Participação de mulheres cresce em projetos de usinas solares e começa a romper o histórico domínio masculino no setor de energia solar, gerando empregos e novas oportunidades profissionais.
A expansão da energia solar está criando novas oportunidades profissionais em diferentes regiões do Brasil e do mundo. Ao mesmo tempo em que a transição energética acelera, um movimento social importante começa a ganhar força dentro do setor: cada vez mais mulheres estão ocupando funções técnicas e operacionais em projetos de usinas solares, áreas historicamente marcadas pelo domínio masculino.
Segundo matéria publicada pelo site Um Só Planeta no dia 8 de março, esse avanço ainda ocorre de forma gradual, mas já revela mudanças importantes no mercado de trabalho energético. Empresas e organizações internacionais apontam que ampliar a participação feminina é essencial para garantir mão de obra qualificada em um setor que cresce rapidamente.
Um exemplo recente vem do Vale do Jequitinhonha, no norte de Minas Gerais. Em comunidades rurais da região, mulheres passaram a trabalhar na construção de uma usina de energia solar, assumindo funções técnicas no canteiro de obras. A iniciativa marca uma transformação simbólica em um setor que por décadas manteve forte domínio masculino.
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O projeto mostra como a expansão das usinas solares pode gerar oportunidades de emprego, inclusão social e desenvolvimento regional, além de abrir novos caminhos profissionais para mulheres que historicamente ficaram fora dessas atividades.
Expansão global da energia solar amplia demanda por trabalhadores
O crescimento das fontes renováveis está mudando o cenário energético mundial. Segundo a Agência Internacional de Energias Renováveis (IRENA), o número de empregos globais no setor já ultrapassa 16 milhões de trabalhadores.
Grande parte dessas vagas está relacionada à instalação e operação de usinas solares, uma das fontes de energia limpa que mais cresce no planeta. A queda no custo da tecnologia fotovoltaica e o aumento das metas climáticas de governos impulsionam novos investimentos em energia solar.
Apesar desse crescimento acelerado, a participação feminina ainda é limitada. Dados da IRENA indicam que mulheres representam cerca de 32% dos empregos no setor de energias renováveis em todo o mundo.
Quando se observam funções técnicas — como construção, instalação e operação de usinas solares — a participação feminina é ainda menor. Nesses cargos, mulheres ocupam aproximadamente 22% das vagas.
Nos cargos de liderança, a presença feminina também é reduzida, com cerca de 19% das posições ocupadas por mulheres. Esses números mostram que o domínio masculino ainda é uma característica forte dentro do setor energético global.
Especialistas alertam que manter essa desigualdade pode se tornar um problema para o próprio crescimento da energia solar, já que a transição energética exige uma força de trabalho cada vez maior.
Projeto em Minas Gerais mostra transformação nas usinas solares
No norte de Minas Gerais, um projeto de energia solar demonstra como políticas de inclusão podem mudar essa realidade. Moradoras das comunidades de Vereda Grande e Bonito participaram da construção da usina Rio Urucuia, empreendimento avaliado em cerca de R$ 439 milhões.
Ao todo, 85 mulheres foram capacitadas para trabalhar na montagem de módulos fotovoltaicos do empreendimento. Durante o pico das obras, cerca de 66 mulheres estavam atuando simultaneamente no canteiro de construção das usinas solares.
A participação feminina surpreendeu até mesmo os organizadores do projeto. A presença das trabalhadoras ajudou a romper um paradigma histórico marcado pelo domínio masculino nas atividades de engenharia e construção.
Quando entrar em operação, prevista para o primeiro semestre de 2026, a usina terá capacidade instalada de 142 megawatts. Essa produção será suficiente para abastecer uma cidade com aproximadamente 120 mil habitantes.
Além de gerar eletricidade limpa, o projeto de energia solar também contribui para o desenvolvimento econômico local, criando empregos e ampliando as oportunidades profissionais para mulheres da região.
Capacitação técnica abre portas para mulheres nas usinas solares
Um dos principais fatores que permitiu a inclusão feminina no projeto foi o investimento em qualificação profissional. A formação ocorreu por meio do programa Força de Minas, desenvolvido após um processo de diálogo com moradores das comunidades próximas ao empreendimento.
Antes da criação do curso, equipes responsáveis pelo projeto realizaram visitas de casa em casa para entender as expectativas e necessidades da população local. A partir dessas conversas surgiu a proposta de capacitar moradores para trabalhar na construção da usina de energia solar.
O curso ofereceu cerca de 180 horas de aulas teóricas e práticas a 120 moradores no início de 2025. Mais de 70% das vagas foram destinadas a mulheres, justamente para estimular a participação feminina em um setor ainda dominado pelo domínio masculino.
Durante o treinamento, as participantes aprenderam atividades fundamentais para a construção de usinas solares, incluindo montagem de estruturas metálicas, instalação de módulos fotovoltaicos e noções básicas de sistemas elétricos.
A capacitação contou também com o envolvimento direto de funcionários da empresa responsável pelo projeto, que participaram da elaboração do conteúdo e conduziram aulas práticas.
Esse tipo de iniciativa demonstra que ampliar o acesso à formação técnica é uma das formas mais eficazes de reduzir o domínio masculino no setor de energia solar.
Mudança cultural reduz domínio masculino no setor de energia solar
A presença de mulheres no canteiro de obras também exigiu adaptações na organização do projeto. Para garantir um ambiente de trabalho seguro, foram reforçadas políticas internas de prevenção ao assédio, tanto verbal quanto físico.
Além disso, a empresa promoveu encontros com trabalhadores e moradores da região para discutir temas como violência de gênero e responsabilidade parental. Essas iniciativas ajudam a transformar a cultura organizacional dentro das usinas solares.
Também foram criados canais de denúncia para as trabalhadoras, incluindo um número de WhatsApp e caixas de mensagens instaladas em diferentes pontos da obra. O objetivo era garantir que mulheres tivessem um ambiente profissional seguro em um setor tradicionalmente marcado pelo domínio masculino.
Essas medidas mostram que a inclusão feminina exige não apenas treinamento técnico, mas também mudanças estruturais dentro das empresas que atuam no setor de energia solar.
Primeira carteira assinada muda realidade de trabalhadoras
Para muitas participantes do projeto, o trabalho na construção das usinas solares representou uma mudança significativa de vida.
Uma das trabalhadoras envolvidas foi Ednólia Lucílio de Souza, de 41 anos, moradora da comunidade de Vereda Grande. Antes de participar da obra de energia solar, sua renda vinha de atividades informais ligadas ao extrativismo.
Ela produzia óleo de babaçu e também quebrava baru para vender. A renda mensal variava bastante, dependendo da quantidade vendida. Em alguns meses, conseguia comercializar dois litros, em outros quatro litros, o que dificultava manter uma renda estável.
O emprego na construção da usina representou sua primeira experiência com carteira assinada. Durante sete meses, Ednólia recebeu salário fixo trabalhando na montagem de módulos fotovoltaicos e em tarefas ligadas à parte elétrica do empreendimento.
Com a renda obtida nesse período, ela conseguiu concluir a construção da casa onde vive com dois de seus três filhos. A experiência também trouxe novas perspectivas profissionais.
Agora, com experiência na montagem de sistemas de energia solar, Ednólia acredita estar mais preparada para conseguir novas oportunidades de trabalho em outras usinas solares.
Diversidade fortalece inovação na energia solar
Especialistas destacam que ampliar a presença de mulheres no setor energético não é apenas uma questão de igualdade social. A diversidade também pode trazer benefícios diretos para a eficiência das equipes.
Estudos e experiências corporativas indicam que grupos de trabalho mais diversos tendem a apresentar maior capacidade de inovação e resolução de problemas. No contexto da expansão das usinas solares, essa diversidade pode contribuir para melhorar processos de instalação, operação e relacionamento com comunidades locais.
Outro ponto importante é que mulheres atuando em equipes de campo frequentemente facilitam o diálogo com moradores das regiões onde projetos de energia solar são instalados. Isso pode aumentar a aceitação social dos empreendimentos. Além disso, reduzir o histórico domínio masculino no setor ajuda a ampliar o número de profissionais disponíveis para trabalhar na transição energética.
Inclusão de mulheres pode acelerar crescimento do setor energético
A presença crescente de mulheres nas usinas solares indica uma transformação importante dentro da indústria de energia solar. Embora o domínio masculino ainda seja uma realidade em muitas áreas do setor, iniciativas de capacitação e inclusão demonstram que essa estrutura pode mudar.
Projetos como o realizado em Minas Gerais mostram que a expansão das energias renováveis pode gerar benefícios que vão além da produção de eletricidade limpa. A criação de empregos, o fortalecimento das comunidades locais e a inclusão de mulheres em atividades técnicas ajudam a construir um setor energético mais diverso e resiliente.
Com o crescimento acelerado da energia solar previsto para os próximos anos, ampliar a participação feminina se torna não apenas uma questão de justiça social, mas também uma estratégia essencial para garantir mão de obra qualificada e sustentar o avanço das usinas solares no Brasil e no mundo.


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