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O BNDES elevou de R$ 150 mil para R$ 200 mil o teto de financiamento para taxistas e motoristas de aplicativo, ampliou o prazo para 84 meses e levou a cobertura do programa de 63% para 88% dos carros vendidos no país

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Escrito por Paulo Nogueira Publicado em 04/09/2026 às 14:28 Atualizado em 04/09/2026 às 14:31
Taxista ao lado do seu veículo em ponto de táxi
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O teto de financiamento do Move Motoristas, linha do Move Brasil para taxistas e motoristas de aplicativo, subiu de R$ 150 mil para R$ 200 mil no valor da nota fiscal, mudança que passou a valer em 1º de setembro e que amplia de cerca de 63% para 88% a fatia dos carros vendidos no país que cabe dentro do programa.

Conforme o Diário Oficial, a alteração foi autorizada por portaria conjunta do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e do Ministério da Fazenda, publicada em 19 de agosto em edição extra do Diário Oficial da União, com vigência a partir de 1º de setembro. O BNDES, operador da linha, detalhou as novas condições nesta semana.

Além disso, mudaram outros dois pontos relevantes. O prazo de financiamento foi ampliado para 84 meses, com carência de até seis meses, e os critérios de enquadramento dos híbridos foram revistos: passam a valer todos os modelos que combinam motor elétrico com motor a combustão movido a etanol, gasolina ou ambos. As taxas de juros seguem inalteradas, em até 11,5% ao ano para mulheres e até 12,6% ao ano para os demais motoristas e cooperativas.

Carro elétrico de aplicativo em via urbana

Por que o teto antigo travava o programa

Em primeiro lugar, o número mais revelador é o salto de cobertura de mercado. Com base nos emplacamentos de 2025 compilados pela Fenabrave, a proporção de automóveis vendidos que se enquadrava exclusivamente pelo critério de preço passaria de aproximadamente 63% para 88%. Ou seja, mais de um terço do mercado estava fora do alcance da linha simplesmente porque o carro custava mais que o limite.

De fato, o preço médio do automóvel novo no Brasil subiu de forma consistente nos últimos anos, puxado por câmbio, custo de componentes e migração de conteúdo tecnológico para modelos de entrada. Um teto fixado em R$ 150 mil, que parecia generoso quando foi definido, foi sendo corroído pela realidade do showroom. Programa de crédito com teto desatualizado vira, na prática, programa que financia apenas a faixa mais básica do mercado.

Por outro lado, o motorista profissional tem exigência diferente do consumidor comum. Ele roda muito mais quilômetros por mês, precisa de conforto para o passageiro, de porta-malas utilizável e de mecânica que aguente uso intenso. Empurrá-lo para o carro mais barato do catálogo costuma sair caro no médio prazo, em manutenção e desvalorização.

Motorista de táxi ao volante do veículo

A adesão baixa que motivou a mudança no Move Motoristas

O reconhecimento mais interessante embutido na medida é o de que o programa vinha performando abaixo do esperado. Conforme apurado pela imprensa especializada, as novas condições foram desenhadas justamente para impulsionar uma linha que até agora teve baixa adesão. Não é comum um governo revisar parâmetros de crédito poucos meses depois do lançamento, e isso indica que a leitura inicial da demanda errou o alvo.

Em seguida, a ampliação do prazo para 84 meses ataca outro ponto sensível: a parcela. Motorista de aplicativo trabalha com receita variável, que oscila com dia da semana, clima e sazonalidade da cidade. Alongar o financiamento reduz o valor mensal e aumenta a chance de a prestação caber no mês ruim, não apenas no mês bom. A contrapartida, claro, é pagar juros por mais tempo.

Da mesma forma, a carência de até seis meses tem lógica parecida. Quem troca de carro precisa de um período para recompor caixa, especialmente se houve entrada. Começar a pagar meio ano depois dá fôlego, ainda que o custo total suba. É um desenho que reconhece a informalidade da renda desse público, algo que o crédito tradicional costuma tratar mal.

Ainda assim, vale entender o desenho do programa para não confundir com crédito comum de banco. Trata-se de uma linha com recursos do BNDES, operada por agentes financeiros credenciados, com juros abaixo do praticado no mercado livre para financiamento de veículo. A taxa reduzida se justifica pela finalidade: o carro aqui é instrumento de trabalho, não bem de consumo, e a inadimplência tende a ser menor quando o bem financiado é a própria fonte de renda.

A diferença de taxa entre mulheres e demais motoristas também não é detalhe. Até 11,5% ao ano contra até 12,6% representa uma economia relevante ao longo de 84 meses, e integra uma política de estímulo à entrada de mulheres em uma categoria historicamente masculina. Em um financiamento longo, um ponto percentual a menos se traduz em milhares de reais no total pago.

Há ainda o efeito sobre a frota que circula nas cidades. Renovar carro de aplicativo significa tirar de rodagem veículos com quilometragem muito alta, que consomem mais e emitem mais, e colocar no lugar modelos mais novos e eficientes. Como esses carros rodam várias vezes mais que um automóvel particular, o impacto ambiental da renovação é desproporcional ao número de unidades trocadas.

O que a mudança no critério dos híbridos significa

A revisão do enquadramento dos híbridos merece atenção porque conversa diretamente com o que a indústria brasileira está produzindo. Passar a considerar todos os modelos que combinam motor elétrico com combustão a etanol, gasolina ou ambos abre a porta para os híbridos flex, uma configuração em que o país tem posição peculiar no mundo, já que praticamente nenhum outro mercado combina eletrificação com etanol em escala.

Nesse sentido, a conta do motorista é de bolso. Carro híbrido consome menos combustível em uso urbano, com muito trânsito e parada frequente, que é exatamente o padrão de quem roda em aplicativo. A economia mensal em combustível pode compensar a parcela mais alta, e é essa comparação que decide a compra. Um teto maior torna esses modelos alcançáveis pela linha, o que antes raramente acontecia.

É difícil não ver aqui uma tentativa de matar dois coelhos. De um lado, dar condição melhor a uma categoria profissional que depende do carro para trabalhar. De outro, estimular a venda de veículos eletrificados fabricados no país, num momento em que as montadoras aqui instaladas colocam modelos híbridos flex no mercado. Se a adesão vai subir de fato, os próximos meses de emplacamento dizem.

Financiar um carro de R$ 200 mil em 84 meses é bom negócio para quem vive de aplicativo?

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Paulo Nogueira

Técnico em Elétrica desde 2008, formado pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), antigo CEFET, uma das mais tradicionais instituições de ensino técnico do Brasil. Atuou por diversos anos nas áreas de petróleo e gás offshore, energia e construção, experiência que hoje aplica na produção de conteúdo especializado sobre o setor energético. Com mais de 8 mil publicações em revistas e portais online, dedica-se à cobertura do mercado de trabalho, petróleo e gás, energia, economia, renováveis e empreendedorismo. Para dúvidas, sugestões ou correções, entre em contato pelo e-mail paulohsnogueira@gmail.com. Este canal não recebe currículos.

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