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O misterioso “gelo que pega fogo” escondido no fundo do oceano aprisiona gás metano sob pressão esmagadora, aparece nas margens continentais do planeta e virou alvo de países em busca de uma energia tão poderosa quanto perigosa

Escrito por Ana Alice
Publicado em 19/05/2026 às 23:06
Entenda o que são hidratos de metano, o gelo que queima no fundo do mar e por que esse recurso intriga cientistas e governos. (Imagem: Ilustrativa)
Entenda o que são hidratos de metano, o gelo que queima no fundo do mar e por que esse recurso intriga cientistas e governos. (Imagem: Ilustrativa)
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Cristais parecidos com gelo armazenam metano em condições extremas no fundo do mar e em regiões congeladas, unindo energia, clima e geologia em um fenômeno que ainda mobiliza pesquisadores e governos.

Os hidratos de metano, conhecidos popularmente como “gelo de fogo”, são cristais semelhantes ao gelo que se formam em sedimentos marinhos profundos e em regiões de permafrost.

A aparência recebe esse nome porque, quando uma amostra é retirada do ambiente de alta pressão e o metano aprisionado começa a escapar, o gás pode queimar ao entrar em contato com uma fonte de ignição.

A substância é estudada por sua capacidade de concentrar grandes volumes de gás natural em estruturas microscópicas.

Ao mesmo tempo, pesquisadores tratam esses depósitos como um tema que exige monitoramento, já que sua estabilidade depende de uma combinação específica de pressão, temperatura, profundidade e composição dos sedimentos.

Como os hidratos de metano prendem gás no gelo

O hidrato de metano é um tipo de clatrato, estrutura em que moléculas de água formam uma espécie de gaiola cristalina ao redor de moléculas de gás.

Nesse processo, não ocorre uma ligação química comum entre água e metano, mas um arranjo físico mantido por condições ambientais específicas, principalmente baixa temperatura e pressão elevada.

Essas condições aparecem com frequência em margens continentais, áreas onde o fundo do oceano desce para regiões mais profundas, e também em solos permanentemente congelados.

Segundo o Serviço Geológico dos Estados Unidos, a maior parte do inventário global de hidratos ocorre em sedimentos de margens continentais marinhas, em geral a partir de cerca de 500 metros de profundidade.

A formação do metano costuma estar ligada à decomposição de matéria orgânica soterrada nos sedimentos.

Microrganismos transformam esse material em gás, que pode migrar pelos poros da lama submarina até alcançar uma zona estável.

Nesse ambiente, água e gás formam cristais capazes de permanecer aprisionados por longos períodos, desde que pressão e temperatura se mantenham dentro da faixa adequada.

Por que o gelo de fogo concentra tanta energia

Uma das características mais estudadas dos hidratos é a compactação.

Um pequeno volume sólido pode liberar uma quantidade muito maior de metano quando a estrutura se desfaz em condições de superfície.

Relatórios técnicos citam valores próximos de 164 volumes de gás para um volume de hidrato, enquanto material do Serviço Geológico dos Estados Unidos aponta que, em determinadas estruturas cristalinas, esse número pode chegar a cerca de 180 volumes.

Esse nível de concentração ajuda a explicar o interesse de países com baixa produção própria de gás natural.

O Japão realizou, em 2013, o primeiro teste de produção offshore a partir de hidratos no talude de Nankai, com extração de cerca de 119,5 mil metros cúbicos de gás em seis dias.

A China também conduziu testes no Mar do Sul da China em 2017 e 2020, enquanto uma parceria entre Estados Unidos e Japão avançou em experimentos de longa duração no norte do Alasca.

A exploração comercial, porém, ainda enfrenta obstáculos técnicos.

Parte dos depósitos está em sedimentos ricos em argila ou em sistemas fraturados, condições consideradas menos favoráveis para produção com as tecnologias atuais.

Projetos em estudo tendem a priorizar camadas arenosas, nas quais o gás pode ser liberado por despressurização, método que reduz a pressão no reservatório e provoca a dissociação do hidrato.

Metano no fundo do mar e riscos climáticos

O metano é o principal componente do gás natural, mas também atua como gás de efeito estufa.

Em uma escala de 100 anos, seu potencial de aquecimento é estimado em cerca de 27 a 30 vezes o do dióxido de carbono, conforme critérios usados em inventários climáticos.

Como permanece menos tempo na atmosfera que o CO2, seu impacto relativo é maior quando analisado em períodos mais curtos.

Essa característica sustenta debates sobre a chamada Hipótese da Arma de Clatratos, segundo a qual a desestabilização rápida de grandes depósitos poderia liberar metano em volume suficiente para intensificar o aquecimento global.

A hipótese aparece em estudos sobre eventos climáticos do passado, mas a literatura científica recente adota cautela ao tratar da possibilidade de uma liberação maciça e abrupta no cenário atual.

Pesquisadores ligados ao Serviço Geológico dos Estados Unidos apontam que o aquecimento do oceano pode degradar hidratos em algumas regiões.

Ainda assim, estudos citados pelo órgão indicam que uma emissão gigantesca de metano diretamente para a atmosfera, causada apenas por esse processo, é considerada improvável no conhecimento científico disponível.

Parte do gás liberado tende a ficar retida nos sedimentos, dissolver-se na água ou ser consumida por microrganismos antes de chegar ao ar.

Vazamentos de metano no Mar de Ross, na Antártida

O tema voltou a ganhar atenção com registros no Mar de Ross, na Antártida.

Um estudo publicado na revista Nature Communications relatou numerosos vazamentos de fluidos e gases no fundo marinho costeiro da região, inclusive em áreas monitoradas havia anos ou décadas sem registros anteriores desse tipo de atividade.

Os autores afirmam que a origem e os mecanismos desses vazamentos ainda não estão definidos.

O trabalho indica a necessidade de investigar se processos associados a mudanças na criosfera podem ter papel semelhante ao observado em outras regiões do planeta, mas não confirma que os vazamentos sejam resultado direto de mudanças recentes nas correntes oceânicas profundas.

Essa distinção é relevante porque vazamentos submarinos nem sempre significam emissão imediata para a atmosfera.

Em muitos casos, o metano passa por transformações ao longo da coluna d’água ou é consumido por bactérias antes de alcançar a superfície.

Ainda assim, a descoberta reforça a importância do monitoramento em áreas polares, onde gelo, oceano, sedimentos e ecossistemas interagem de forma complexa.

Como cientistas monitoram o gelo de fogo

A investigação dos hidratos combina navios oceanográficos, sensores acústicos, perfuração científica, veículos operados remotamente e análise de testemunhos de sedimento.

Sonar e outros instrumentos ajudam a detectar plumas de gás subindo do fundo do mar, enquanto robôs e amostragens sob pressão permitem estudar os cristais com menor alteração de sua estrutura original.

Esse trabalho também envolve a avaliação de riscos geológicos.

A liberação de gás sob pressão pode alterar a resistência dos sedimentos e contribuir para instabilidades locais, como deslizamentos submarinos.

Dependendo da escala e da localização, esses eventos podem afetar cabos, plataformas, dutos e ecossistemas de águas profundas.

Na área energética, o principal desafio técnico é produzir gás sem provocar vazamentos descontrolados, sem desestabilizar o fundo do mar e sem ampliar impactos climáticos.

Tecnologias de controle de areia, monitoramento de pressão, avaliação térmica e estudos de longo prazo ainda precisam demonstrar segurança e viabilidade econômica fora de testes experimentais.

O chamado “gelo de fogo” reúne, em um mesmo material, processos de energia, clima e geologia marinha.

Um bloco que se parece com gelo comum pode armazenar metano por longos períodos, liberar gás quando sai da zona de estabilidade e ajudar cientistas a entender como o fundo do oceano guarda carbono em condições extremas.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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