Iniciativas de energia solar comunitária se multiplicam na Espanha após mudanças regulatórias, levando eletricidade limpa e barata a famílias vulneráveis e transformando pequenos municípios em polos de inovação energética.
A Espanha vive um avanço rápido e consistente no uso da energia solar compartilhada. O movimento ganhou força após mudanças regulatórias recentes e, desde então, pequenos municípios descobriram que cooperativas comunitárias podem ser mais do que uma alternativa sustentável: podem ser uma ferramenta de inclusão e de redução de desigualdades.
Em cidades como Taradell, na Catalunha, iniciativas locais se tornaram exemplos nacionais. A combinação entre engajamento social, apoio institucional e incentivos financeiros europeus mostrou que comunidades organizadas conseguem produzir eletricidade limpa, redistribuir benefícios e ainda aliviar o peso da conta de luz para famílias vulneráveis.
Como uma horta comunitária virou referência em energia solar
A trajetória de Taradell é simbólica. O que começou como uma simples iniciativa de horticultura comunitária evoluiu rapidamente para um dos projetos mais bem-sucedidos de energia renovável da Espanha.
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Quatro moradores, já envolvidos em ações locais, perceberam que a cidade tinha potencial para ir além das hortas.
Assim nasceu a cooperativa Taradell Sostenible, hoje formada por 111 membros e responsável pelo fornecimento de eletricidade renovável para mais de 100 casas. Muitas delas pertencem a famílias com poucos recursos.
Desde o início, a inclusão foi prioridade. O presidente da cooperativa, Eugeni Vila, lembrou que o acesso à adesão precisava ser mais democrático.
“A questão era como as pessoas com poucos recursos poderiam aderir à cooperativa se a adesão custasse €100”, disse Vila. A solução foi imediata: famílias consideradas pobres pela autoridade local passaram a pagar apenas €25 para entrar no sistema e acessar energia mais barata.
O apoio do Instituto Espanhol para a Diversificação e Poupança de Energia (IDAE) foi decisivo para instalar os primeiros painéis no telhado de um centro desportivo e de um edifício cultural. Vila destaca que o programa europeu NextGenerationEU foi essencial para viabilizar o projeto. “Estamos muito orgulhosos do fato de o IDAE nos considerar pioneiros”, afirmou.
Mas a história de Taradell não ocorreu isoladamente. O avanço das comunidades solares em todo o país ganhou força a partir de 2018, quando o governo revogou o chamado “imposto sobre a luz solar” — uma regra criada em 2015 que penalizava quem gerava a própria eletricidade.
A eliminação da tarifa fez a instalação de painéis em telhados crescer 17 vezes, segundo dados do IDAE.
A partir dessa mudança, o instituto passou a direcionar recursos substanciais para iniciativas coletivas. No total, reservou €148,5 milhões para apoiar 200 projetos de energia comunitária.
Ao mesmo tempo, a flexibilização das regras para compartilhamento foi essencial. A distância máxima entre a unidade geradora e os consumidores saltou de 500 para 2.000 metros.
Isso permitiu que prédios públicos, armazéns e centros esportivos se transformassem em pequenas usinas capazes de abastecer bairros inteiros.
Essa estratégia atendeu a uma necessidade clara: reduzir os custos de energia para famílias classificadas como em situação de pobreza energética, incapazes de arcar com os €5.000 a €6.000 necessários para instalar seus próprios painéis.
Redes de cooperação ampliam o impacto da energia solar
Com esse cenário favorável, as cooperativas passaram a atuar em rede. Taradell, por exemplo, trabalha em parceria com Balenyà e La Tonenca, abrindo caminho para projetos maiores, mais rápidos e mais eficientes.
“Desenvolvemos uma fórmula para ajudar pessoas que estão com dificuldades financeiras, integrando-as a uma rede que as ajuda a melhorar sua situação”, explicou Vila. A iniciativa europeia Sun4All reforçou esse movimento ao financiar projetos voltados a famílias de baixa renda.
Os benefícios também alcançaram áreas geograficamente desafiadoras. Na Galiza, pequenas ilhas começaram a substituir antigos geradores a diesel por sistemas solares com apoio do IDAE.
Na ilha de Ons, com apenas 92 habitantes, o chefe do Parque Nacional das Ilhas Atlânticas, José Antonio Fernández Bouzas, explicou que o plano é instalar painéis solares em prédios administrativos para abastecer moradores, muitos deles idosos.
Já nas Ilhas Cíes, os sistemas solares já garantem energia para empresas locais, reduzindo a dependência de diesel e contribuindo para a proteção ambiental de um dos ecossistemas mais sensíveis da Espanha.
A energia solar descentralizada fortalece a segurança energética espanhola
Outro ponto crucial é a resiliência da rede nacional. O apagão que atingiu Espanha e Portugal no início do ano expôs como um sistema centralizado pode falhar de maneira generalizada.
Usinas solares pequenas, distribuídas e comunitárias reduzem riscos. O modelo é especialmente relevante em um país onde 65% da população vive em prédios, muitos deles sem estrutura adequada para instalar painéis individuais.
A expansão da energia solar comunitária, portanto, não trata apenas de sustentabilidade, mas também de segurança energética.
O caso de Taradell resume essa transformação. Quatro ativistas, uma horta comunitária e um município engajado deram início a uma mudança de lógica: energia limpa, compartilhada e acessível.
“Temos orgulho de sermos pioneiros”, disse Vila. Hoje, dezenas de cidades repetem o modelo, mostrando que a energia solar pode ir muito além dos painéis — pode redefinir relações sociais, fortalecer comunidades e democratizar o acesso à eletricidade.

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