Arqueólogos trabalhavam na preparação de uma ferrovia quando retiraram da lama uma figura humana de carvalho com 67 centímetros, roupas, cabelos e músculos esculpidos. Preservado pela falta de oxigênio durante quase 2 mil anos, o objeto pode ter sido depositado como oferenda, mas sua verdadeira função permanece desconhecida.
Durante os trabalhos preparatórios para a construção da ferrovia de alta velocidade HS2, arqueólogos encontraram o que parecia ser apenas um pedaço de madeira degradada no fundo de uma vala encharcada em Twyford, no condado inglês de Buckinghamshire. À medida que a lama foi retirada, começaram a aparecer uma cabeça, um corpo vestido e pernas cuidadosamente esculpidas. O material sem forma revelou-se uma rara figura humana de madeira associada ao início do período romano na Inglaterra.
A peça mede 67 centímetros de altura e 18 centímetros de largura, foi entalhada em um único bloco de madeira e preserva detalhes suficientes para mostrar cabelos ou um possível chapéu, uma túnica presa à cintura e músculos definidos nas pernas.
Arqueólogos pensaram ter encontrado madeira apodrecida
A descoberta ocorreu em julho de 2021, durante uma investigação arqueológica realizada em Three Bridge Mill. A área estava sendo examinada como parte dos trabalhos preparatórios necessários para a implantação da linha ferroviária HS2.
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No fundo de uma antiga vala romana preenchida por argila e água, a equipe encontrou um objeto alongado e escurecido. À primeira vista, sua aparência não indicava que pudesse se tratar de uma escultura produzida há quase dois milênios.
A identificação só aconteceu quando a escavação avançou e o formato humano começou a surgir. O objeto foi então reconhecido como uma figura antropomórfica, expressão utilizada para elementos que apresentam características semelhantes às do corpo humano.
Figura de 67 centímetros foi talhada em carvalho
A escultura foi produzida a partir de uma única peça de madeira, sem partes separadas encaixadas posteriormente. Documentos técnicos do programa arqueológico da HS2 identificaram o material como pertencente ao gênero Quercus, que reúne as diferentes espécies de carvalho.
Com 67 centímetros de altura, a peça é muito maior do que pequenos amuletos ou estatuetas normalmente associados ao período romano. Sua largura máxima foi calculada em aproximadamente 18 centímetros.

O uso do carvalho também chama atenção porque objetos orgânicos raramente permanecem preservados por períodos tão longos. Madeira, tecidos, couro e fibras vegetais costumam desaparecer rapidamente quando expostos ao oxigênio, à umidade variável e à atividade de microrganismos.
Túnica e músculos ainda podem ser vistos na madeira
Apesar das perdas provocadas pelo tempo, uma quantidade significativa de detalhes permaneceu visível. A cabeça está ligeiramente voltada para a esquerda, enquanto a parte superior apresenta marcas que podem representar cabelos trabalhados ou algum tipo de cobertura.
A figura parece usar uma túnica reunida ou presa na região da cintura. A roupa desce até pouco acima dos joelhos, característica utilizada pelos pesquisadores na avaliação inicial sobre a possível idade romana do objeto.
As pernas também foram cuidadosamente modeladas pelo artesão. O formato das panturrilhas e a musculatura ainda podem ser reconhecidos, demonstrando que o entalhe original não era uma simples forma abstrata, mas uma representação humana elaborada.
Partes dos braços e dos pés desapareceram
A figura chegou ao presente em condições consideradas surpreendentes para um objeto de madeira tão antigo. Entretanto, os braços abaixo dos cotovelos e os pés sofreram degradação e não permaneceram completos.
Essas perdas dificultam a identificação da postura original. Sem as mãos, não é possível saber se a figura segurava algum objeto, fazia um gesto religioso ou apresentava algum símbolo capaz de revelar sua função.
Também não foi confirmado se a escultura representa um homem, uma mulher, uma divindade ou outra figura simbólica. Essas questões continuaram fazendo parte das avaliações previstas no programa de análise posterior à escavação.
Cerâmicas ajudaram a indicar a idade do objeto
Fragmentos de cerâmica encontrados na mesma vala foram datados entre os anos 43 e 70 d.C.. Esse intervalo corresponde às primeiras décadas da presença romana estabelecida na Grã-Bretanha.
O estilo da escultura e a aparência da túnica também apontaram para o início do período romano. Documentos técnicos do projeto registraram paralelos com figuras encontradas na França e associadas a cronologias semelhantes.
A data exata da madeira, porém, dependia de exames especializados. Um pequeno fragmento separado da figura foi destinado à datação por radiocarbono, enquanto análises isotópicas poderiam ajudar a investigar a procedência do material utilizado.
Lama sem oxigênio impediu que a peça apodrecesse
A sobrevivência da figura está diretamente relacionada ao ambiente em que ela permaneceu enterrada. A antiga vala estava preenchida com argila encharcada, criando condições com pouco oxigênio ao redor da madeira.
A ausência de oxigênio reduziu a ação dos organismos responsáveis pela decomposição. Dessa maneira, a escultura permaneceu saturada de água, mas não desapareceu completamente como ocorreria em um terreno seco e ventilado.
O mesmo ambiente que preservou a peça também a tornou extremamente vulnerável depois da descoberta. Ao entrar em contato repentino com o ar, a madeira poderia encolher, rachar, deformar-se e perder definitivamente os detalhes esculpidos.
Escultura precisou voltar imediatamente para a água
Depois de retirar a figura da vala, os arqueólogos precisaram impedir que ela secasse de maneira descontrolada. A peça foi colocada imediatamente dentro de um grande recipiente com água.
O procedimento manteve as células da madeira saturadas até que o objeto pudesse ser transportado com segurança. A escultura seguiu para o laboratório especializado da York Archaeology, responsável por sua estabilização.

A rapidez foi necessária porque parte da estrutura celular original da madeira havia sido degradada. A água ocupava os espaços deixados pela perda da celulose, mantendo temporariamente o formato do objeto enterrado.
Conservadores removeram lama e manchas de ferro
No laboratório, a figura foi inicialmente lavada com água corrente fria para retirar terra, argila e resíduos ainda presos à superfície. A limpeza precisava preservar marcas que poderiam ter sido produzidas pelas ferramentas do artesão romano.
Depois da lavagem, a escultura foi mergulhada durante 24 horas em uma solução destinada à remoção de manchas provocadas por compostos de ferro. Em seguida, voltou a ser enxaguada e permaneceu por mais 48 horas em água limpa.
Essa preparação permitiu que a equipe estabilizasse o objeto antes da etapa mais longa do tratamento. Qualquer secagem prematura poderia provocar o colapso da madeira e destruir permanentemente a aparência da figura.
Produto especial substituiu partes enfraquecidas da madeira
A figura foi colocada em um tanque contendo água e polietilenoglicol, substância conhecida pela sigla PEG. O produto é utilizado na conservação de madeira arqueológica retirada de ambientes alagados.
A concentração de PEG foi aumentada lentamente durante vários meses. O objetivo era permitir que a substância penetrasse na madeira e ocupasse espaços internos enfraquecidos pela degradação ocorrida durante os séculos de enterramento.
O tratamento forneceu sustentação estrutural à peça. Sem esse reforço, a retirada da água poderia causar forte contração, rachaduras e perda do formato entalhado pelo artesão romano.
Figura foi congelada e seca a 40 graus negativos
Após a penetração do polietilenoglicol, a figura passou por um processo de liofilização. A escultura foi congelada e submetida à secagem controlada em uma temperatura de 40 graus Celsius negativos.
A técnica possibilitou remover a água sem permitir que a estrutura interna da madeira desabasse. Depois da liofilização, a peça foi limpa com escova seca e recebeu um tratamento superficial leve.
A figura permaneceu secando ao ar antes de ser colocada em uma caixa plástica com tampa, suportes e materiais de amortecimento. O acondicionamento foi preparado para proteger o objeto durante o armazenamento de longo prazo.
Possível oferenda romana ainda não foi comprovada
A verdadeira finalidade da escultura permanece desconhecida. Uma das hipóteses consideradas é que figuras de madeira desse tipo fossem depositadas como presentes ou oferendas dedicadas a divindades.
A posição no fundo de uma vala pode indicar que o objeto não foi simplesmente descartado. Uma deposição intencional explicaria por que uma figura trabalhada foi deixada em um ambiente alagado, prática que poderia ter significado religioso.
Entretanto, os arqueólogos não encontraram evidências suficientes para confirmar essa interpretação. Portanto, não é possível afirmar se a figura participou de um ritual, representava uma divindade ou tinha uma função cotidiana.
Descobertas semelhantes são extremamente raras
Esculturas completas de madeira relacionadas ao período romano são raramente encontradas na Grã-Bretanha. A maioria dos objetos produzidos com esse material desapareceu devido à decomposição natural.
A HS2 citou exemplares romanos recuperados em Dijon e Chamalières, na França, como possíveis referências para comparação. Na Inglaterra, um membro de madeira interpretado como possível oferenda romana foi encontrado dentro de um poço em Northampton em 2019.
A raridade aumenta a importância da figura de Twyford. A peça demonstra que esculturas, objetos cerimoniais e outras formas de arte em materiais perecíveis provavelmente foram mais comuns do que o registro arqueológico preservado consegue mostrar.
Obra ferroviária revelou paisagem ocupada há séculos
A descoberta ocorreu dentro de um amplo programa arqueológico desenvolvido antes e durante as intervenções da primeira fase da HS2. O projeto investigou diferentes áreas situadas entre Londres e Birmingham.
Em Buckinghamshire, as escavações revelaram estradas, assentamentos, sepulturas, moedas, edifícios agrícolas e outros vestígios ligados ao período romano. Esses materiais ajudam a reconstruir como as comunidades ocupavam e exploravam a região.
A figura humana, porém, oferece uma evidência diferente. Enquanto construções e moedas revelam aspectos econômicos, a escultura pode estar relacionada à identidade, às crenças ou à representação simbólica das pessoas que viveram naquela paisagem.
Peça poderá ser exibida depois dos estudos finais
Em janeiro de 2026, o Conselho de Buckinghamshire informou que a figura já estava estabilizada após o tratamento especializado. O objeto deveria passar por novas avaliações dentro do programa de pós-escavação da HS2.
Os especialistas pretendiam analisar o tipo de madeira, o estado de preservação e os detalhes capazes de ajudar na identificação da personagem. Entre as perguntas estão se a figura é masculina ou feminina e se representa um ser humano ou uma divindade.
A expectativa de longo prazo é que a peça possa ser colocada em exposição pública. Até que os estudos sejam concluídos, a figura de carvalho continuará preservando o mistério sobre quem foi representado e por que o objeto acabou depositado naquela vala romana.
