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Mudanças climáticas transformaram o famoso lago da Austrália de cartão-postal rosa vibrante em um lago comum azul-acinzentado, turistas são avisados para não esperar mais a cor histórica e cientistas estudam o local como laboratório vivo e análogo de Marte

Publicado em 27/04/2026 às 12:21
Atualizado em 27/04/2026 às 12:44
O Lago Hillier perdeu a cor rosa por mudanças climáticas. A Austrália alerta turistas e cientistas estudam o local como análogo de Marte.
O Lago Hillier perdeu a cor rosa por mudanças climáticas. A Austrália alerta turistas e cientistas estudam o local como análogo de Marte.
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O Lago Hillier, na costa oeste da Austrália, era um dos fenômenos naturais mais fotografados do mundo por sua cor rosa-chiclete vibrante. Mas desde 2022, chuvas extremas atribuídas às mudanças climáticas diluíram a salinidade da água e desorganizaram a comunidade microbiana que produzia o pigmento. O lago passou a apresentar tom azul-acinzentado, e autoridades alertam que a recuperação pode levar até 10 anos. Cientistas agora estudam o ambiente como análogo de Marte.

O Lago Hillier foi durante décadas o cartão-postal mais improvável da Austrália: uma mancha rosa elétrica no meio de uma ilha desabitada, cercada pelo verde da vegetação e pelo azul do Oceano Índico. Localizado na Middle Island, parte do arquipélago da Recherche na costa sul da Austrália Ocidental, o lago de apenas 600 metros de comprimento atraía turistas do mundo inteiro que pagavam por voos panorâmicos apenas para ver suas águas cor de chiclete do alto. Mas as mudanças climáticas fizeram o que parecia impossível: apagaram a cor que tornava o lago famoso.

Desde 2022, visitantes são orientados a não esperar o rosa intenso que viralizou nas redes sociais. Chuvas extremas atípicas atingiram o oeste da Austrália e diluíram significativamente a salinidade da água, reduzindo o estresse osmótico que forçava os microrganismos do lago a produzir os pigmentos responsáveis pela coloração. O resultado foi imediato e dramático: o Lago Hillier passou de rosa elétrico para azul-acinzentado, mais parecido com qualquer outro lago salgado comum. A imprensa australiana documentou a transformação entre 2022 e 2025, e em 2026 a cor histórica ainda não retornou.

A ciência por trás da cor rosa que enganou o mundo por décadas

Imagem: Getty Images

Segundo informações divulgadas pelo portal NSC, por muito tempo, a explicação para a cor rosa do Lago Hillier foi atribuída a uma única microalga chamada Dunaliella salina, que produz carotenoides avermelhados como proteção contra radiação solar e excesso de sal. Mas um estudo publicado em 2022 na revista Environmental Microbiome virou essa explicação de cabeça para baixo. A pesquisa, liderada pela cientista Maria A. Sierra da Weill Cornell Medicine, fez análise metagenômica completa da água do lago.

A descoberta surpreendeu: a Dunaliella salina representa apenas 0,1% do DNA microbiano do lago. A principal responsável pela coloração rosa é uma bactéria chamada Salinibacter ruber, que produz pigmentos vermelhos chamados bacterioruberinas. Outras espécies como Halobacillus, Psychroflexus e Halorubrum também contribuem com pigmentos. Pelo menos duas das 21 espécies que tiveram genoma completo identificado eram previamente desconhecidas pela ciência. O que parecia ser trabalho de uma única alga é, na verdade, o resultado de uma comunidade microbiana complexa com dezenas de espécies trabalhando em conjunto.

Como as chuvas extremas apagaram a cor do lago em questão de semanas

Em 2022, o oeste da Austrália foi atingido por chuvas extremas atípicas atribuídas em parte às mudanças climáticas globais. O volume de precipitação diluiu a água do Lago Hillier e reduziu a salinidade extrema que sustenta a vida microbiana especializada. Sem a salinidade que normalmente supera dez vezes a do oceano, os microrganismos não desapareceram, mas reduziram drasticamente a produção dos pigmentos que dão a cor rosa.

A lógica é bioquímica: os carotenoides e as bacterioruberinas são produzidos como resposta ao estresse osmótico causado pelo excesso de sal. Quando a salinidade cai, os microrganismos não precisam mais se proteger e param de produzir os pigmentos, da mesma forma que um guarda-chuva é fechado quando a chuva para. A diferença é que reconstruir a salinidade original e restaurar a comunidade microbiana ao equilíbrio anterior pode levar até uma década, segundo autoridades de parques nacionais australianos.

O Lago Hillier como laboratório vivo e análogo de Marte

O ambiente extremo do Lago Hillier sempre interessou a ciência, mas a descoberta da complexidade de sua comunidade microbiana elevou o interesse a outro patamar. O lago funciona como um laboratório vivo da microbiologia, abrigando organismos poliextremófilos capazes de sobreviver a múltiplas condições extremas simultaneamente: salinidade dezenas de vezes superior à do oceano, radiação ultravioleta intensa e variações bruscas de temperatura.

Essas condições se aproximam do que cientistas esperam encontrar em alguns ambientes de Marte, o que torna o Lago Hillier um análogo terrestre para pesquisas de astrobiologia. Se microrganismos conseguem prosperar nas águas hipersalinas da Austrália, é plausível que formas de vida semelhantes possam existir em depósitos salinos marcianos. A perda temporária da cor rosa não eliminou o valor científico do lago: ao contrário, ofereceu aos pesquisadores a oportunidade rara de estudar como uma comunidade microbiana reage e se reorganiza após perturbação ambiental.

Os outros lagos rosa do mundo e o padrão que preocupa cientistas

O Lago Hillier não é o único corpo d’água rosa do planeta, mas é o mais famoso. Existem dezenas de lagos com coloração semelhante ao redor do mundo, todos compartilhando o mesmo perfil: alta salinidade, isolamento relativo e comunidade microbiana especializada. O Lago Retba, no Senegal, enfrentou problemas com nitratos que ameaçam seu ecossistema. O Pink Lake, também em Esperance na Austrália, perdeu a cor há mais de 20 anos e nunca recuperou.

O padrão é preocupante porque mostra que a cor rosa desses lagos é mais frágil do que parece. Qualquer alteração na salinidade provocada por chuvas atípicas, poluição ou mudança no nível do mar pode desorganizar a comunidade microbiana, e a recuperação não é garantida. Para o Lago Hillier, a expectativa oficial é de até dez anos, mas o exemplo do Pink Lake demonstra que o retorno da cor pode simplesmente não acontecer se as condições climáticas não voltarem ao padrão anterior.

O que a perda da cor rosa ensina sobre mudanças climáticas

A história do Lago Hillier se tornou um exemplo concreto de como até paisagens consideradas estáveis podem ser transformadas por alterações aparentemente pequenas no clima. O lago não secou, não foi poluído por ação humana direta e não perdeu sua fauna microbiana, mas perdeu a característica que o tornava único e que sustentava uma indústria turística de voos panorâmicos e roteiros fotográficos.

Para os cientistas, o caso ilustra que os impactos das mudanças climáticas nem sempre são catastróficos no sentido tradicional, mas podem ser profundos de maneiras inesperadas. Um lago que perde a cor não gera refugiados climáticos nem destrói colheitas, mas elimina um patrimônio natural e científico que levou milênios para se formar e que, uma vez perdido, pode não voltar na escala de uma vida humana.

Você sabia que o lago rosa mais famoso do mundo perdeu a cor por causa das mudanças climáticas, ou achava que a paisagem era permanente? Conte nos comentários se já sonhou em visitar o Lago Hillier e o que pensa sobre fenômenos naturais que desaparecem antes que possamos vê-los.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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