Gianna Nino-Tapias começou a trabalhar nos campos de mirtilo aos 14 anos, ao lado da mãe, tornou-se estudante indígena em Stanford, concluiu Medicina em 2024 usando cores e padrões mixtecas na formatura e iniciou residência em atenção primária em San Diego, próxima à fronteira dos Estados Unidos com o México.
A trajetória da indígena Gianna Nino-Tapias começou profissionalmente muito antes da faculdade de Medicina. Aos 14 anos, ela já trabalhava nos campos de mirtilo de Kennewick, no estado de Washington, ao lado da mãe e de outros trabalhadores agrícolas. Anos depois, entrou na Universidade Stanford, cursou Medicina e passou a associar sua formação acadêmica à história da própria família e às raízes mixtecas herdadas de Oaxaca, no México.
A história foi atualizada oficialmente pelo Stanford Medicine em 11 de junho de 2024, poucos dias antes da formatura médica de Gianna, marcada para 15 de junho daquele ano. Parte de sua trajetória cultural já havia ganhado repercussão em reportagem do BuzzFeed publicada em 28 de setembro de 2021, quando ela chamou atenção ao participar da cerimônia do jaleco branco usando vestimentas tradicionais de sua comunidade mixteca.
Trabalho nos campos começou aos 14 anos
Gianna começou a trabalhar nos mesmos campos de mirtilo onde sua mãe, Susana Tapias, continuava atuando anos depois. A região agrícola de Kennewick, em Washington, fez parte de sua adolescência e colocou a futura médica em contato direto com as condições enfrentadas por trabalhadores migrantes durante longas jornadas de trabalho.
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Foi nesse ambiente que ela começou a imaginar uma carreira capaz de melhorar não apenas sua própria vida, mas também a das pessoas ao redor. Segundo Stanford, Gianna recordava que lia bastante e pensava no futuro enquanto observava trabalhadores agrícolas curvados durante horas, experiência que mais tarde passou a relacionar diretamente com seu interesse por saúde e justiça no atendimento médico.
Mãe deixou Oaxaca ainda adolescente
A história familiar de Gianna também atravessa gerações. Sua mãe cresceu como uma de nove crianças em uma pequena comunidade próxima de Oaxaca, no sul do México. Aos 12 anos, saiu de casa para trabalhar como babá na Cidade do México enquanto tentava continuar seus próprios estudos no período noturno.
Ela não concluiu o Ensino Médio e, aos 20 anos, mudou-se para os Estados Unidos para trabalhar na agricultura. A educação que Susana não conseguiu completar acabou se transformando em prioridade para os filhos, que seguiram trajetórias universitárias nos Estados Unidos. Gianna tornou-se médica, enquanto seus três irmãos seguiram carreiras em engenharia.
Stanford entrou em uma trajetória improvável

Antes de ingressar na Stanford School of Medicine, Gianna já havia concluído a graduação na própria Universidade Stanford. Ela era a filha mais velha da família e uma das primeiras gerações de norte-americanos a trilhar um caminho acadêmico desse nível, depois de crescer ligada diretamente ao trabalho rural.
A transição não eliminou as dificuldades financeiras. Stanford relata que, durante o primeiro ano da graduação, Gianna chegou a ficar sem dinheiro e precisou trabalhar no Panda Express do campus, experiência que anos depois descobriu ter em comum com Angela Williams, estudante mais jovem que passou a orientar dentro de um programa voltado a estudantes indígenas interessados em Medicina.
Cerimônia do jaleco branco ganhou repercussão em 2021
Em 2021, quando ainda cursava Medicina, Gianna recebeu atenção nas redes sociais após publicar fotografias de sua cerimônia do jaleco branco. Em vez de usar apenas a roupa acadêmica convencional, ela escolheu incorporar uma vestimenta tradicional mixteca confeccionada com elementos produzidos por artesãos de sua comunidade.
A publicação acumulou quase 20 mil curtidas na época, segundo o BuzzFeed. Para Gianna, a escolha não tinha caráter meramente estético: era uma maneira de levar sua identidade indígena para um espaço acadêmico em que pessoas com histórias semelhantes à dela raramente apareciam representadas.
Roupa tradicional carregava referência a Oaxaca
A vestimenta usada por Gianna tinha bordados feitos à mão e elementos ligados às tradições das mulheres mixtecas de Oaxaca. Ela explicou ao BuzzFeed que usar aquelas peças durante a cerimônia ajudava a lembrar de onde vinha e da trajetória multigeracional que levou sua família de uma comunidade rural mexicana até uma das escolas de Medicina mais conhecidas dos Estados Unidos.
A estudante indígena afirmou que sua identidade a acompanharia durante toda a formação médica e também na futura atuação profissional. Naquele momento, ela ainda avaliava qual especialidade seguiria, mas já dizia que pretendia direcionar a carreira para comunidades rurais, indígenas, migrantes e trabalhadores agrícolas com dificuldades de acesso ao sistema de saúde.
Pandemia levou Gianna de volta à colheita
Mesmo depois de chegar à faculdade de Medicina, Gianna voltou aos campos durante a pandemia de Covid-19. A experiência chamou atenção nas redes sociais em 2020, especialmente depois que ela publicou informações sobre quanto trabalhadores recebiam pela colheita de mirtilos.
Uma dessas publicações recebeu quase 250 mil curtidas. O retorno ao trabalho rural também reforçou para Gianna a ligação entre sua formação médica e as condições concretas enfrentadas por trabalhadores agrícolas, especialmente em comunidades nas quais baixos salários, esforço físico prolongado e dificuldades de acesso à saúde podem aparecer ao mesmo tempo.
Experiência da própria mãe influenciou sua visão médica
Décadas de trabalho agrícola começaram a afetar as articulações de Susana Tapias. Segundo Stanford, Gianna percebeu que os sintomas relatados pela mãe pareciam compatíveis com artrite reumatoide, enquanto inicialmente haviam sido interpretados como possível osteoartrite relacionada ao desgaste provocado pelo trabalho no campo.
Gianna entrou em contato com o médico e pediu investigação adicional. Exames indicaram artrite reumatoide, e sua mãe passou a receber tratamento direcionado para a condição. O episódio mostrou à futura médica como conhecimento técnico e disposição para questionar hipóteses poderiam alterar concretamente o atendimento recebido por alguém de sua própria família.
Pacientes indígenas também revelaram barreiras no sistema
Durante a formação clínica, Gianna encontrou pacientes indígenas provenientes da mesma região de Oaxaca onde sua família tinha raízes. Alguns falavam pouco espanhol e utilizavam variantes linguísticas indígenas, o que criava dificuldades adicionais dentro de hospitais e clínicas.
Em uma rotação pediátrica, ela acompanhou uma mãe cujo filho estava gravemente doente e tentou compreender e traduzir sua variante linguística. A experiência reforçou a percepção de que barreiras culturais e linguísticas podem influenciar diretamente a capacidade de uma família entender tratamentos, fazer perguntas e participar das decisões médicas.
Formação também virou espaço para orientar outros estudantes
Enquanto cursava Medicina, Gianna passou a dedicar parte do tempo a programas de apoio a futuros profissionais indígenas. Entre eles estava o Stanford American Indigenous Medical Students, por meio do qual manteve contato com estudantes que também vinham de famílias de baixa renda e ligadas ao trabalho agrícola.
Angela Williams, caloura de Stanford e interessada em Medicina, descreveu Gianna como uma referência justamente por compartilhar experiências semelhantes. Para jovens que nunca haviam imaginado estudar em Stanford, encontrar alguém com origem indígena e familiaridade com o trabalho no campo oferecia uma referência muito mais próxima do que exemplos abstratos de sucesso acadêmico.
Formatura de 2024 retomou as cores mixtecas
Quando chegou a hora de receber o diploma de Medicina em 15 de junho de 2024, Gianna planejou novamente levar sua origem para o palco. Stanford informou que ela usaria sob a beca cores e padrões mixtecas que representavam suas raízes indígenas.
O gesto retomava simbolicamente aquilo que já havia feito na cerimônia do jaleco branco três anos antes. Do trabalho iniciado aos 14 anos nos campos de mirtilo à conclusão de Medicina em Stanford, Gianna escolheu marcar os principais ritos acadêmicos sem separar a nova profissão da identidade cultural que carregava desde a infância.
Residência começou perto da fronteira com o México
Antes mesmo da cerimônia de formatura, Gianna já havia iniciado sua residência em atenção primária no Scripps Health-Chula Vista, em San Diego. A localização a colocou a poucos quilômetros da fronteira entre Estados Unidos e México, região onde questões migratórias, linguísticas e de acesso à saúde fazem parte do cotidiano de muitos pacientes.
O programa também previa visitas mensais a Tijuana para atuação em clínicas que atendem solicitantes de asilo. A escolha aproximou a médica indígena do tipo de população que ela dizia querer atender desde os primeiros anos da formação, incluindo migrantes, trabalhadores rurais e pessoas com dificuldade para navegar pelo sistema de saúde.
Caminho iniciado nos mirtilos terminou em uma nova etapa
Aos 14 anos, Gianna trabalhava ao lado da mãe colhendo mirtilos no estado de Washington. Mais tarde entrou em Stanford, tornou-se estudante de Medicina, levou vestimentas mixtecas para a cerimônia do jaleco branco, concluiu o curso usando novamente referências à própria origem e iniciou uma residência médica próxima à fronteira mexicana.
A trajetória da indígena Gianna Nino-Tapias não apagou o trabalho rural que veio antes da Medicina; ela transformou essa experiência em parte da razão pela qual escolheu cuidar de comunidades historicamente menos atendidas. Para você, o que mais chama atenção nessa história: começar a trabalhar aos 14 anos, chegar a Stanford ou fazer questão de levar a identidade mixteca para cada etapa da formação médica? Conte sua opinião nos comentários.
