Daiani de Bem Borges trabalhava como farmacêutica bioquímica quando uma viagem a queijarias de Minas e São Paulo virou a chave. Em 2020, ela e o marido venderam a casa, mudaram de cidade e foram morar em um sítio na Serra do Mar. Seis anos depois, os queijos deles disputam prêmio na Europa.
Farmacêutica bioquímica formada pela Universidade Federal de Santa Catarina, Daiani de Bem Borges, hoje com 48 anos, trabalhou 14 anos na profissão antes de trocar tudo pela produção de queijo artesanal, segundo reportagem publicada pelo portal NSC Total em 8 de agosto de 2026, assinada por Amabile Back. Em 2020, ainda em plena pandemia, ela e o marido, Ricardo Bruggmann Muhle, também de 48 anos, venderam a casa e se mudaram para um sítio na Serra do Mar, em Águas Mornas.
Dali saiu a Boca da Serra, queijaria instalada no Morro do Cedro, na divisa de Águas Mornas com Rancho Queimado, a cerca de 70 quilômetros de Florianópolis. O negócio tem hoje cinco queijos autorais registrados, coleção de medalhas em concursos estaduais e nacionais e uma prata conquistada na Suíça em 2025. Em novembro de 2026, dois desses queijos vão disputar novamente o World Cheese Awards, agora na Espanha.
A viagem de 2019 que mudou o plano

A virada não começou com uma decisão de largar a carreira. Começou com uma viagem de estudo. Em 2019, Daiani teve a oportunidade de fazer cursos e participar de vivências sobre produção de queijo artesanal, e o roteiro incluiu visitas a queijarias na Serra da Canastra, em Minas Gerais, e no interior de São Paulo.
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Foi no Caminho dos Queijos Artesanais Paulistas que ela se convenceu. O que a impressionou, segundo o relato dela, foi encontrar pequenas produções desenvolvendo um trabalho genuíno, que valoriza e respeita as características naturais da região onde estão e transfere isso para o produto final, dando a cada queijo uma identidade própria. Ela conta que pensou, ainda na viagem, que queria levar aquele modelo para Santa Catarina.
O interesse já tinha um segundo motor. Daiani afirma que sempre buscou alimentação saudável e sempre valorizou a produção de comida de verdade, minimamente processada e sem uso de aditivos químicos. A formação em farmácia e bioquímica e a atenção à qualidade do que se come acabaram convergindo para o mesmo lugar.
A casa vendida em plena pandemia

A execução do plano aconteceu no pior momento imaginável para começar qualquer negócio. Em 2020, com o país parado pela pandemia de covid-19, o casal vendeu a casa, mudou de cidade e foi morar em um sítio na Serra do Mar.
Não foi uma transição gradual com o emprego mantido de reserva. Eles trocaram o patrimônio que tinham por um projeto que ainda não existia, e o fizeram no ano em que a maior parte das pessoas estava adiando decisões financeiras. O destino foi Águas Mornas, município da região da Grande Florianópolis, em área de serra.
Seis anos depois, o negócio está estruturado, com produção regular, registro sanitário e presença em concursos internacionais. Mas vale registrar a ordem dos fatos: a venda da casa veio antes de qualquer garantia.
A divisão de tarefas dentro da queijaria

Ricardo, o marido, não entrou na produção do queijo, mas assumiu funções que sustentam a operação inteira. Engenheiro sanitarista, ele é o responsável pela estação de tratamento de esgoto da propriedade, e o desenho desse sistema é o detalhe mais interessante da estrutura.
A estação reaproveita o soro do leite, subproduto que costuma ser descartado na produção de queijo, para gerar biogás, usado na própria queijaria, e biofertilizante, aplicado na propriedade. O resíduo que seria problema virou energia e adubo dentro do mesmo terreno. É uma solução de engenharia sanitária aplicada a uma escala pequena, algo raro em produção artesanal.
Ele também é quem busca o leite usado na produção, fornecido por um pequeno produtor da região. A divisão funciona assim: Daiani responde pelo queijo, Ricardo pela infraestrutura e pela logística de matéria-prima.
O leite que entra na queijaria
A escolha do fornecedor foi tratada como decisão técnica, não como conveniência. O casal procurou um produtor responsável, atento ao bem-estar animal, às boas práticas de higiene e às questões ambientais.
O leite vem de vacas da raça Jersey criadas a pasto, e o processo é rápido por definição. Ele é coletado na hora da ordenha e processado assim que chega à queijaria. Em queijo artesanal, o intervalo entre a ordenha e o processamento é uma das variáveis que mais afetam o resultado final, porque leite cru começa a mudar de perfil microbiológico rapidamente.
A raça também não é aleatória. O leite de vacas Jersey tem teor mais elevado de gordura e proteína que o das raças mais comuns na produção leiteira brasileira, característica que influencia rendimento e textura na fabricação de queijo.
Selo Arte e os cinco queijos autorais
Em 2024, a Boca da Serra obteve o Selo Arte para três dos cinco queijos que produz, por meio do Serviço de Inspeção municipal e com apoio do Ministério da Agricultura e Pecuária. O selo é o que permite a comercialização em todo o território nacional.
Esse é um marco decisivo para qualquer produtor artesanal. Sem registro, o queijo só pode ser vendido dentro do próprio município ou estado, o que limita o negócio a um mercado pequeno. O Selo Arte foi criado justamente para reconhecer produtos de origem animal feitos por métodos tradicionais e abrir o comércio interestadual a eles.
Hoje são cinco queijos autorais registrados, todos com nome próprio e ligação com a região: Floripano, Maciambu, Serramar, Catarina e Parmerino. Os nomes homenageiam a região serrana da Grande Florianópolis, um rio que nasce e deságua dentro do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, e o próprio estado.
O pódio triplo em Blumenau

Em julho de 2026, a queijaria participou do Prêmio Queijo Brasil, realizado em Blumenau, e voltou com três medalhas. O Parmerino ficou com o ouro, o Maciambu levou prata e o Catarina recebeu bronze.
O prêmio é apresentado como o maior concurso nacional dedicado a valorizar, desenvolver e premiar queijos e produtos lácteos artesanais brasileiros. Colocar três produtos diferentes no pódio da mesma edição indica consistência de processo, e não acerto isolado em um único queijo.
A avaliação que Daiani faz das premiações é sóbria. Ela diz que participar de eventos assim envolve expectativa e emoção grandes, e que há muita dedicação e comprometimento na produção. E acrescenta o ponto principal: mais do que medalha, o resultado funciona como indicativo de que o caminho escolhido está certo.
A prata na Suíça e a volta ao World Cheese Awards

A conquista internacional veio em 2025, na primeira participação da queijaria no World Cheese Awards. O queijo Serramar recebeu medalha de prata na edição realizada em Bern, na Suíça.
O relato dela sobre isso é de surpresa. Daiani conta que não se imaginava disputando um concurso daquele porte tão cedo, competindo com queijos do mundo inteiro, e que o resultado foi inesperado. Um queijo produzido em uma propriedade a 70 quilômetros de Florianópolis ganhou medalha em um evento que reuniu mais de 5,2 mil queijos de 46 países.
Agora vem a segunda tentativa. A queijaria pretende enviar dois queijos para a edição de 2026 do concurso, marcada para novembro, na Espanha.
O que é o World Cheese Awards e o que está em jogo
O World Cheese Awards é organizado pela Guild of Fine Food e se apresenta como o maior concurso internacional dedicado exclusivamente a queijos. A edição de 2026 será a 38ª e acontece em Córdoba, na Andaluzia, entre 12 e 15 de novembro, dentro do Andalucía Gusto del Sur International Cheese Festival.
O formato de julgamento é o que dá credibilidade ao resultado. A avaliação é feita às cegas, em um único dia, por especialistas selecionados entre tecnólogos, classificadores, varejistas, jornalistas, compradores, chefs e produtores. Os critérios incluem aparência da casca e da massa, aroma, corpo, textura e, principalmente, sabor e sensação na boca. Na edição de 2025, em Bern, foram 265 jurados de 46 países.
Há um detalhe importante sobre o que os vencedores recebem. O concurso não paga prêmio em dinheiro, e o retorno vem em forma de reconhecimento de mercado, prestígio e valorização comercial do produto. Para um produtor artesanal pequeno, é exatamente esse tipo de credencial que abre porta em loja especializada e em restaurante.
Os cinco queijos da casa
O Floripano é um queijo semiduro, de sabor suave e adocicado, com notas de amêndoa, massa lisa e compacta que pode apresentar pequenas olhaduras, casca natural e maturação mínima de 30 dias. O nome homenageia a região serrana da Grande Florianópolis. Ele acumula bronze e ouro em edições do Prêmio Queijo Brasil e bronze no Concurso de Queijos Artesanais Catarinenses.
O Maciambu é macio, de casca fina e alaranjada coberta por uma camada irregular de mofo branco, com massa cremosa e amanteigada. O nome vem de um rio que nasce e deságua dentro do Parque da Serra do Tabuleiro. É o mais premiado da casa, com bronze, prata e ouro no Prêmio Queijo Brasil e dois ouros no concurso catarinense.
O Serramar tem massa lisa e amanteigada, sabor que lembra creme de leite fresco, com notas de caramelo e um dulçor cítrico, e maturação mínima de 60 dias. Foi ele que levou o super ouro no Mundial do Queijo do Brasil em 2024 e a prata na Suíça em 2025. O Catarina é de coagulação lática, massa untuosa e espalhável, sabor levemente ácido e adocicado, e leva o nome do estado. O Parmerino é de massa cozida prensada, feito com mistura de leite integral de vaca e leite de ovelha, com casca natural rústica e inspiração nos queijos duros italianos.
O que essa história mostra sobre recomeço
A trajetória de Daiani tem um elemento que a diferencia das histórias comuns de troca de carreira. Ela não abandonou a formação técnica, ela a transferiu de área. Bioquímica é exatamente o campo que governa fermentação, maturação e comportamento microbiológico do leite, e o que ela diz sobre a produção reflete isso: acredita que há muita ciência no saber fazer, e que é preciso manter atenção à essência de cada produto para não se perder nessa busca.
O objetivo declarado por ela é desenvolver queijos com identidade própria, que valorizem as características naturais da região, com respeito ao meio ambiente e buscando equilíbrio entre técnica nova e método tradicional. Seis anos depois da venda da casa, essa proposta rendeu registro sanitário, cinco produtos autorais, medalhas em três níveis de concurso e uma segunda ida à Europa.
E você, teria coragem de vender a casa em plena pandemia para começar do zero em outra área? Conta nos comentários se você já largou uma carreira estável por um projeto próprio e como foi.
