O teto de financiamento do Move Motoristas, linha do Move Brasil para taxistas e motoristas de aplicativo, subiu de R$ 150 mil para R$ 200 mil no valor da nota fiscal, mudança que passou a valer em 1º de setembro e que amplia de cerca de 63% para 88% a fatia dos carros vendidos no país que cabe dentro do programa.
Conforme o Diário Oficial, a alteração foi autorizada por portaria conjunta do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços e do Ministério da Fazenda, publicada em 19 de agosto em edição extra do Diário Oficial da União, com vigência a partir de 1º de setembro. O BNDES, operador da linha, detalhou as novas condições nesta semana.
Além disso, mudaram outros dois pontos relevantes. O prazo de financiamento foi ampliado para 84 meses, com carência de até seis meses, e os critérios de enquadramento dos híbridos foram revistos: passam a valer todos os modelos que combinam motor elétrico com motor a combustão movido a etanol, gasolina ou ambos. As taxas de juros seguem inalteradas, em até 11,5% ao ano para mulheres e até 12,6% ao ano para os demais motoristas e cooperativas.

Por que o teto antigo travava o programa
Em primeiro lugar, o número mais revelador é o salto de cobertura de mercado. Com base nos emplacamentos de 2025 compilados pela Fenabrave, a proporção de automóveis vendidos que se enquadrava exclusivamente pelo critério de preço passaria de aproximadamente 63% para 88%. Ou seja, mais de um terço do mercado estava fora do alcance da linha simplesmente porque o carro custava mais que o limite.
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De fato, o preço médio do automóvel novo no Brasil subiu de forma consistente nos últimos anos, puxado por câmbio, custo de componentes e migração de conteúdo tecnológico para modelos de entrada. Um teto fixado em R$ 150 mil, que parecia generoso quando foi definido, foi sendo corroído pela realidade do showroom. Programa de crédito com teto desatualizado vira, na prática, programa que financia apenas a faixa mais básica do mercado.
Por outro lado, o motorista profissional tem exigência diferente do consumidor comum. Ele roda muito mais quilômetros por mês, precisa de conforto para o passageiro, de porta-malas utilizável e de mecânica que aguente uso intenso. Empurrá-lo para o carro mais barato do catálogo costuma sair caro no médio prazo, em manutenção e desvalorização.

A adesão baixa que motivou a mudança no Move Motoristas
O reconhecimento mais interessante embutido na medida é o de que o programa vinha performando abaixo do esperado. Conforme apurado pela imprensa especializada, as novas condições foram desenhadas justamente para impulsionar uma linha que até agora teve baixa adesão. Não é comum um governo revisar parâmetros de crédito poucos meses depois do lançamento, e isso indica que a leitura inicial da demanda errou o alvo.
Em seguida, a ampliação do prazo para 84 meses ataca outro ponto sensível: a parcela. Motorista de aplicativo trabalha com receita variável, que oscila com dia da semana, clima e sazonalidade da cidade. Alongar o financiamento reduz o valor mensal e aumenta a chance de a prestação caber no mês ruim, não apenas no mês bom. A contrapartida, claro, é pagar juros por mais tempo.
Da mesma forma, a carência de até seis meses tem lógica parecida. Quem troca de carro precisa de um período para recompor caixa, especialmente se houve entrada. Começar a pagar meio ano depois dá fôlego, ainda que o custo total suba. É um desenho que reconhece a informalidade da renda desse público, algo que o crédito tradicional costuma tratar mal.
Ainda assim, vale entender o desenho do programa para não confundir com crédito comum de banco. Trata-se de uma linha com recursos do BNDES, operada por agentes financeiros credenciados, com juros abaixo do praticado no mercado livre para financiamento de veículo. A taxa reduzida se justifica pela finalidade: o carro aqui é instrumento de trabalho, não bem de consumo, e a inadimplência tende a ser menor quando o bem financiado é a própria fonte de renda.
A diferença de taxa entre mulheres e demais motoristas também não é detalhe. Até 11,5% ao ano contra até 12,6% representa uma economia relevante ao longo de 84 meses, e integra uma política de estímulo à entrada de mulheres em uma categoria historicamente masculina. Em um financiamento longo, um ponto percentual a menos se traduz em milhares de reais no total pago.
Há ainda o efeito sobre a frota que circula nas cidades. Renovar carro de aplicativo significa tirar de rodagem veículos com quilometragem muito alta, que consomem mais e emitem mais, e colocar no lugar modelos mais novos e eficientes. Como esses carros rodam várias vezes mais que um automóvel particular, o impacto ambiental da renovação é desproporcional ao número de unidades trocadas.
O que a mudança no critério dos híbridos significa
A revisão do enquadramento dos híbridos merece atenção porque conversa diretamente com o que a indústria brasileira está produzindo. Passar a considerar todos os modelos que combinam motor elétrico com combustão a etanol, gasolina ou ambos abre a porta para os híbridos flex, uma configuração em que o país tem posição peculiar no mundo, já que praticamente nenhum outro mercado combina eletrificação com etanol em escala.
Nesse sentido, a conta do motorista é de bolso. Carro híbrido consome menos combustível em uso urbano, com muito trânsito e parada frequente, que é exatamente o padrão de quem roda em aplicativo. A economia mensal em combustível pode compensar a parcela mais alta, e é essa comparação que decide a compra. Um teto maior torna esses modelos alcançáveis pela linha, o que antes raramente acontecia.
É difícil não ver aqui uma tentativa de matar dois coelhos. De um lado, dar condição melhor a uma categoria profissional que depende do carro para trabalhar. De outro, estimular a venda de veículos eletrificados fabricados no país, num momento em que as montadoras aqui instaladas colocam modelos híbridos flex no mercado. Se a adesão vai subir de fato, os próximos meses de emplacamento dizem.
Financiar um carro de R$ 200 mil em 84 meses é bom negócio para quem vive de aplicativo?
