A hidrelétrica de Belo Monte opera com licença vencida desde 2021 e geração média de 31% enquanto a Norte Energia descumpriu duas vezes a ordem do Ibama para revisar o hidrograma da Volta Grande do Xingu, onde comunidades indígenas relatam queda de 70% na proteína de peixe e piracemas secas.
Quase dez anos após o acionamento da primeira turbina em 2016, a hidrelétrica de Belo Monte volta ao centro de um impasse que expõe as contradições da maior obra de infraestrutura energética da história recente do Brasil. Construída no rio Xingu no Pará com capacidade para abastecer até 10% do território nacional em períodos de cheia, a hidrelétrica opera hoje com licença ambiental vencida desde 2021 e é alvo de disputa judicial entre a concessionária Norte Energia e o Ibama sobre o hidrograma, plano que define quanto da água do Xingu segue para as turbinas e quanto desce pelo curso natural em direção à Volta Grande, trecho de 130 quilômetros onde vivem comunidades tradicionais que denunciam o colapso da pesca. A capacidade instalada de 11.233 megawatts faz da hidrelétrica a terceira maior do mundo, mas a geração média efetiva é de apenas 31% dessa capacidade segundo o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS), diferença que reflete o modelo a fio d’água que depende diretamente do regime de chuvas do Xingu.
Do outro lado do rio, a realidade é contada em peixes que sumiram e famílias que perderam o sustento. Segundo o MATI (Monitoramento Ambiental Territorial Independente), grupo formado por indígenas, ribeirinhos, UFPA, USP e Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, houve redução de 70% no consumo de proteína vinda da pesca entre povos indígenas da Volta Grande do Xingu após a entrada em operação da hidrelétrica. “Na verdade, o nosso rio está, tipo assim, paralítico. Acabou a correnteza dele. Peixe muito pouco. Muito pouco mesmo que restou para nós”, relatou Leonardo, ribeirinho da Volta Grande, em entrevista à reportagem da DW Brasil sobre os efeitos da usina, depoimento que ilustra o que comunidades tradicionais vivem desde que a barragem passou a desviar entre 70% e 80% das águas que antes alimentavam o trecho natural do rio.
O que é o hidrograma e por que ele virou o centro da disputa sobre a hidrelétrica
O hidrograma é o documento que traduz em números a tensão entre gerar energia e preservar o rio. Ele define quanto da água do Xingu a hidrelétrica pode desviar para suas turbinas e quanto precisa continuar fluindo pelo curso natural em direção à Volta Grande, equilíbrio que afeta simultaneamente a geração de eletricidade e a sobrevivência de ecossistemas e comunidades que dependem do rio para pescar, plantar e viver. O plano em vigor foi definido durante o licenciamento ambiental original e a Norte Energia o chama de “hidrograma de consenso”, terminologia que indígenas e ribeirinhos contestam ao argumentar que nunca houve consenso real sobre quanto de água bastaria para manter o rio vivo.
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A disputa sobre o hidrograma da hidrelétrica escalou para a Justiça em 2026. Em agosto de 2025, a diretoria de licenciamento do Ibama recomendou pela primeira vez a revisão do plano de vazão, e em setembro a presidência do órgão acatou a recomendação estabelecendo prazo de quatro meses para a Norte Energia apresentar novo ciclo de hidrogramas. A concessionária da hidrelétrica descumpriu o primeiro prazo em janeiro de 2026 e o segundo em abril, quando entrou na Justiça Federal pedindo que o Ibama seja impedido de exigir a revisão, argumentando que seus próprios dados demonstram que os impactos ambientais “estão dentro do esperado” e que o hidrograma já foi avaliado 14 vezes ao longo do licenciamento.
O que as comunidades e o Ibama dizem sobre os impactos da hidrelétrica no Xingu
Os relatórios técnicos do Ibama e as denúncias das comunidades pintam quadro de deterioração progressiva da Volta Grande após a entrada em operação da hidrelétrica. Reportagem da Agência Pública apurou em fevereiro de 2025 que, das sete piracemas visitadas na Volta Grande, nenhuma tinha água suficiente para reprodução de peixes e duas estavam completamente secas, com vazão registrada de 5.579 metros cúbicos por segundo contra média histórica de 13.544 metros cúbicos para o mesmo período. A lista de espécies que moradores relatam em desaparecimento inclui pacu de seringa, pacu branco, cadete, piau, caranha, surubim, fidalgo e acari, peixes que durante gerações formaram a base alimentar e econômica das comunidades da Volta Grande.
Além da pesca, a construção da hidrelétrica provocou deslocamento que permanece inconcluso uma década depois. A Norte Energia reassentou 3.850 famílias durante a obra, mas pelo menos 322 famílias ribeirinhas ainda buscam retornar à beira do rio, argumentando que foram removidas para bairros distantes da água onde não conseguem manter o modo de vida que tinham antes da hidrelétrica. Em despacho de setembro de 2025, a presidência do Ibama registrou que o hidrograma em vigor “não garante a manutenção dos ecossistemas e modos de vida” da Volta Grande, posição institucional que fundamenta a exigência de revisão que a Norte Energia contesta judicialmente.
O que a Norte Energia diz sobre os impactos da hidrelétrica de Belo Monte
A concessionária da hidrelétrica mantém posição de que os impactos ambientais estão dentro dos parâmetros previstos no licenciamento. Em comunicado oficial e em declarações reproduzidas pela Agência Pública e pela DW Brasil, a Norte Energia afirma que “todas as piracemas e todo o sistema da Volta Grande do Xingu continuam funcionais e resilientes” e que “não há ruptura ecológica”, apenas “manutenção das condições naturais da Volta Grande do Xingu”. A empresa também destaca investimentos em infraestrutura urbana em Altamira, incluindo sistema de tratamento de esgoto, escolas e novos bairros construídos para as famílias reassentadas pela hidrelétrica.
A Norte Energia propôs ao Ibama em abril de 2026 a criação de “articulação conjunta” entre a empresa, o Ministério do Meio Ambiente, o Ministério de Minas e Energia, o Ibama e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE) para discutir o tema. O argumento da concessionária da hidrelétrica é que os dados de impacto ambiental apresentados pelo Ibama contêm erros e que o esquema de vazão foi escrutinado 14 vezes ao longo do licenciamento com aval de múltiplos órgãos governamentais, posição que encontra eco no Ministério de Minas e Energia, onde setores tentam ampliar a influência ministerial sobre o hidrograma em conflito institucional com o Ibama. A disputa interna no governo federal entre o MME (preocupado com geração de energia) e o MMA (com o Ibama na linha de frente da proteção ambiental) é dimensão que torna o caso da hidrelétrica maior do que a relação entre empresa e regulador.
Por que a hidrelétrica de Belo Monte importa para a matriz energética do Brasil
A relevância da hidrelétrica para a segurança energética nacional é o fator que complexifica qualquer decisão sobre o hidrograma. Em períodos de cheia do Xingu no primeiro semestre, Belo Monte é a usina que mais gera energia no Brasil e abastece até 10% do consumo nacional, produção que alivia a dependência de térmicas a gás natural, carvão e óleo combustível que poluem mais e custam mais caro. Na crise hídrica de 2021, hidrelétricas como Belo Monte foram cruciais para evitar apagão, demonstração prática de que a matriz hídrica permanece insubstituível no curto prazo mesmo com avanço da energia solar e eólica.
O paradoxo é que o Pará, estado que abriga a hidrelétrica, paga uma das tarifas de energia mais caras do Brasil. A energia gerada por Belo Monte alimenta o Sistema Interligado Nacional e é distribuída por todo o país, mas a tarifa cobrada do consumidor paraense reflete custos de distribuição local, perdas técnicas e histórico tarifário que fazem com que moradores de Altamira, cidade vizinha da hidrelétrica, paguem proporcionalmente mais pela luz do que consumidores de estados do Sudeste que recebem a mesma energia. A revisão do hidrograma que o Ibama exige significaria, em tese, menos água para as turbinas e portanto menos geração, equação que preocupa o setor elétrico e que alimenta a resistência da Norte Energia e do Ministério de Minas e Energia à mudança.
O que o futuro de Belo Monte revela sobre os limites da energia hidrelétrica no Brasil
A licença ambiental de operação da hidrelétrica venceu em 2021 e permanece em análise no Ibama há quase quatro anos, situação regulatória que mantém a usina operando enquanto aguarda decisão final. O desfecho da disputa do hidrograma pode definir não apenas o futuro de Belo Monte mas também o tom do licenciamento de novos empreendimentos energéticos na Amazônia, porque a decisão sobre quanta água um rio precisa para sobreviver com comunidades e ecossistemas intactos é precedente que se aplicará a qualquer projeto futuro na bacia amazônica. A hidrelétrica é simultaneamente peça de segurança energética e símbolo dos custos ambientais e sociais que o Brasil aceitou pagar para garantir eletricidade.
O caso de Belo Monte obriga o país a responder pergunta que não tem resposta simples: é possível operar a terceira maior hidrelétrica do mundo mantendo vivo o rio que a alimenta? A Norte Energia diz que sim, o Ibama diz que nas condições atuais não, e as comunidades da Volta Grande dizem que já pagaram o preço dessa resposta com peixes que sumiram, famílias deslocadas e um rio que perdeu a correnteza. Nos próximos meses, a Justiça Federal, o governo e a sociedade brasileira terão que decidir quanto vale a energia de Belo Monte e quanto custa o rio Xingu.
E você, acha que é possível conciliar a geração de energia de Belo Monte com a sobrevivência do rio Xingu? Deixe sua opinião nos comentários.


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