O quarto evento global de branqueamento de corais, declarado em 2024 pela NOAA, atingiu até 80% dos recifes do planeta e chegou ao Brasil com força inédita. Maragogi, Natal e Salvador registraram mortalidade elevada, com espécies apresentando perda superior a 90% e risco real de extinção na costa brasileira. O oceanógrafo Miguel Mies, do Projeto Coral Vivo, afirma que o país agora integra o mapa global de vulnerabilidade dos recifes.
O Brasil escapava relativamente ileso do branqueamento que devastava recifes de corais em outras regiões do mundo, mas essa proteção acabou. Em abril de 2024, a NOAA e a Iniciativa Internacional de Recifes de Coral declararam o quarto evento global de branqueamento, o mais extenso já registrado, e o país foi atingido com uma intensidade sem precedentes. Ondas de calor associadas ao fenômeno El Niño elevaram a temperatura do mar no Nordeste e provocaram mortalidade em massa em recifes de Maragogi (AL), Natal (RN) e Salvador (BA), configurando o segundo grande episódio do fenômeno no país após o registro inicial de 2019.
O diagnóstico é alarmante porque envolve espécies que só existem na costa brasileira. Segundo o oceanógrafo Miguel Mies, pesquisador do Projeto Coral Vivo, algumas espécies apresentaram mortalidade superior a 90%, colocando-as em risco real de extinção. “O que ele demonstra é que esse problema de onda de calor e branqueamento, do qual o Brasil estava escapando ileso, agora está começando a afetar criticamente o país”, afirma Mies. Os recifes brasileiros, que concentram biodiversidade marinha única no mundo, passaram a integrar o mapa global de vulnerabilidade que antes parecia distante.
O que é o branqueamento de corais e por que ele mata os recifes

Segundo informações divulgadas pelo portal Um só planeta, o branqueamento é um processo diretamente ligado ao aumento da temperatura dos oceanos. Os corais são animais que vivem em simbiose com microalgas responsáveis por fornecer energia ao organismo por meio da fotossíntese. Quando o calor se intensifica, essas algas passam a produzir substâncias tóxicas, e o coral expulsa seu parceiro, perdendo a principal fonte de alimento e a coloração característica. Se a situação persistir, o resultado é a morte do organismo.
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O fenômeno não é novo em escala global, mas no Brasil só atingiu proporções críticas recentemente. O primeiro grande episódio brasileiro foi registrado em 2019, e o evento de 2024 indica uma tendência de intensificação que acompanha o aquecimento acelerado dos oceanos. Para os recifes do Nordeste, a proximidade entre os dois eventos é preocupante porque não dá tempo suficiente para que os corais se recuperem antes de enfrentar um novo ciclo de estresse térmico.
O impacto econômico e social da perda dos recifes no Brasil
Os recifes de corais ocupam menos de 1% da área dos oceanos, mas concentram cerca de um terço da biodiversidade marinha e sustentam atividades econômicas essenciais. Mies destaca que eles fornecem serviços fundamentais como pesca, turismo e proteção costeira, e que esses benefícios só existem enquanto o recife está vivo. Quando a mortalidade atinge os corais, a estrutura do recife se degrada e todo o ecossistema que depende dele entra em colapso.
Globalmente, cerca de 500 milhões de pessoas dependem diretamente dos recifes, que estão associados a uma economia de trilhões de dólares por ano. No Brasil, a degradação pode afetar desde a segurança alimentar de comunidades costeiras no Nordeste até a renda gerada pelo turismo em destinos como Maragogi, um dos principais pontos de mergulho do país. A perda de corais endêmicos, que existem apenas na costa brasileira, adiciona uma dimensão de irreversibilidade que torna o problema ainda mais grave.
O que o Projeto Coral Vivo faz para tentar salvar os recifes brasileiros
Diante da crise, o Projeto Coral Vivo coordena o maior programa contínuo de monitoramento de corais do mundo, acompanhando recifes ao longo de 2.649 quilômetros da costa brasileira. O projeto desenvolve estudos sobre reprodução das espécies, que é um dos caminhos para aumentar a resiliência das populações e avaliar se elas conseguem se renovar, produzir larvas e se estabelecer novamente no ambiente após eventos de branqueamento.
A iniciativa foi reconhecida pela ONU como parte da Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável, que reúne cerca de 600 projetos em todo o mundo. “O reconhecimento reforça o papel da ciência brasileira na agenda global do oceano e valoriza uma trajetória construída ao longo de mais de duas décadas”, afirma Mies. Os pesquisadores também destacam que reduzir pressões locais como poluição, sobrepesca e impactos do turismo é fundamental para aumentar a capacidade dos corais de resistir ao aquecimento que o Brasil não pode combater sozinho.
Por que o ritmo da crise supera a velocidade das soluções
A principal ameaça aos recifes continua sendo o aquecimento global, e nenhuma ação local substitui a redução de emissões em escala planetária. Soluções científicas estão sendo desenvolvidas, mas em ritmo insuficiente diante da velocidade com que a temperatura dos oceanos sobe. Mies afirma que, para o conhecimento gerar impacto, ele precisa ser incorporado às políticas públicas, com fortalecimento da gestão de áreas marinhas protegidas e integração da conservação dos recifes às agendas climáticas.
O cenário para os corais brasileiros depende de duas variáveis que operam em escalas diferentes. No curto prazo, reduzir pressões locais pode aumentar a chance de sobrevivência dos recifes entre eventos de branqueamento e diminuir a mortalidade das espécies mais vulneráveis. No longo prazo, apenas a desaceleração do aquecimento global pode evitar que o Brasil perca definitivamente espécies de corais que existem exclusivamente em sua costa e que levaram milhares de anos para se desenvolver em um ecossistema que agora enfrenta ameaça sem precedentes.
Você já mergulhou em recifes de corais no Nordeste ou conhece alguém que viu de perto o branqueamento? Conte nos comentários se acredita que o Brasil está fazendo o suficiente para proteger seus corais e o que mais te preocupa sobre o futuro dos oceanos.

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