1. Início
  2. Construção
  3. Moinho de bolas de 700 toneladas só “entra” depois de fundação com 2.000 m³ de concreto, chumbadores de mais de 2 metros e tolerância milimétrica em usina de cobre de 4 milhões de toneladas por ano no Pará
Faça um comentário 7 min de leitura

Moinho de bolas de 700 toneladas só “entra” depois de fundação com 2.000 m³ de concreto, chumbadores de mais de 2 metros e tolerância milimétrica em usina de cobre de 4 milhões de toneladas por ano no Pará

Imagem de perfil do autor Bruno Teles
Escrito por Bruno Teles Publicado em 30/09/2026 às 21:37
Google News
Carcaça do moinho de bolas içada sobre a fundação, em obra mostrada pela Milplan.
Carcaça do moinho de bolas içada sobre a fundação, em obra mostrada pela Milplan. Foto: Divulgação/Milplan Engenharia
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo
Prefira o CPG no Google

Um guindaste ergue uma seção da carcaça de um moinho de bolas do tamanho de uma casa e a leva até a base de concreto. O que decide se a máquina vai girar sem tremer foi feito antes, no chão, com topografia e chumbadores conferidos milímetro a milímetro.

Um cilindro branco de aço pendurado num guindaste azul abre o carrossel que a Milplan Engenharia publicou em 24 de setembro de 2026. É a carcaça de um moinho de bolas, descendo sobre uma base de concreto.

O moinho de bolas é a máquina que mói o minério numa usina de beneficiamento. Segundo a publicação da Milplan no LinkedIn, este pesa aproximadamente 700 toneladas.

O peso chama atenção, mas a empresa preferiu falar de outra coisa. Segundo o texto, por trás das 700 toneladas há uma etapa “que começa muito antes do içamento: a fundação”.

Foram cerca de 2.000 m³ de concreto, informa a Milplan. A fundação levou chumbadores de mais de 2 metros de altura e “uma série de controles dimensionais e topográficos”.

O que a Milplan mostrou sobre o moinho de bolas

A publicação saiu com a marca #TBT, sigla usada nas redes para relembrar um momento passado. O título do carrossel é “Moinho de bolas: da fundação à operação”.

Equipe acompanha o içamento do moinho ao lado da base de concreto.
Equipe acompanha o içamento do moinho ao lado da base de concreto. Foto: Divulgação/Milplan Engenharia

São oito imagens que vão da escavação ao circuito pronto. A Milplan mostra os números e as fotos da montagem, mas não cita o cliente nem a cidade da obra no post.

Onde fica a obra: o cruzamento com Tucumã, no Pará

Os números do carrossel batem com uma obra conhecida da empresa. Em setembro de 2023, a Reta Engenharia relatou no LinkedIn que ela e a Milplan formavam o Consórcio Boa Esperança, responsável por obras do projeto de cobre da Ero Copper no município de Tucumã, no sul do Pará.

Esse projeto, hoje chamado de Tucumã, tem usina de beneficiamento com capacidade de 4 milhões de toneladas por ano, com moinho de bolas no circuito de moagem. É a mesma capacidade citada pela Milplan. A mina fica a cerca de 40 km da cidade de Tucumã.

A ligação é um cruzamento feito pela redação com base nesses dados públicos. A Milplan não confirmou no post que as fotos são de Tucumã.

Um dos últimos quadros resume a ordem dos trabalhos: concreto, topografia, chumbadores, estruturas, equipamentos e montagem. Depois disso, segundo a empresa, o moinho entra em comissionamento, a fase de testes antes da operação.

Pelo texto da Milplan, a obra somou mais de 1.700 toneladas entre estruturas, tubulações e equipamentos. O circuito foi projetado para processar 4,0 milhões de toneladas de minério por ano.

Como funciona um moinho de bolas por dentro

Um moinho de bolas é um tambor de aço deitado que gira em torno do próprio eixo. Dentro dele vão minério britado, água e uma carga de bolas de aço.

Com o giro, as bolas sobem pela parede e caem sobre o minério. O impacto repetido e o atrito reduzem a rocha a partículas finas.

É por isso que o moinho de bolas não é um peso parado. A massa de bolas e minério se move o tempo todo e empurra a estrutura em ciclos.

Esse ponto aparece em destaque no texto da empresa. Em moinhos de bolas, afirma a empresa, “fundação, alinhamento e estabilidade não são detalhes isolados”.

O motivo, segundo a Milplan, é que o equipamento “opera submetido a cargas elevadas e efeitos dinâmicos”. Uma fundação fraca vira vibração, desgaste e parada.

Por que 700 toneladas pedem 2.000 m³ de concreto

A conta a seguir é da redação. O concreto armado pesa de 2,4 a 2,5 toneladas por metro cúbico.

Escavação e blocos de fundação na fase civil da obra.
Escavação e blocos de fundação na fase civil da obra. Foto: Divulgação/Milplan Engenharia

Por essa conta da redação, 2.000 m³ de concreto equivalem a algo entre 4.800 e 5.000 toneladas. É cerca de sete vezes o peso do moinho.

Ou seja, segundo esse cálculo, o moinho de bolas de 700 toneladas fica sobre um bloco muitas vezes mais pesado do que ele.

Engenheiros tratam esse tipo de máquina como equipamento de carga dinâmica. O American Concrete Institute (ACI) mantém um relatório só sobre isso: o ACI PRC-351.3-18, “Report on Foundations for Dynamic Equipment”.

O sumário do relatório mostra o que entra no cálculo da fundação. Estão lá as cargas estáticas, as cargas dinâmicas, a resposta do solo e a análise de frequência.

O documento do ACI também trata da ancoragem da máquina e do graute. O graute é a argamassa que preenche o espaço entre o equipamento e o concreto.

Por isso o relatório do ACI põe a massa e a rigidez da base no centro do cálculo. O resultado real depende do solo, da rotação e do equipamento.

Vibração: o inimigo que não aparece na foto

Toda estrutura tem frequências em que vibra com mais facilidade. Se a máquina girar perto delas, a vibração cresce a cada volta. Esse efeito tem nome: ressonância.

O relatório do ACI dedica capítulos à análise de frequência e à resposta forçada da fundação. A meta do projeto é afastar a frequência da base da frequência de operação.

Num moinho de bolas, que gira dia e noite, vibração demais desgasta mancais e tira o tambor do alinhamento. Para a Milplan, fundação e alinhamento são “parte importante da confiabilidade do conjunto”.

Chumbadores de mais de 2 metros e tolerância milimétrica

Os chumbadores são barras de aço que prendem o equipamento à fundação. Ficam enterrados no concreto, com a ponta rosqueada para fora.

No carrossel, a Milplan diz que os chumbadores tinham “mais de 2 metros de altura”. Segundo a empresa, foram “posicionados e controlados dentro das tolerâncias de projeto”.

Outro quadro do carrossel resume a exigência em cinco palavras: “2.000 m³ de concreto, tolerância milimétrica”. A empresa chama essa etapa de uma das de “maior criticidade para a montagem”.

O motivo é a ordem da obra. Os chumbadores são posicionados antes da concretagem. Depois que o concreto endurece, uma barra fora do lugar não se move com facilidade.

É por isso que a Milplan chama essa fase de crítica para a montagem: a furação da base do moinho de bolas precisa bater com os chumbadores. A meta, nas palavras da empresa, é o equipamento entrar “sem retrabalho desnecessário”.

Topografia pensada para a montagem do moinho de bolas

Uma frase do carrossel resume o que a empresa quis mostrar: “O controle topográfico é feito pensando na montagem, não só na liberação da concretagem”.

Em muitas obras, a topografia confere as formas e libera o lançamento do concreto. Só depois a montadora chega com o equipamento.

Na obra do moinho, a empresa afirma ter feito diferente: medir cada etapa já pensando no encaixe do moinho. Num tambor que gira, o alinhamento dos apoios decide se ele roda redondo.

Um contrato ou dois: a briga que a empresa diz ter evitado

O centro do argumento da Milplan é contratual. Em obras industriais, é comum uma empresa fazer a parte civil e outra fazer a montagem eletromecânica.

Moinho montado sobre a estrutura, com a montagem eletromecânica em andamento.
Moinho montado sobre a estrutura, com a montagem eletromecânica em andamento. Foto: Divulgação/Milplan Engenharia

A parte civil inclui escavação, concreto e chumbadores. A montagem cuida de estruturas, tubulações e equipamentos.

O encontro das duas é o que a empresa chama de interface. Com as disciplinas “sob a mesma gestão”, diz a empresa, a interface deixa de ser “uma fronteira entre escopos”.

No carrossel, a empresa lista o que muda na prática. As áreas de trabalho são compatibilizadas e os acessos são planejados em conjunto.

Os guindastes e demais equipamentos de içamento, segundo a Milplan, passam a atender as duas disciplinas ao mesmo tempo.

O texto fecha com a meta: “fazer o equipamento entrar corretamente, no prazo e sem retrabalho desnecessário”. É a visão da própria empresa sobre o modelo que ela vende, sem medição independente.

O tamanho do circuito: 4 milhões de toneladas por ano

O moinho de bolas é uma peça de um circuito maior. Segundo a Milplan, a obra teve mais de 1.700 toneladas de estruturas, tubulações e equipamentos em volta dele.

Circuito de moagem concluído, projetado para 4,0 milhões de toneladas de minério por ano.
Circuito de moagem concluído, projetado para 4,0 milhões de toneladas de minério por ano. Foto: Divulgação/Milplan Engenharia

A capacidade de 4,0 milhões de toneladas por ano ajuda a medir a escala. Pela conta da redação, isso dá perto de 11 mil toneladas por dia, se o circuito rodasse todos os dias.

Quem quer entender como funciona a mineração, da pesquisa no subsolo à usina, encontra a moagem nesse ponto. É ela que transforma a rocha britada em pó fino para separar o mineral.

Quem é a empresa por trás da obra

A Milplan Engenharia foi fundada em 1982 e atua em obras industriais e montagem eletromecânica. Segundo o site da empresa, a sede fica em Belo Horizonte (MG), numa área de 22.000 m².

A Milplan informa gerar 4.000 empregos diretos em 15 canteiros de obras pelo país. No site, lista certificações ISO 9001, ISO 14001 e ISO 45001.

Para quem acompanha os projetos de mineração no Brasil, a Milplan aparece como montadora, não como dona da mina. Ela executa a obra para o cliente que vai operar a usina.

No caso do moinho de 700 toneladas, a mensagem da empresa é que a parte mais importante foi feita antes da chegada da máquina: uma fundação calculada, medida e conferida para que o gigante gire sem sair do lugar.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Tags
Bruno Teles

Falo sobre tecnologia, inovação, petróleo e gás. Atualizo diariamente sobre oportunidades no mercado brasileiro. Com mais de 7.000 artigos publicados nos sites CPG, Naval Porto Estaleiro, Mineração Brasil e Obras Construção Civil. Sugestão de pauta? Manda no brunotelesredator@gmail.com

Compartilhar em aplicativos
Baixar aplicativo
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x