Hospital feito em fábrica, programa federal de 10 mil escolas e plano paulista de 15 mil moradias foram apresentados numa feira de construção industrializada em São Paulo como casos de obras públicas. No imposto, advogados apontam um risco para o setor.
Uma enfermaria de 100 leitos saiu de uma fábrica em Santa Catarina e ficou pronta em São Paulo em 33 dias, durante a pandemia. O caso foi apresentado em 29 de setembro no Modern Construction Show, feira de construção industrializada que vai de 29 de setembro a 1º de outubro de 2026, no Distrito Anhembi, em São Paulo.
A feira está na segunda edição. Segundo a organização, a proposta é aproximar indústria, empresas, profissionais, contratantes e poder público para discutir novas formas de projetar, produzir e executar obras.
Nos painéis de construção industrializada, a enfermaria dividiu espaço com um programa federal de 10 mil escolas e um plano paulista de 15 mil moradias. E com um alerta de advogados tributaristas sobre a reforma tributária.
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A enfermaria de 100 leitos feita longe do hospital
O caso foi apresentado no painel sobre obras públicas por Fernando Mariano, assessor técnico da Secretaria Municipal da Saúde de São Paulo. Segundo o boletim do evento, trata-se de uma enfermaria permanente no Hospital Municipal M’Boi Mirim.

A estrutura foi produzida em sistema modular off-site, ou seja, fora do canteiro, durante a pandemia. A fábrica fica em Tubarão (SC), segundo o boletim.
A obra tem 1.388 m² e foi concluída em 33 dias, informa o texto. O investimento foi de R$ 3,5 milhões.
A conta a seguir é da redação. Os números do boletim dão cerca de 42 m² entregues por dia de obra.
Pela mesma conta, o custo ficou perto de R$ 2.520 por metro quadrado. O boletim não detalha o que entrou nesse valor, como equipamentos ou instalações.
10 mil escolas e as obras paradas no meio do caminho
Na educação, a meta apresentada veio do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE). Marcio Augusto Buzar, diretor de Gestão, Articulação e Projetos Educacionais do FNDE, afirmou que o programa de infraestrutura escolar prevê 10 mil escolas e creches, segundo o Modern Construction Show.
A lista inclui unidades indígenas e ribeirinhas, de acordo com o boletim. Desde janeiro de 2023, disse Buzar, cerca de 3 mil unidades foram entregues.
O diretor também citou a repactuação de obras públicas abandonadas. Pelos números dele, são 3.784 obras nessa situação, das quais 2.600 foram repactuadas e 976 foram entregues.
Para Marcos Monteiro, secretário municipal de Infraestrutura Urbana e Obras de São Paulo, os exemplos mostram que a industrialização serve a diferentes tipos de obras públicas e ajuda a enfrentar prazos.
Casa Paulista: 15 mil moradias e prioridade para método rápido
Na habitação, quem falou foi Maria Teresa Diniz, diretora de Projetos e Programas da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU). Ela apresentou o programa Casa Paulista.
Segundo o boletim, o programa reúne R$ 2,85 bilhões para 15 mil moradias. Há ainda cerca de 100 mil m² de edifícios de uso institucional e público.
O primeiro pacote tem 959 unidades e está em fase de contratação definitiva, informou a diretora da CDHU no painel. A diretora afirmou que ele prioriza métodos construtivos rápidos e industrializados.
Pela conta da redação, R$ 2,85 bilhões divididos por 15 mil moradias dão perto de R$ 190 mil por unidade. O valor é só uma média: o programa também inclui os edifícios públicos.
A conta da construção industrializada: num caso, mais cara no início e empate no fim
O preço é a primeira dúvida de quem ouve falar em obra feita em fábrica, inclusive em obras públicas. Um dos painéis dos Seminários AsBEA-SP na feira tratou exatamente disso, segundo o boletim do evento.

Roberto Clara, diretor de Engenharia do Grupo Lucio, apresentou o caso de um estacionamento. Segundo ele, a solução em construção industrializada foi estimada no início em 15% acima da convencional.
Ao final, afirmou Clara, os ganhos durante a execução equilibraram o custo das duas alternativas. “O custo depende da obra, mas também do tamanho da empresa, e sofre interferência do custo de canteiro e escritórios”, disse o diretor.
Para ele, a construtora também precisa mudar a forma de vender. “A construtora precisa saber vender a construção industrializada para o cliente”, afirmou.
Adriana Nunes Machado, superintendente da HTB, citou o edifício comercial eWood, feito com madeira engenheirada. Segundo ela, a industrialização precisa entrar já na etapa de projeto para render resultado.
Reforma tributária: o detalhe de 50% que preocupa as fábricas
Na feira, o alerta tributário veio de advogados. O painel sobre a reforma tributária tratou da chegada do IBS e da CBS e da troca do ICMS e do ISS pelo IBS.
A advogada Victoria Slaviero afirmou que, com a reforma tributária, a tributação estimada na execução de obras com prestação de serviços pode chegar a 13,96%. A conta considera a alíquota de referência e os redutores previstos, explicou.
O ponto sensível está na divisão entre fábrica e montagem. Pedro Anan Junior, advogado tributarista, resumiu o dilema citado no painel.
“Se a fábrica fornece o produto e também realiza a montagem, a operação pode contar com redução de 50% da alíquota”, afirmou Anan. “Se uma empresa fabrica e fornece e outra executa a montagem, a tributação pode ser integral.”
O advogado disse que há entidades do setor mobilizadas para buscar ajustes. A transição da reforma tributária vai até 2033, de acordo com o boletim.
Na prática, a regra pode influenciar o modelo de negócio, avaliam os advogados. Empresas terão de decidir se fabricam e montam, se terceirizam ou se combinam os dois formatos.
Por que o setor diz que não tem volta: a falta de mão de obra
A falta de mão de obra apareceu na abertura da feira e no debate sobre os desafios das construtoras. “A mão de obra não será reposta, daí a importância da industrialização”, disse Marcos Sarge, diretor executivo do Grupo Kallas, segundo o boletim do segundo dia.

Na abertura, Cezar Valmor Mortari, vice-presidente da região Centro-Oeste da Câmara Brasileira da Indústria da Construção (CBIC), foi na mesma linha. “A escassez de mão de obra e a falta de engenheiros convergem para a industrialização da construção”, afirmou.
Para Sarge, padronização e repetição ajudam a reduzir o custo da construção industrializada. Mas a decisão, disse ele, depende também da localização da obra, do entorno e da área disponível para estoque.
A construtora Rocontec mostrou como reorganizou a logística do canteiro, segundo o boletim. Em uma obra, trocou 22 viagens semanais de material ensacado por uma operação noturna para carregar um silo.
O que é construção industrializada, afinal
Construção industrializada é a obra em que boa parte das peças sai pronta de uma fábrica e chega ao canteiro para ser montada. Entram aí o concreto pré-moldado, as estruturas de aço, o light steel frame e a madeira engenheirada.
Na abertura do evento, Marcos Monteiro defendeu a mistura dos sistemas. “Não existe o melhor processo construtivo”, afirmou o secretário. Segundo ele, o hibridismo permite combinar os processos mais adequados a cada situação.
Íria Doniak, presidente executiva da Associação Brasileira da Construção Industrializada de Concreto (Abcic), disse que a produtividade passou a ocupar o centro das decisões das empresas.
A formação de mão de obra também entrou na pauta. Segundo o boletim, o Senai-SP destaca na feira um curso de 80 horas de montagem de light steel frame engenheirado, oferecido no Senai Tatuapé.
Retrofit: reformar pode custar de 40% a 60% menos que demolir e reconstruir
Outro número chamou atenção no Construmetal Pocket, encontro da Associação Brasileira da Construção Metálica (ABCEM) dentro da feira. O engenheiro Enrico Mangoni, do Studio Mangoni, falou sobre retrofit.
Mangoni afirmou que o retrofit pode reduzir em média de 40% a 60% o custo de construção, na comparação com demolir e reconstruir. A redução de emissões de CO₂ pode ficar entre 50% e 75%, pelos dados apresentados por ele, segundo o Modern Construction Show.
“Os benefícios de um retrofit variam de acordo com cada intervenção”, ressalvou o engenheiro. Para ele, sistemas de construção industrializada podem se combinar com a estrutura existente e tornar a reforma mais eficiente.
O Modern Construction Show segue até 1º de outubro no Distrito Anhembi. Para os advogados do painel tributário, a divisão entre quem fabrica e quem monta ainda depende de ajustes, e há entidades do setor mobilizadas para buscá-los.
