebida e como ela pode ser manipulada experimentalmente.

Receptor abre nova frente, mas tratamento ainda exige pesquisa

A descoberta do MT-PfSR1 ajuda a preencher uma lacuna de mais de duas décadas sobre a relação entre melatonina e sincronização do Plasmodium.

Ela também estabelece uma base para estudar moléculas seletivas, como o AR34, e investigar se interferir nessa comunicação pode ser útil para limitar o crescimento do parasita.

Ainda assim, não há um novo medicamento contra a malária decorrente desse estudo disponível para pacientes neste momento. O avanço está na identificação de uma via biológica e de um possível alvo farmacológico que agora pode ser explorado com maior precisão.

A pesquisa mostra como um hormônio conhecido principalmente por regular o sono pode ser aproveitado por um organismo microscópico dentro do sangue humano. Nos comentários, conte o que mais surpreende nessa descoberta: a sincronização de 48 horas ou o fato de o parasita conseguir detectar a melatonina humana.

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Carla Teles

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