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Motorista de ônibus estudou seis anos, entra à 1h da madrugada e larga às 8h20; gravava os textos no celular para ouvir ao longo do dia, já tinha desistido de estudar uma vez e aos 42 anos tomou posse como advogado no tribunal federal e continua no volante, em Rosário

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Escrito por Maria Heloisa Barbosa Borges Publicado em 09/08/2026 às 09:24 Atualizado em 09/08/2026 às 09:25
Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.
Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.
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De noite ele dirige um ônibus, de dia atende clientes. Sempre de gravata, no volante ou no tribunal. Os colegas da linha 133 o chamam de Doutor e ele corta na hora, dizendo que doutor não, é motorista. Juan Pablo Montenegro não largou o volante depois do diploma.

Motorista da empresa Rosario Bus, na cidade argentina de Rosário, Juan Pablo Montenegro estudou por pouco mais de seis anos, se formou em Direito e passou a atuar como advogado sem deixar o emprego ao volante, segundo reportagem publicada pelo portal Rosario3 em 18 de outubro de 2020, assinada por Roberto Caferra. Aos 42 anos, ele tomou posse no foro federal de Rosário na semana anterior à publicação da matéria.

O detalhe que mais chama atenção não é o diploma, é a permanência. Ele já litigava havia dois anos na província de Santa Fé quando conquistou a habilitação federal, e mesmo assim continuava pegando o ônibus na garagem para cumprir o turno da noite. A rotina descrita por ele era de dormir pouco, estudar entre um turno e outro e usar um truque de gravação no celular para memorizar os textos.

“Doutor não, sou motorista”

Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.
Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.

A cena que abre a reportagem original é reveladora. Os colegas da linha 133 passaram a chamá-lo de Doutor depois da formatura, e ele corta a brincadeira na hora, corrigindo que doutor não, ele é motorista.

A explicação que ele dá ao repórter é direta: sempre com humildade, porque isso é o mais importante para ele. A recusa ao título não é falsa modéstia, é a forma como ele organiza a própria identidade profissional. Não houve troca de vida, houve acúmulo. As duas ocupações convivem no mesmo dia, com a mesma gravata.

Sobre a origem do ofício, ele tem uma frase pronta que resume a relação com a profissão: motorista de ônibus não se faz, se nasce. Ele conta que sempre dirigiu veículos para viver, e que sempre precisou de emprego e de salário, mesmo gostando de Direito desde cedo.

De caminhoneiro na Espanha a motorista de ônibus em Rosário

Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.
Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.

A trajetória profissional dele antes do curso de Direito passou por quatro tipos de volante. Em 2001, aos 21 anos e recém-casado, foi morar na Espanha, onde trabalhou como caminhoneiro. Em 2003, a primeira filha do casal nasceu em Barcelona.

Foi essa chegada que motivou o retorno. Eles decidiram voltar para que a menina crescesse na Argentina, cercada pela família. Uma decisão familiar tomada em Barcelona é o que colocou Juan Pablo de volta às ruas de Rosário.

De volta ao país, veio a sequência: motorista de carro-forte em Rosário, depois motorista de táxi e, por fim, condutor do transporte público da cidade. Cada etapa foi um emprego que pagava as contas, e nenhuma delas abria espaço para o curso que ele queria fazer.

A primeira tentativa que não deu certo

Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.
Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.

Antes de conseguir estudar, houve uma tentativa frustrada. Quando trabalhava como motorista na empresa de transporte de valores, Juan Pablo quis começar a faculdade e esbarrou em um obstáculo simples e intransponível: a empresa não liberava os horários necessários para cumprir as exigências do curso e para fazer as provas.

Sem autorização para se ausentar, ele não pôde. O projeto morreu não por falta de vontade nem de capacidade, mas por incompatibilidade de escala de trabalho. É o mesmo motivo que interrompe estudos de milhares de trabalhadores em regime de turno, e raramente aparece nas histórias de superação.

Esse episódio dá dimensão ao que veio depois. Quando a oportunidade apareceu, ele já sabia exatamente qual era a variável decisiva, e não era a inteligência nem a disciplina, era a permissão do empregador.

A linha 102 e os estudantes da Siberia

O ponto de virada aconteceu dentro do próprio ônibus. Ao passar a dirigir a linha 102 vermelha, que atravessa a área conhecida como Siberia, onde fica a cidade universitária de Rosário, ele começou a conviver diariamente com estudantes.

O efeito foi imediato. Ele conta que via os alunos nas universidades e queria ser um deles, ser estudante, ser profissional. A rota de trabalho virou vitrine do que ele queria e ainda não tinha. E havia uma condição inegociável embutida no desejo: fazer isso sem precisar largar o emprego de motorista.

Essa condição define toda a história. Não se trata de alguém que abandonou uma carreira para perseguir outra, mas de alguém que se recusou a escolher entre as duas e organizou a vida para que coubessem juntas.

O truque do celular: gravar de noite, ouvir de dia

A técnica de estudo que ele descreve é engenhosa e nasceu da falta de tempo. A rotina era brutal: trabalhava à noite, chegava em casa, tomava banho, assistia às aulas, estudava e fazia as provas.

Para dar conta do volume de leitura, criou um sistema próprio. Lia à noite, gravava o conteúdo em áudio no celular e ouvia essas gravações ao longo do dia, aproveitando os intervalos em que não podia ter um livro nas mãos. Era assim que retinha a informação, e ele chama isso de truque com naturalidade de quem descobriu sozinho.

Ele estudou na Universidad Siglo XXI, combinando aulas presenciais e a distância. O curso levou pouco mais de seis anos, e ao final ele saiu com o diploma e com a habilitação para atuar nas jurisdições provincial e federal.

As permissões que tornaram tudo possível

Juan Pablo faz questão de nomear quem ajudou, e o primeiro nome que cita é o de Viviana Tinari, gerente da Rosario Bus. Segundo ele, foi ela quem o incentivou, deu as autorizações e o ajudou a frequentar as aulas e prestar as provas.

Quando as coisas apertaram, a empresa facilitou. A diferença entre o motorista que não conseguiu estudar no carro-forte e o motorista que virou advogado no ônibus foi, na prática, política interna de empregador. Ele agradece à empresa, à esposa e à família, e credita também à fé que carrega.

O reconhecimento reaparece no relato sobre a posse no tribunal federal. Para comparecer à cerimônia, ele precisou pedir um dia de folga, e a empresa concedeu. Ele afirma sem rodeios que não conseguiria ser advogado sem essas permissões.

O turno atual: 1h da madrugada às 8h20

O horário que ele descrevia à época da entrevista é o retrato da rotina que manteve mesmo depois de formado. O turno começava na segunda-feira à 1h da madrugada, com saída do mercado de hortifruti na esquina de Wilde e Mendoza, e ia até as 8h20, no cruzamento das ruas Uriburu e San Martín, na linha 133.

Os dias de folga alternavam nos fins de semana. E a conclusão dele sobre a permanência no volante era pragmática: com 42 anos e três filhas, largar tudo seria muito difícil, porque o emprego é a fonte de renda confiável da casa. O diploma não substituiu o salário, ele se somou a ele.

Em paralelo, ele já atuava na advocacia com casos de direito de família, dizia gostar muito de direito penal e estava estudando para outro exame, além de acompanhar um concurso aberto para uma vaga de advogado no sistema federal. Motorista, advogado e estudante de novo, tudo ao mesmo tempo.

Uma família inteira estudando junto

Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.
Ele dirige a linha 133 da 1h às 8h20, gravava a matéria no celular para ouvir de dia e virou advogado aos 42 anos sem largar o volante, em Rosário.

O efeito da decisão dele não ficou restrito à própria carreira. A esposa se envolveu nos estudos e, na época da reportagem, estava prestes a se formar em contabilidade.

As três filhas cresceram vendo os dois pais estudando ao mesmo tempo. Numa casa em que pai e mãe voltaram para a sala de aula na vida adulta, educação deixa de ser discurso e vira rotina observável. É o tipo de referência que não precisa ser explicada verbalmente.

O próprio Juan Pablo resume o conselho que dá em uma frase simples: nunca é tarde demais para estudar, se qualificar e seguir em frente.

A festa dos passageiros e o diploma na Câmara

Quando ele se formou, quem organizou a comemoração foram os passageiros da própria rota. A relação construída ao longo de anos dirigindo o mesmo trajeto explica isso, e ele mesmo descreve o vínculo dizendo que, quando se dirige a mesma linha por anos, as pessoas viram uma espécie de família.

A repercussão foi além do bairro. A história se tornou uma das mais compartilhadas e comentadas nas redes sociais argentinas, e teve desdobramento institucional. Em 29 de outubro de 2020, a Câmara de Deputados de Santa Fé aprovou uma iniciativa para conceder a ele um diploma especial por esforço e sacrifício, proposta assinada pelos deputados provinciais Nicolás Mayoraz e Natalia Armas Belavi, do bloco Somos Vida y Familia. Onze dias depois de a história ser publicada, o motorista da 133 estava sendo homenageado pelo parlamento da província.

O texto aprovado também autorizava a presidência da Câmara, então exercida pelo ex-governador Miguel Lifschitz, a definir data e horário do ato de distinção.

O que sobra dessa história

O caso de Juan Pablo Montenegro costuma ser contado como exemplo de esforço individual, e é. Mas ele traz embutido um segundo dado que ele próprio insiste em destacar: sem a liberação de horários dada pelo empregador, nada disso teria acontecido, e a prova está na tentativa anterior, que fracassou exatamente por falta dessa liberação.

O outro elemento que se destaca é a recusa em transformar o diploma em ruptura. Ele podia ter usado a formatura como porta de saída do ônibus e escolheu manter as duas ocupações, por cálculo financeiro e por identidade. Continuou entrando na garagem à 1h da madrugada, com a mesma gravata que usava no tribunal e a flanela com que limpava o painel do veículo todas as noites.

E você, acha que o esforço individual explica sozinho histórias assim, ou o fator decisivo é ter um chefe que libera o horário para estudar? Conta nos comentários se o seu trabalho já facilitou ou atrapalhou os seus estudos.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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