Relato histórico reconstruído por Ursula B. Marvin descreve uma bola de fogo antes do impacto, a circulação de folhetos impressos e a transformação da pedra em objeto religioso, político e, séculos depois, científico, com cerca de 56 quilos ainda preservados em Ensisheim.
O meteorito de Ensisheim atravessou mais de cinco séculos apesar de ter começado a ser despedaçado logo depois de chegar ao solo. A preservação de uma parte significativa da rocha permitiu que o objeto permanecesse ligado à cidade enquanto outros fragmentos seguiram para coleções científicas.
A reconstrução histórica do episódio foi feita pela pesquisadora Ursula B. Marvin, do Harvard-Smithsonian Center for Astrophysics e da Universidade Harvard. No estudo publicado na revista Meteoritics, ela descreveu a trajetória da pedra desde a queda até sua preservação nos séculos seguintes.
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O meteorito caiu em 7 de novembro de 1492 em um campo de trigo nos arredores de Ensisheim, na Alsácia, região que hoje integra a França. Antes do impacto, uma bola de fogo cruzou o céu e foi seguida por uma forte explosão.
O estudo registra que o som teria sido percebido a cerca de 150 quilômetros de distância, na região do Alto Reno. Um jovem que estava nas proximidades testemunhou a queda, e a pedra abriu no campo um buraco de aproximadamente um metro de profundidade.
A retirada de pedaços começou no campo
Quando a notícia se espalhou, moradores foram até o local e retiraram o meteorito da cavidade provocada pelo impacto. A multidão começou então a quebrar a pedra, levando fragmentos como lembrança.
A retirada ameaçava desmembrar a rocha poucas horas depois de sua chegada ao solo. Marvin registra que um magistrado presente em Ensisheim interveio, proibiu que novos pedaços fossem arrancados e determinou que o restante do meteorito fosse transportado para dentro da cidade.
A movimentação ocorreu quando Maximiliano, então rei dos Romanos e filho do imperador Frederico III, do Sacro Império Romano-Germânico, aproximava-se da região acompanhado de seu exército, em um período de conflitos com os franceses.
A pedra foi apresentada ao monarca em uma época na qual meteoritos ainda não eram compreendidos cientificamente como objetos extraterrestres. Fenômenos incomuns no céu podiam receber interpretações religiosas e políticas, e o episódio de Ensisheim foi associado aos acontecimentos militares daquele período.
Maximiliano interpretou a queda como um sinal de favor divino e ordenou que o meteorito fosse preservado na igreja paroquial de Ensisheim. A medida manteve sob proteção a massa que havia escapado da retirada inicial feita pelos moradores.
O episódio ultrapassou os limites da cidade. Poucas semanas depois, folhetos impressos em latim e alemão circulavam pela região relatando a queda e ampliando a repercussão de um acontecimento ocorrido em um campo de trigo.
O poeta e escritor Sebastian Brant associou o fenômeno à situação política de Maximiliano e utilizou a pedra como elemento de propaganda favorável às campanhas do monarca. A vitória posterior do rei contra os franceses reforçou entre contemporâneos a interpretação do meteorito como um presságio favorável.
Relatos sobre Ensisheim continuaram aparecendo em livros e crônicas nos anos seguintes, algumas vezes com versões que ampliavam ou alteravam aspectos da narrativa original. A pedra, porém, permaneceu fisicamente preservada enquanto o entendimento científico sobre meteoritos mudava nos séculos seguintes.
Da igreja às coleções científicas
A trajetória do meteorito também acompanhou mudanças políticas ocorridas muito depois da queda. Marvin relata que a pedra permaneceu na igreja até ser transferida, durante o período da Revolução Francesa, para um museu em Colmar.
Partes da rocha foram retiradas para análises químicas durante o desenvolvimento inicial dos estudos científicos sobre meteoritos. Em 1803, a massa principal retornou a Ensisheim e continuou preservada mesmo depois da destruição, no século 19, da igreja que a havia abrigado.
A classificação científica moderna identifica Ensisheim como um condrito ordinário do grupo LL6. Condritos são meteoritos rochosos constituídos por materiais antigos do Sistema Solar e fornecem amostras utilizadas para investigar a composição e a história dos corpos envolvidos na formação planetária.
Quando Marvin publicou seu estudo, em 1992, registrou que um espécime de aproximadamente 56 quilos permanecia preservado em Ensisheim. O peso representa uma parte considerável dos cerca de 127 quilos atribuídos ao meteorito antes das perdas acumuladas desde a queda.
Os pedaços separados da massa principal tiveram destinos diferentes ao longo dos séculos. O American Museum of Natural History inclui Ensisheim entre seus meteoritos históricos e registra que fragmentos da pedra passaram a integrar coleções de museus.
A massa de aproximadamente 56 quilos registrada por Marvin continuava em Ensisheim cinco séculos depois da queda, enquanto partes menores do mesmo meteorito já estavam distribuídas por outras coleções. O objeto que moradores começaram a dividir no campo acabou, assim, preservado em mais de um lugar.

