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Empresa sueca desenvolve turbina eólica marinha que dispensa guindastes e facilita manutenção

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 07/07/2026 às 21:00 Atualizado em 07/07/2026 às 21:03
Assista o vídeoA sueca SeaTwirl aposta em uma turbina eólica de eixo vertical flutuante que se monta "como um móvel da IKEA", com demonstrador de 2 MW até 2029.
A sueca SeaTwirl aposta em uma turbina eólica de eixo vertical flutuante que se monta “como um móvel da IKEA”, com demonstrador de 2 MW até 2029.
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A sueca SeaTwirl desenvolve uma turbina eólica de eixo vertical flutuante que se monta “como um móvel da IKEA”, no chão e sem guindaste gigante, com o gerador ao nível do mar para facilitar a manutenção. Depois de ter a licença de seu protótipo de 1 MW retirada na Noruega em janeiro de 2026, a empresa passou a liderar o projeto Verti-Go, um demonstrador de 2 megawatts financiado com 15 milhões de euros da União Europeia, com operação prevista até o fim de 2029.

A proposta é ousada e simples ao mesmo tempo. Segundo o canal Undecided with Matt Ferrell, a SeaTwirl deitou a turbina de lado e a transformou em uma turbina de eixo vertical flutuante que pode ser montada no chão, em peças, como um móvel de montar, dispensando os enormes guindastes que a instalação da eólica no mar costuma exigir.

O projeto mais recente da empresa tem números concretos. Segundo o portal Offshore Wind, a SeaTwirl lidera o consórcio Verti-Go, que recebeu 15 milhões de euros do programa Horizon Europe para construir um demonstrador de turbina de eixo vertical flutuante de 2 megawatts, com etapas de projeto, fabricação, instalação e operação previstas até o fim de 2029.

A seguir, veja o que é a turbina eólica de eixo vertical flutuante da SeaTwirl, como funciona a montagem “estilo IKEA”, quais as vantagens e os riscos do eixo vertical, o que aconteceu com o protótipo na Noruega e o que essa tecnologia tem a ver com o Brasil.

O que é a turbina eólica de eixo vertical flutuante da SeaTwirl

Comecemos pela ideia central. A SeaTwirl é uma empresa sueca que desenvolve uma turbina de eixo vertical flutuante, ou seja, em vez da hélice tradicional girando no topo de um mastro, ela usa pás verticais que giram em torno de um eixo central, sobre uma estrutura que flutua no mar.

O conceito nasceu para as águas profundas. Como uma turbina eólica de eixo vertical flutuante não precisa ser fixada no fundo do mar, ela pode operar em locais com mais de 100 metros de profundidade, onde estão alguns dos ventos mais fortes e constantes do planeta, fora do alcance das turbinas fixas comuns.

A estrutura toda é diferente do usual. Na turbina da SeaTwirl, a torre, o eixo e a fundação flutuante formam uma única peça giratória, apoiada em uma base cilíndrica semissubmersa, do tipo “spar”, ancorada ao fundo por cabos, o que dá estabilidade à turbina de eixo vertical mesmo em mar agitado.

E há um detalhe que muda tudo na manutenção. Diferente das turbinas comuns, que escondem o gerador lá no alto, a turbina eólica de eixo vertical da SeaTwirl coloca o gerador ao nível do mar, o que promete tornar os reparos mais simples, baratos e seguros, sem precisar escalar 100 metros ou usar helicóptero.

A montagem “estilo IKEA”: sem guindaste e com gerador no nível do mar

Conceito da turbina eólica de eixo vertical flutuante da SeaTwirl, com a estrutura girando sobre uma base flutuante e o gerador posicionado ao nível do mar. Crédito: SeaTwirl / Undecided with Matt Ferrell (YouTube).
Conceito da turbina eólica de eixo vertical flutuante da SeaTwirl, com a estrutura girando sobre uma base flutuante e o gerador posicionado ao nível do mar. Crédito: SeaTwirl / Undecided with Matt Ferrell (YouTube).

Aqui está o gancho que deu fama à empresa. A turbina de eixo vertical da SeaTwirl é comparada a um móvel de montar da IKEA porque pode ser montada no chão, em peças, e depois levada à água, sem depender dos guindastes gigantes que encarecem a instalação da eólica no mar.

A analogia tem um propósito prático. Assim como um móvel que chega desmontado, a turbina eólica de eixo vertical é pensada para ser fácil de transportar, montar e operar, e é essa simplicidade que a SeaTwirl aposta que vai baratear a energia gerada em águas profundas.

O gerador ao nível do mar é a segunda grande sacada. Nas turbinas tradicionais, os técnicos precisam subir dezenas de metros até a casa de máquinas, chamada nacele, para fazer reparos, enquanto na turbina de eixo vertical da SeaTwirl o gerador fica embaixo, perto da água, o que facilita a manutenção.

Tudo isso mira um único objetivo: cortar custos. A instalação com guindaste e a manutenção em altura estão entre os itens que mais encarecem a eólica offshore, e a turbina eólica de eixo vertical flutuante tenta atacar justamente esses dois pontos, ainda que boa parte dessa promessa dependa de provar a tecnologia em escala real.

Eixo vertical x eixo horizontal: as vantagens e o preço a pagar

Vale entender por que a maioria das turbinas não é assim. As turbinas comuns são de eixo horizontal, com a hélice apontada para o vento, e precisam de sistemas que giram as pás e a nacele para acompanhar a direção do vento, mecanismos complexos que exigem manutenção constante.

A turbina de eixo vertical dispensa parte dessa complexidade. Como suas pás giram em torno de um eixo vertical, ela capta vento de qualquer direção sem precisar se reorientar, o que a torna mais simples, mais silenciosa e, em tese, mais fácil de manter, com menos peças sujeitas a falha.

Mas existe um preço a pagar por essa simplicidade. Segundo a explicação do vídeo, a turbina eólica de eixo vertical é cerca de 25% menos eficiente do ponto de vista aerodinâmico do que a de eixo horizontal, e historicamente sofre com o desgaste de peças estruturais, um problema que a SeaTwirl precisa vencer para se viabilizar.

A aposta da empresa é compensar na conta final. A SeaTwirl afirma que, mesmo perdendo em eficiência, sua turbina de eixo vertical pode sair mais barata ao longo da vida útil por causa da manutenção reduzida, com uma alegação de custo de energia até 20% menor que o de turbinas flutuantes de eixo horizontal, um número que ainda precisa ser comprovado.

A sombra da Éole: a maior turbina vertical já feita e por que ela falhou

A turbina Éole, de eixo vertical, no Canadá, a maior já construída do tipo, que operou cerca de cinco anos antes de falhar por fadiga. Crédito: Projet Éole / Undecided with Matt Ferrell (YouTube).
A turbina Éole, de eixo vertical, no Canadá, a maior já construída do tipo, que operou cerca de cinco anos antes de falhar por fadiga. Crédito: Projet Éole / Undecided with Matt Ferrell (YouTube).

A história tem um fantasma que assombra o setor. A maior turbina de eixo vertical já construída foi a Éole, de 3,8 megawatts, erguida no Canadá, um marco da engenharia que mostrou tanto o potencial quanto os perigos desse tipo de tecnologia.

O final dela serve de alerta. A Éole operou por cerca de cinco anos antes de ser parada por uma falha no rolamento principal, ligada à fadiga da estrutura, um desfecho que reforçou a fama de que a turbina eólica de eixo vertical de grande porte é difícil de manter em pé por muito tempo.

Esse é exatamente o desafio da SeaTwirl. Para ter sucesso, a empresa precisa provar que sua turbina de eixo vertical flutuante resolve os problemas estruturais que derrubaram a Éole, entregando durabilidade real em vez de apenas uma boa ideia no papel, algo que só o tempo e os testes vão dizer.

O histórico explica o ceticismo. Por causa de casos como o da Éole, boa parte dos especialistas ainda duvida que a turbina eólica de eixo vertical consiga superar a de eixo horizontal, e é contra esse pano de fundo de desconfiança que a SeaTwirl tenta emplacar sua proposta flutuante.

Do protótipo S1 à licença perdida na Noruega

A trajetória da SeaTwirl é de altos e baixos. O primeiro protótipo da empresa, o S1, de 30 quilowatts, foi instalado na Suécia em 2015 e segue funcionando mais de uma década depois, tendo resistido a ventos de força de furacão, um bom cartão de visita para a turbina de eixo vertical flutuante.

O passo seguinte, porém, tropeçou. A SeaTwirl planejava instalar na Noruega o S2x, um protótipo bem maior, de 1 megawatt, mas o centro de testes retirou a licença do projeto em janeiro de 2026, antes mesmo de a turbina eólica de eixo vertical chegar à água, uma reviravolta que atrasou os planos da empresa.

A retirada da licença foi um golpe duro. Sem poder testar o S2x no mar, a SeaTwirl perdeu a chance de validar sua turbina de eixo vertical de 1 megawatt no ambiente real, justamente o passo que separaria a promessa de laboratório de um produto pronto para o mercado.

Foi então que a empresa mudou de foco. Em vez de insistir no protótipo de 1 megawatt, a SeaTwirl passou a concentrar energia em um projeto novo e maior, apoiado pela União Europeia, apostando que um demonstrador ainda mais potente poderia recolocar a turbina eólica de eixo vertical flutuante nos trilhos.

Afinal, o que é o projeto Verti-Go de 2 MW?

O Verti-Go é a nova esperança da SeaTwirl. Trata-se de um projeto para construir um demonstrador de turbina de eixo vertical flutuante de 2 megawatts, o maior já tentado pela empresa, com o objetivo de finalmente provar a tecnologia em escala relevante.

O dinheiro vem da Europa. O consórcio do Verti-Go recebeu 15 milhões de euros do programa de pesquisa e inovação Horizon Europe, um aporte que dá fôlego à SeaTwirl para projetar, fabricar, instalar e operar a nova turbina eólica de eixo vertical flutuante, com a empresa como coordenadora técnica do projeto.

O cronograma é longo, mas definido. O Verti-Go começou no fim de 2025, com a fase de projeto prevista para durar até por volta do fim de 2026, e a construção e a operação da turbina de eixo vertical de 2 megawatts esperadas até o fim de 2029, quando finalmente haverá dados reais de desempenho.

Convém, no entanto, ter os pés no chão. O Verti-Go ainda é um projeto, não uma turbina em funcionamento, e a turbina eólica de eixo vertical de 2 megawatts só vai gerar energia de fato lá na frente, de modo que o veredito sobre a tecnologia da SeaTwirl segue em aberto.

A turbina de eixo vertical flutuante realmente vale a pena?

A resposta honesta é: ainda não dá para saber. A turbina de eixo vertical flutuante da SeaTwirl traz ideias promissoras, como a montagem sem guindaste e o gerador ao nível do mar, mas ainda não provou, em escala comercial, que entrega tudo o que promete.

Os pontos fortes são reais. Uma turbina eólica de eixo vertical que capta vento de qualquer direção, se monta no chão e tem manutenção mais simples poderia, de fato, baratear a energia em águas profundas, um mercado enorme e pouco explorado que a SeaTwirl quer conquistar.

Os riscos também são concretos. A menor eficiência aerodinâmica, o histórico de falhas estruturais em turbinas como a Éole e o tropeço da licença perdida na Noruega mostram que a turbina de eixo vertical flutuante ainda enfrenta obstáculos técnicos e regulatórios importantes.

Por isso o Verti-Go é decisivo. Só quando o demonstrador de 2 megawatts estiver operando será possível dizer se a turbina eólica de eixo vertical da SeaTwirl é uma revolução ou apenas mais uma boa ideia que não sobreviveu ao mar, e é essa resposta que o setor de energia aguarda.

O que a turbina de eixo vertical da SeaTwirl tem a ver com o Brasil

O elo é a eólica offshore flutuante, que o Brasil acaba de destravar. O país aprovou em 2025 o marco legal da eólica no mar, criando as regras para o uso das áreas marítimas, o que abre caminho para tecnologias flutuantes como a turbina de eixo vertical da SeaTwirl chegarem ao debate brasileiro.

O potencial nacional é gigantesco. Estimativas oficiais apontam que o Brasil tem centenas de gigawatts de potencial de eólica offshore, muito acima da capacidade elétrica instalada atual, e aproveitar essa riqueza depende de tecnologias capazes de operar longe da costa, onde a turbina eólica de eixo vertical flutuante se propõe a atuar.

Há um encaixe regional a considerar. Enquanto o Nordeste tem águas rasas, boas para turbinas fixas, o Sul do país olha para águas mais profundas, o nicho em que uma turbina de eixo vertical flutuante faria mais sentido, ainda que hoje não exista nenhum projeto da SeaTwirl em solo brasileiro.

Fica então a lição de fundo. Acompanhar a turbina eólica de eixo vertical da SeaTwirl ajuda o Brasil a entender quais tecnologias podem baratear a energia do mar, num momento em que o país começa a montar seu próprio mercado de eólica offshore e busca as melhores soluções para as águas profundas.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

No fim, a turbina de eixo vertical flutuante da SeaTwirl é uma aposta corajosa. Ao deitar a turbina, montá-la como um móvel da IKEA e colocar o gerador no nível do mar, a empresa tenta resolver os custos que travam a eólica offshore, ainda que precise superar a menor eficiência e o histórico de falhas do eixo vertical.

Mais do que a analogia com a IKEA, o que interessa é o teste real. Se o demonstrador Verti-Go de 2 megawatts cumprir o que promete até 2029, a turbina eólica de eixo vertical flutuante pode abrir um novo caminho para a energia limpa em águas profundas, inclusive em países como o Brasil.

E você, acredita que uma turbina de eixo vertical flutuante que se monta como um móvel pode mesmo baratear a energia do mar, ou acha que o eixo horizontal vai continuar dominando a eólica offshore? Conte nos comentários a sua opinião e compartilhe com quem se interessa por energia e inovação.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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