Projeto criado em Caracaraí reaproveita latinhas de alumínio na produção de móveis, une técnica própria, sustentabilidade e ensino digital, e mostra como resíduos comuns podem ganhar novas funções no cotidiano.
Latinhas de alumínio que poderiam ser descartadas no lixo ou no meio ambiente passaram a ser usadas na produção de móveis e peças utilitárias em Caracaraí, no interior de Roraima.
O reaproveitamento é feito pelo Projeto Lata, criado pelo empreendedor Adriano Bezerra, que desenvolveu uma técnica para transformar o material em bancos, mesas, lixeiras, cadeiras, suportes e outros objetos de uso cotidiano, sem derreter a lataria ou submetê-la a processo industrial.
A proposta utiliza a estrutura original das latas como base para a montagem de peças modulares.
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O material é desmontado, preparado e reorganizado para formar objetos resistentes, segundo o criador do projeto.
A iniciativa surgiu a partir de uma ideia amadurecida ao longo de mais de duas décadas e hoje também é divulgada por meio de conteúdos digitais, nos quais Adriano ensina etapas do processo de produção.
No Brasil, as latas de alumínio integram uma das cadeias de reciclagem mais consolidadas do país.
Segundo balanço divulgado pela Recicla Latas e noticiado pela Agência Brasil, 97,3% das latas de alumínio para bebidas foram recicladas em 2024.
O Projeto Lata, porém, segue outro caminho dentro da lógica de reaproveitamento: antes de o material voltar à indústria, ele passa a ser usado diretamente na fabricação de novos produtos.
Projeto Lata nasceu em feira de invenções
A relação de Adriano com o reaproveitamento das latinhas começou em 1995, durante uma feira de invenções no estado de São Paulo.
Na ocasião, ele participou de uma conversa sobre resíduos sólidos e ouviu inventores discutirem formas de produzir objetos a partir de materiais como PET e alumínio, preservando parte da estrutura original desses itens.
A discussão fez com que o empreendedor passasse a observar resíduos recicláveis de outra maneira.
Segundo Adriano, a possibilidade de criar algo funcional sem depender da transformação industrial imediata ficou registrada como um desafio pessoal.
A partir dali, latas e embalagens deixaram de ser vistas apenas como sobras de consumo e passaram a ser estudadas como matéria-prima para novas aplicações.
“Naquela época, ouvi pessoas falando que o grande avanço seria encontrar uma forma de produzir usando PET e lata. Passei a olhar para esses materiais de outra forma, como algo que poderia ter utilidade de novo, sem precisar voltar para a indústria. Foi uma ideia que me acompanhou por muito tempo, até eu conseguir transformar isso em realidade”, relembra.
Entre 1995 e 2009, Adriano produziu pequenos protótipos e testou objetos simples, como porta-retratos e suportes.
A etapa seguinte começou em 2009, quando ele passou a organizar um método próprio de produção, com registros diários, ajustes técnicos e repetição dos testes.
Dois anos depois, de acordo com o empreendedor, a metodologia já estava consolidada para uso em peças maiores.

Como latinhas de alumínio viram móveis
A técnica desenvolvida por Adriano parte da desmontagem da lataria.
As partes das embalagens são separadas, cortadas e preparadas para a montagem.
Em seguida, tampas e demais componentes são unidos com arame, formando estruturas que podem ser adaptadas a diferentes formatos e finalidades.
Com o avanço do método, a produção deixou de se limitar aos protótipos.
Em seis anos, mais de 2 mil peças foram comercializadas, segundo as informações divulgadas sobre o projeto.
Entre os itens produzidos estão mesas, bancos, lixeiras e cadeiras, que passaram a circular em eventos, exposições e ações culturais dentro e fora de Roraima.
Uma das estruturas associadas ao Projeto Lata é um bar construído com cerca de 200 mil tampinhas de latas.
A peça foi apresentada em manifestações culturais de Caracaraí, incluindo o carnaval do município, e ajudou a ampliar a divulgação do trabalho junto ao público local.
Adriano afirma que o processo não deve ser classificado apenas como artesanato.
Segundo ele, o método foi desenvolvido e testado ao longo dos anos para permitir a produção de peças funcionais e duráveis.
“Não é apenas artesanato. Estamos falando de uma técnica desenvolvida, testada e aprovada ao longo de anos, que mostra que é possível transformar um resíduo descartado em algo útil, durável e funcional”, afirma.
A informação de que a técnica é patenteada consta no material original sobre o projeto.
No entanto, não foi localizada, em consulta pública aberta, confirmação independente do registro no Instituto Nacional da Propriedade Industrial com dados suficientes para validação.
Reaproveitamento de latas e durabilidade das peças
O Projeto Lata se baseia no reaproveitamento direto de um material descartável para prolongar seu ciclo de uso.
Em vez de transformar a lata em matéria-prima industrial por meio da fusão, a técnica utiliza partes da própria embalagem como componentes de construção dos móveis e utensílios.
Adriano relata que algumas peças produzidas por ele seguem em uso há mais de 15 anos, sem deterioração estrutural significativa.
A durabilidade, segundo o empreendedor, é um dos pontos que sustentam a proposta ambiental do projeto, porque reduz a necessidade de descarte rápido de novos produtos.
“Eu tenho peças com mais de 15 anos de uso que continuam firmes. Isso mostra que não é algo descartável ou passageiro. Quando você cria um produto resistente a partir de algo que seria jogado fora, você evita descarte, reduz impacto ambiental e ainda mostra que sustentabilidade também pode significar durabilidade”, destaca.
A lógica adotada pelo projeto se aproxima do conceito de economia circular, no qual materiais permanecem em circulação por mais tempo antes de serem descartados ou reinseridos na cadeia industrial.
No caso das latinhas, o reaproveitamento ocorre em uma etapa anterior à reciclagem convencional, por meio da criação de novos produtos a partir da própria embalagem.
Técnica sustentável é ensinada nas redes sociais
Além da produção local, o Projeto Lata passou a ser divulgado em plataformas digitais.
Adriano grava, produz e edita os próprios vídeos em casa, com demonstrações sobre medidas, cortes, preparação das peças e montagem das estruturas.
O objetivo, segundo ele, é ensinar a técnica para que outras pessoas possam adaptar o processo a diferentes modelos.
A proposta não se limita à reprodução de uma peça específica.
Ao compreender as etapas de preparação e montagem, o interessado pode criar variações de móveis e objetos de acordo com a necessidade e a disponibilidade de material.
“Mais importante do que ensinar um modelo pronto é ensinar a técnica. Quando a pessoa entende o processo, ela pode criar diferentes peças, adaptar ideias e até transformar isso em uma fonte de renda. Não é sobre decorar móveis, é sobre aprender um conceito que pode abrir novas possibilidades”, resume.
A divulgação pela internet permite que a metodologia circule para além de Caracaraí.
O conteúdo pode alcançar pessoas que trabalham com reciclagem, artesanato ou produção manual, além de interessados em alternativas de reaproveitamento de resíduos.
Para Adriano, o compartilhamento do processo também pode funcionar como caminho de geração de renda.
“Hoje eu vejo isso como um conhecimento que precisa ser compartilhado. Tem muita gente que pode aprender, produzir, vender e encontrar nisso uma oportunidade. Se uma técnica como essa pode ajudar famílias a gerar renda e ainda contribuir com o meio ambiente, então ela precisa alcançar mais pessoas”, afirma.
Projeto Lata circulou em feiras e eventos
Durante a trajetória de desenvolvimento, o projeto contou com apoio do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas de Roraima, o Sebrae/RR.
A instituição ofereceu consultorias, apoio para participação em feiras e deslocamentos para exposições em diferentes estados, conforme as informações disponíveis sobre a iniciativa.
Entre os espaços em que o Projeto Lata foi apresentado estão o Palácio da Cultura, em Boa Vista, em 2009; a Feira do Empreendedor e a Feira da Indústria, na capital roraimense, em 2010 e 2013; uma exposição no Shopping Manauara, em Manaus; a Amazontech, no Amapá, em 2012; e o II Fórum Mundial de Desenvolvimento Econômico Local, realizado em Foz do Iguaçu, em 2013.
Essas participações ampliaram a circulação do projeto e colocaram a técnica em contato com públicos de diferentes áreas.
Segundo Adriano, universidades, engenheiros e profissionais ligados à automação chegaram a demonstrar interesse no modelo de produção.
Em 2010, o nome de Adriano Bezerra de Souza também apareceu associado ao “Projeto Lata: Ecologicamente Correto” em publicação oficial dos Microprojetos Mais Cultura na Amazônia Legal, iniciativa relacionada ao governo federal.
O registro confirma a presença do projeto em ações culturais e ambientais voltadas à região amazônica.
Para o empreendedor, a técnica representa uma forma prática de reduzir o descarte e ampliar o uso de materiais que já circularam no consumo.


Ideia de jirico