Com apenas 61 metros cúbicos de água por pessoa ao ano, a Jordânia investe em megaprojeto de dessalinização para abastecer Amã e reduzir a pressão sobre famílias afetadas pelo racionamento
A dessalinização na Jordânia é tratada como uma das principais respostas à escassez extrema de água no país, que tem apenas 61 metros cúbicos disponíveis por pessoa ao ano. A obra deve captar água do Mar Vermelho, tratar o recurso e bombeá-lo por mais de 400 quilômetros até Amã, com previsão de conclusão em 2030.
Jordânia vive escassez absoluta de água
A Jordânia está entre os países mais áridos do mundo e aparece como o segundo em escassez de água em algumas classificações. Segundo o Unicef, cada habitante tem acesso a 61 metros cúbicos de água por ano.
Esse volume representa cerca de 12% dos 500 metros cúbicos mínimos estabelecidos pela Organização das Nações Unidas para caracterizar uma condição fora da escassez absoluta. Na prática, a falta de água não é um problema distante, mas parte da rotina da população.
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O desafio hídrico se soma a outro marco do país: em 2026, a seleção jordaniana disputará pela primeira vez a Copa do Mundo, após nove tentativas frustradas.
Mas, fora dos campos, a pressão sobre o abastecimento segue como uma das questões mais urgentes.
Clima, geografia e evaporação agravam o problema
De acordo com Luis Antonio Bittar, professor titular do Departamento de Geografia da USP e especialista em recursos naturais, as causas principais da escassez são climáticas e geográficas.
Mais de 90% da chuva que cai no país evapora antes de infiltrar no solo e recarregar os aquíferos. O aumento das temperaturas intensifica esse processo, afetando tanto a água da chuva quanto os reservatórios superficiais.
A geografia também pesa. Cerca de 80% do território jordaniano é formado por áreas áridas e desérticas, o que amplia a evaporação e reduz a capacidade natural de armazenamento e renovação de água doce.
Segundo Bittar, autor do livro “Água no Oriente Médio: o fluxo da paz”, a situação ainda é agravada por disputas geopolíticas envolvendo fontes compartilhadas.
A Jordânia divide o rio Jordão e o rio Yarmouk com Síria e Israel, em um contexto de controle militar e político dessas águas.

Racionamento atinge casas e pesa no orçamento
Os efeitos para a população aparecem no abastecimento diário. Bittar, que esteve na Jordânia em três ocasiões, relata que o racionamento é frequente em Amã e em outras regiões do país.
Na maior parte das áreas urbanas, as casas recebem água canalizada uma vez por semana. Em algumas regiões rurais, o intervalo pode chegar a duas ou três semanas.
Por isso, muitas residências contam com cisternas para armazenar água no dia do abastecimento. Quando o volume acaba antes da nova entrega, famílias precisam recorrer a caminhões-pipa privados, o que aumenta o peso no orçamento doméstico.
Outro fator de pressão é o crescimento populacional associado à chegada de refugiados. A Jordânia recebeu, nas últimas décadas, pessoas vindas principalmente da Palestina ocupada, do Iraque e, mais recentemente, da Síria.

Dessalinização deve levar água do Mar Vermelho até Amã
O grande projeto de dessalinização é visto como uma alternativa para reduzir a dependência de fontes naturais de água doce, como rios, aquíferos e lençóis, que já estão abaixo da demanda.
A estrutura prevista vai coletar água do Mar Vermelho em Aqba, no sudoeste do país. Depois da dessalinização, a água tratada será bombeada por mais de 400 quilômetros até Amã, capital jordaniana.
A expectativa é que o projeto, quando concluído, supra cerca de 40% da necessidade de abastecimento do país. A previsão é que as obras sejam finalizadas até 2030.
Segundo Bittar, a vantagem da dessalinização é não depender das chuvas nem de disputas por rios transfronteiriços.
Mesmo com custos menores de operação em comparação a anos anteriores e menor necessidade de energia elétrica, a usina ainda exige tempo para ficar totalmente operacional.
Esta matéria foi elaborada com base em informações do material-base fornecido, com dados, números e declarações preservados conforme o material consultado.


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