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No Senegal, mais de 200 milhões de mudas de mangue foram plantadas no delta do Saloum e em Casamance, recriando mais de 12 mil hectares de manguezais, elevando estoques de peixes e camarões e transformando a região na maior restauração desse ecossistema em toda a África

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 15/01/2026 às 15:05
Assista o vídeoNo Senegal, mais de 200 milhões de mudas de mangue foram plantadas no delta do Saloum e em Casamance, recriando mais de 12 mil hectares de manguezais, elevando estoques de peixes e camarões e transformando a região na maior restauração desse ecossistema em toda a África
No Senegal, mais de 200 milhões de mudas de mangue foram plantadas no delta do Saloum e em Casamance, recriando mais de 12 mil hectares de manguezais, elevando estoques de peixes e camarões e transformando a região na maior restauração desse ecossistema em toda a África
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Senegal planta 200 milhões de mudas, restaura 12 mil ha de manguezais, eleva pescarias e assina maior recuperação desse ecossistema na África.

Pouca gente imagina que um país localizado no encontro entre o Sahel e o Atlântico tenha se tornado referência global em recuperação costeira, mas é exatamente isso que o Senegal realizou nas últimas duas décadas. Entre 2006 e 2020, organizações senegalesas e parceiros internacionais plantaram mais de 200 milhões de mudas de mangue, principalmente de espécies do gênero Rhizophora (mangue-vermelho), em uma área que já ultrapassa 12 mil hectares nos deltas de Casamance e Saloum. Trata-se da maior restauração contínua de manguezais em toda a África, com impactos ecológicos, econômicos e sociais mensuráveis, documentados por instituições como FAO, UNEP, Oceanium Dakar e IUCN.

O que impressiona nesse projeto não é apenas o volume de árvores plantadas, mas o resultado técnico: comunidades pesqueiras passaram a relatar recuperação de camarões, peixes e ostras, áreas degradadas voltaram a se fechar com raízes e sedimentos, e estuários inteiros estabilizaram diante do avanço do mar e da erosão. Em um momento histórico em que muitos países perdem suas zonas úmidas, o Senegal apostou em uma solução baseada na natureza e venceu.

Um ecossistema ameaçado entre o Sahel e o mar

As formações de manguezais do Senegal estão concentradas em duas regiões-chave:

  • Delta do Saloum, declarado Reserva da Biosfera pela UNESCO e Patrimônio Mundial,
  • Casamance, no sul do país, próxima à fronteira com Guiné-Bissau.

Manguezais são ecossistemas de interface entre rios, mar e florestas costeiras, extremamente sensíveis às mudanças ambientais. Antes da restauração, o Senegal enfrentava três grandes problemas:

  • Corte excessivo de madeira, usada como combustível e para defumação de pescado.
  • Avanço do mar e salinização, que matava mudas e diminuía áreas férteis.
  • Queda no estoque pesqueiro, afetando renda de comunidades inteiras.
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A perda de manguezais significa perder viveiros naturais de espécies marinhas, já que mais de 70% dos peixes, crustáceos e moluscos explorados comercialmente no Atlântico Leste passam por manguezais em alguma fase do ciclo de vida.

Ao mesmo tempo, manguezais estocados reduzem velocidade de ondas, seguram sedimentos e filtram nutrientes, serviços ecossistêmicos que a engenharia tradicional precisa pagar caro para reproduzir.

A estratégia que virou referência: plantar com a comunidade

O Senegal adotou uma abordagem dupla:

  • engenharia ecológica, baseada no plantio de propágulos nativos,
  • mobilização social, envolvendo pescadores, mulheres extrativistas e jovens.

O projeto mais emblemático foi conduzido pela ONG Oceanium Dakar, com apoio de órgãos senegaleses, universidades, pescadores e organismos internacionais. Segundo relatórios da própria organização, campanhas anuais mobilizaram dezenas de milhares de pessoas, muitas das quais pescadoras e marisqueiras diretamente afetadas pelo colapso da fauna.

As mudas foram plantadas em zonas:

  • alagáveis,
  • abrigadas de ondas fortes,
  • com salinidade controlada,
  • próximas a canais de maré.

O objetivo era maximizar taxa de sobrevivência, que superou 80% em algumas campanhas, segundo dados publicados em relatórios técnicos e citados em conferências do setor.

Além do plantio, o projeto forneceu capacitação em manejo, monitoramento e uso sustentável, gerando emprego e transferência de conhecimento ambiental.

Resultados ecológicos: quando a natureza responde

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Manguezais possuem crescimento lento, mas seus efeitos são rápidos no solo e na coluna d’água. Após poucos anos de plantio, pesquisadores começaram a observar:

  • retorno de camarões, que usam raízes como refúgio;
  • aumento de peixes juvenis, que crescem protegidos em águas rasas;
  • expansão de ostras e mariscos, que colonizam raízes e troncos;
  • maior deposição de sedimentos, estabilizando margens;
  • redução da erosão costeira, sobretudo em zonas de maré;
  • melhora na qualidade da água, por filtragem natural.

Para comunidades que dependem da pesca, isso se traduz em renda real. Dados publicados por organizações locais indicam que, em algumas aldeias de Casamance, a captura de camarão e peixe cresceu de forma perceptível, permitindo mais dias de trabalho e até exportação de ostras.

Vale um detalhe técnico importante: manguezais funcionam como viveiros, não como fábrica de peixes adultos. Ou seja, sua função ecológica é garantir reprodução e sobrevivência de juvenis, um ponto-chave para restabelecer estoques sobrepescados.

Carbono azul: o Senegal entrou no mapa climático mundial

Outro impacto inesperado — e muito valorizado atualmente — é o chamado carbono azul, o sequestro de carbono realizado por ecossistemas marinhos e costeiros.

Manguezais são campeões nesse quesito: armazenam até quatro vezes mais carbono por hectare do que muitas florestas tropicais, principalmente no solo anóxico, onde a decomposição é lenta.

Ao restaurar 12 mil hectares, o Senegal passou a representar um caso real de como soluções baseadas na natureza (NbS) podem contribuir para metas climáticas. Não por acaso, o país foi citado em relatórios da FAO e do UNEP como exemplo de adaptação ao clima, especialmente em áreas costeiras vulneráveis ao aumento do nível do mar.

Em tempos de negociações climáticas e mercados de carbono, o Senegal se posiciona como um caso concreto de economia ecológica, com um ativo ambiental difícil de replicar artificialmente.

Benefícios sociais: quando a restauração vira política pública

Diferente de muitos projetos ambientais que ficam restritos ao ecossistema, a restauração senegalesa se transformou em política socioambiental. Mulheres extrativistas tiveram papel central, especialmente em coleta e processamento de ostras e mariscos, atividades tradicionalmente femininas na região.

Programas paralelos ajudaram a:

  • organizar cooperativas,
  • criar ciclos sustentáveis de colheita,
  • melhorar segurança alimentar,
  • gerar exportação de produtos locais,
  • ampliar educação ambiental.

Em algumas comunidades, manguezais restaurados também passaram a oferecer mel, plantas medicinais e matéria-prima para artesanato, criando novos fluxos de renda.

Tecnologia e monitoramento: ciência para não perder o rumo

A restauração não se encerrou no plantio. Universidades senegalesas e estrangeiras, além de órgãos locais, utilizam:

  • imagens de satélite,
  • sensoriamento remoto,
  • monitoramento de sedimentos,
  • lab tests de salinidade,
  • modelagem hidrodinâmica,
  • levantamentos pesqueiros.

O objetivo é acompanhar:

  • taxas de sobrevivência de mudas,
  • expansão de raízes,
  • retenção de sedimentos,
  • uso pesqueiro,
  • sequestro de carbono,
  • interação com comunidades.

Com esse arcabouço, o Senegal passou a oferecer dados sólidos para cientistas, gestores e investidores ambientais.

Reflexão final: quando o futuro não depende de máquinas, mas de raízes

O caso do Senegal contraria um pensamento comum: o de que recuperar áreas costeiras seja caro e exija estruturas de concreto, como diques, muros e quebra-mares. Em vez disso, comunidades inteiras apostaram em raízes, sedimentos, marés e paciência.

Manguezais não são apenas árvores; são infraestruturas naturais capazes de:

  • proteger cidades,
  • produzir comida,
  • fixar carbono,
  • estabilizar margens,
  • purificar água,
  • sustentar economias locais.

E tudo isso sem depender de tecnologia sofisticada ou insumos caros.

A pergunta que se impõe é simples: se o Senegal, com recursos limitados e pressões ambientais fortes, conseguiu restaurar 12 mil hectares de um ecossistema tão sensível, o que falta para dezenas de outros países costeiros imitarem o exemplo?

Talvez a resposta esteja menos na engenharia de concreto e mais na engenharia da própria natureza — uma tecnologia viva que já estava pronta há milhões de anos, só esperando alguém enxergar seu valor.

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Tiana Araújo
Tiana Araújo
15/01/2026 23:47

Isto e maravilhoso!

Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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