Walter Orthmann assinou a ficha número 130 da Indústrias Renaux em 17 de janeiro de 1938 e nunca trabalhou em outro lugar. O Guinness certificou 84 anos e 9 dias de casa em janeiro de 2022. Ele se afastou em janeiro de 2024, com 86 anos de empresa, e morreu em agosto daquele ano.
Ele assinou uma única ficha de admissão na vida, a de número 130, em 17 de janeiro de 1938. O brasileiro Walter Orthmann tinha 15 anos, entrou como auxiliar de expedição na Indústrias Renaux S.A., em Brusque, Santa Catarina, e permaneceu na mesma companhia até o fim, conforme registro publicado pelo Guinness World Records em abril de 2022, com verificação feita em 6 de janeiro daquele ano.
O número certificado naquele momento foi de 84 anos e 9 dias de casa, marca que lhe rendeu o título mundial de carreira mais longa em uma mesma empresa. Ele completou 100 anos em 19 de abril de 2022 e continuava dirigindo o próprio carro até o escritório todos os dias. A história tem desfecho: Orthmann se afastou do trabalho em janeiro de 2024, por problemas de visão, e morreu em 2 de agosto de 2024, aos 102 anos, em casa, por causas naturais, conforme confirmou a empresa e noticiaram ND Mais, Terra, Metrópoles e o Tribunal Regional do Trabalho da 12ª Região.
O menino que foi contratado porque falava alemão

A entrada na fábrica não teve nada de planejamento de carreira. A família passava por dificuldades financeiras, e em 1938 esperava-se que crianças ajudassem no sustento da casa. Como filho mais velho de cinco irmãos, ele foi levado pela mãe para procurar emprego.
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Brusque tem forte presença de descendentes de alemães, e foi justamente isso que abriu a porta. O domínio do idioma pesou na contratação. Antes disso, ele caminhava descalço até a escola, sob chuva, sol, lama ou geada, e era descrito como aluno de memória excepcional e atenção a detalhes. Foi essa combinação de necessidade e aptidão que colocou um adolescente na expedição de uma fábrica têxtil e o manteve ali pelas oito décadas seguintes.
Da etiqueta de tecido à gerência de vendas
O primeiro trabalho era manual e repetitivo: enrolar, etiquetar e separar tecidos na expedição. A trajetória interna passou depois por office boy e assistente administrativo, até chegar ao setor comercial, onde ele encontrou a função que exerceria pelo resto da vida.
A virada aconteceu na primeira oportunidade como vendedor. Ele viajou a São Paulo e, em menos de uma semana, voltou com pedidos equivalentes a três meses de produção da fábrica. Foi promovido a gerente de vendas e nunca mais saiu da área. Nos anos 1950, passou a rodar o país, e é dessa fase que vem o traço mais citado por quem trabalhou com ele: a facilidade de transformar cliente em amigo, com negócios firmados em praticamente todos os estados brasileiros.
Nove moedas e uma calculadora vinda da Alemanha

Oitenta e seis anos de carteira assinada atravessam mais história econômica do que qualquer manual. Ao longo do período, Orthmann recebeu salários em nove moedas diferentes, segundo levantamento divulgado pelo TRT da 12ª Região.
Também acompanhou a chegada da tecnologia ao escritório. Em entrevista concedida à revista Isto É, ele contou que, na primeira vez em que usou uma calculadora, trazida da Alemanha, conferia os resultados à mão, por desconfiar da máquina. A lição que ele tirava de tantas mudanças era prática: em negócio, o essencial é se manter atualizado e se adaptar a contextos diferentes. Quem entrou etiquetando tecido em 1938 fechou a carreira em uma empresa informatizada do século 21.
A rotina de um homem de 100 anos
O detalhe que mais chamou atenção da imprensa internacional não foi o recorde em si, mas a rotina. Mesmo depois dos 100 anos, ele dirigia o próprio carro até o trabalho e praticava exercícios com regularidade, inclusive nos fins de semana.
Segundo o material do Guinness, ele mantinha boa saúde, clareza mental e memória preservadas. A filosofia que repetia era de presente, não de projeto: dizia não planejar muito nem se preocupar com o amanhã, e que o que importava era acordar, se exercitar e ir trabalhar. Sobre o trabalho em si, resumia que quando se faz o que se gosta, não se vê o tempo passar. O conselho profissional que oferecia era escolher uma boa empresa e uma área que motivasse.
A insígnia entregue pela Justiça do Trabalho
O reconhecimento não veio só do livro dos recordes. Em 2022, Orthmann foi condecorado pela Justiça do Trabalho, recebendo a insígnia da Ordem Catarinense do Mérito Judiciário do Trabalho das mãos do então presidente do TRT da 12ª Região, desembargador José Ernesto Manzi.
A cerimônia aconteceu na sede da própria empresa, e a RenauxView também foi homenageada na ocasião. É um dado que costuma sumir das versões internacionais da história, que se concentram no recorde e na longevidade, mas que ajuda a mostrar como o caso repercutiu institucionalmente dentro do Brasil.
Como a história terminou

O recorde de 2022 não foi o último número. Ele seguiu trabalhando e completou 86 anos de empresa no início de 2024, quando se afastou das atividades por causa de problemas na visão. Foi o encerramento de uma carreira que começou com Getúlio Vargas no poder.
Em 2 de agosto de 2024, uma sexta-feira, Walter Orthmann morreu em casa, aos 102 anos, por causas naturais. A RenauxView confirmou a morte em nota, lamentando a perda e afirmando que ele deixava um grande vazio no cotidiano da empresa. Vale registrar também que o recorde de 2022 foi conquistado sobre ele mesmo: a marca anterior, de 81 anos e 85 dias, era dele, estabelecida três anos antes.
A história de Orthmann circula como exemplo de dedicação, e é. Mas ela também descreve um mundo do trabalho que praticamente deixou de existir, em que uma única ficha de admissão podia durar uma vida inteira e a estabilidade era a regra, não a exceção.
Conta nos comentários: você acha que permanecer décadas na mesma empresa ainda é possível hoje, ou o mercado atual simplesmente não permite mais isso? E na sua carreira, o que pesa mais na hora de ficar ou sair, salário, ambiente ou a sensação de estar aprendendo alguma coisa?
