Em vários países, arquitetos, institutos e empresas apresentaram cidades flutuantes com módulos para milhares de pessoas no mundo enfrentarem a elevação do nível do mar, provocando um choque de realidade sobre custo, governança e para quem esse futuro no oceano realmente serve.
Nos últimos anos, propostas de cidades flutuantes começaram a aparecer em vários lugares do mundo, sempre vendidas como solução para a elevação do nível do mar, que, segundo estimativas citadas, deve afetar cerca de 40 mil pessoas.
A promessa parece perfeita: uma cidade de alta tecnologia, autossustentável, onde “todo dia é dia de praia”, tudo o que se come e se bebe é reciclado e, só de morar ali, a pessoa estaria “salvando o planeta”.
Só que a pergunta que derruba o encanto é bem simples. E se essa ideia for ruim na vida real? E se o objetivo não for exatamente abrigar quem precisa, mas vender um estilo de vida caro com cara de solução climática?
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Triton City nasceu nos anos 1960 com módulos para 6.500 pessoas, mas morreu por tecnologia inexistente e custo inviável
Um dos primeiros conceitos realmente completos de cidade flutuante foi a Triton City, criada nos anos 1960 pelo arquiteto Buckminster Fuller.
O plano era montar plataformas tetraédricas ancoradas no fundo do mar, com tecnologias e serviços sociais para formar uma comunidade totalmente auto sustentável. Apartamentos e escritórios entrariam como módulos pré-fabricados encaixados na estrutura.
Cada plataforma poderia abrigar até 6.500 pessoas e novas plataformas seriam adicionadas conforme a população crescesse. Só que o projeto perdeu o fôlego quando o principal investidor morreu. Depois, chegou a ser considerado pelo governo dos Estados Unidos, mas acabou soterrado pela burocracia.
O motivo do fracasso foi direto: era futurista demais para a época e dependia de tecnologias que não existiam. Além disso, a proposta apostava em uma megaestrutura única, com estrutura caríssima. E o esquema de módulos entrando e saindo exigia tanto dinheiro e planejamento que não se mostrou viável.
Sessenta anos depois, projetos atuais repetem o padrão, muita gente no papel e pouca viabilidade no caixa
Avançando cerca de 60 anos, a crise climática virou pano de fundo e a vitrine continua parecida, mas os obstáculos também.
A Dogen City é apresentada como cidade flutuante para 40.000 pessoas, usando um “anel” de habitação em formato de navio para proteger a parte interna contra correntes e tsunamis dentro de uma baía. Os edifícios seriam flexíveis, rearranjados. Mesmo assim, o fundador considera mudar totalmente o rumo para turismo médico, porque o projeto não é lucrativo.
A lista de conceitos chamativos não para aí. O Pangeos é uma cidade móvel em formato de tartaruga para 60.000 pessoas, com custo estimado em US$ 1.000.000.000, e soa mais como cruzeiro de luxo do que como cidade.
A Lilypad chamou atenção em 2011, mas nunca saiu do estágio conceitual.
E existe a Oxagon, mega cidade ligada ao projeto Neom, estimada em US$ 1 trilhão. Essa pode acontecer justamente porque tem financiamento concentrado em um único regime autoritário, que consegue empurrar o projeto e esmagar resistências.
A consequência aparece como padrão: muitos desses projetos exigem investimento inicial gigantesco vindo de bilionários ou governos autocráticos bem financiados.
A pergunta que surge é inevitável: e se, em vez de uma megaestrutura única, o caminho fosse um conjunto de módulos menores?
Maldivas apostam em módulos e tecnologia testada, com entrega prevista para 2027, mas o longo prazo vira dúvida
Nas Maldivas, a proposta ganha um ar mais viável porque foge da megaestrutura única. A Maldives Floating City seria um conjunto de unidades individuais, usando tecnologia já testada na Holanda com casas flutuantes em menor escala. O plano é concluir a cidade até 2027.
Os prédios seriam ancorados no fundo do mar e isso criaria recifes artificiais que ajudam a estimular o crescimento de corais. A ideia urbana gira em torno de uma comunidade de barcos, com canais como infraestrutura e circulação priorizando caminhada e bicicleta.
Ao invés de construir uma estrutura gigante para enfrentar o mar aberto, a proposta usa uma lagoa natural como barreira protetora, criando um ambiente mais controlado. Como a água da lagoa tende a ser mais quente e rasa, ela se encaixa no estilo de vida maldivo.
O projeto também prevê pontos de atracação e parte da infraestrutura necessária para uma cidade de 20.000 pessoas. E há muitas lagoas parecidas na região, o que levanta a possibilidade de multiplicação do modelo.
Maldivas podem deixar de existir até o fim deste século, com cerca de 80% da área terrestre a menos de 1 metro acima do nível do mar
Se a tendência de elevação do mar não for revertida, as Maldivas podem deixar de existir até o fim deste século. O país é descrito como a região mais baixa do mundo, com cerca de 80% da área terrestre a menos de 1 metro acima do nível do mar.
A cidade flutuante está ancorada, então não sairia “boiando” para longe. Mas o funcionamento e a sensação mudariam muito sem a proteção do entorno.
A dúvida vira um gancho pesado: será que foi pensada para o longo prazo? Se não, ainda dá para chamar isso de cidade?
O preço adiciona outra camada. Um dos imóveis é estimado em cerca de US$ 250.000, bem acima do que um maldivo médio poderia pagar. E o site do projeto destaca a possibilidade de obter permissão de residência ao comprar uma casa.
Isso abre a porta para um cenário em que as unidades virem casas de férias para estrangeiros, com clima de condomínio fechado, mesmo com o slogan dizendo que a proposta transformaria maldivos de refugiados climáticos em inovadores climáticos.
Seasteading Institute, 200 milhas náuticas e a ideia de escapar de regras deixam o “objetivo real” mais claro
A popularização do tema também passa pelo Seasteading Institute, que divulga “imperativos morais” como alimentar famintos, enriquecer pobres e curar doentes.
Os fundadores escreveram um livro defendendo comunidades independentes e auto sustentáveis no oceano e receberam investimento inicial de Peter Thiel, fundador do PayPal.
A base conceitual citada vem da Convenção da ONU sobre o Direito do Mar: a zona econômica exclusiva de um país se estende 200 milhas náuticas a partir da costa, e além disso não estaria sujeita às leis ou regulações de Estados soberanos, segundo a explicação apresentada.
A promessa é de estruturas de governo privatizadas, competitivas e escolhidas pelas pessoas. Só que, olhando os projetos, fica difícil enxergar como isso alimentaria famintos ou enriqueceria pobres. Muitos planos são caros, incompletos e não se sustentam sozinhos.
Alguns exigem que as pessoas vivam em seus próprios barcos para criar senso de comunidade antes de construir.
Outro entrave é prático: não há empregos nem economia nesses locais, então a pessoa precisaria trabalhar remotamente ou trabalhar em áreas próximas.
O caso que chegou mais perto de acontecer foi na Polinésia Francesa, em lagoas, com parceria do governo local para criar zonas independentes.
Mas houve forte rejeição dos moradores, preocupados com o impacto ambiental de uma zona sem impostos e sem regulação. O projeto acabou morrendo.
No fim, a ideia de cidade flutuante passa a parecer menos “salvar o planeta” e mais “viver fora das regras” e, possivelmente, fora de impostos.
Oceanix em Busan promete cidade para 10.000, resistência a furacões categoria 5 e módulos caros demais para a realidade dos refugiados climáticos
Em Busan, na Coreia do Sul, existe um plano de protótipo para uma cidade flutuante de 10.000 pessoas. Ela seria parte de uma grande exposição, mas após filmagens feitas em outubro de 2023, a Coreia do Sul perdeu a candidatura, e a sede foi para a Arábia Saudita.
Ainda assim, foi dito que os investimentos seguiriam e o país pode tentar a exposição de 2035, então o projeto pode acontecer ali ou em outro local.
A cidade foi desenvolvida pela Oceanix, tem apoio da ONU e é baseada em módulos que podem crescer de um bairro para uma cidade de 10.000 e, segundo a proposta, escalar indefinidamente.
A meta é emissão líquida zero e ciclo fechado. Aqui existe preocupação com empregos, escolas e com o que faz uma sociedade funcionar.
As plataformas seriam ancoradas a um recife artificial feito de bio rock, descrito como um concreto resistente formado debaixo d’água. Mesmo sem barreiras, o projeto afirma resistir a furacões categoria 5 e tsunamis.
Os prédios teriam 4 a 7 andares, com ruas e becos mais íntimos gerados por um desenho hexagonal, com comércio e lugares para comer, tudo pensado para caminhar e pedalar. A promessa é cruzar o conjunto de ponta a ponta em 10 minutos de bicicleta.
Antes, o plano era construir três módulos: hospitalidade, pesquisa e moradia. Mas há diferenças entre a ideia original e os protótipos.
A escala ficou mais densa e, embora seja resiliente e sustentável, não seria auto sustentável. Isso aparece como um problema estrutural: uma cidade auto sustentável depende de equilíbrio entre tecnologia, produção de alimentos e sistemas sociais, políticos e econômicos funcionando como um ecossistema, algo muito mais complexo do que diagramas sugerem.
E tem a conta. Segundo a Oceanix, cada plataforma custaria entre US$ 150 milhões e US$ 200 milhões, e com tecnologias novas e manutenção, isso pode subir. Ou seja, ainda depende de grandes investidores privados.
A contradição bate quando o público alvo citado são milhões de refugiados climáticos, muitos em países em desenvolvimento, o que não parece um investimento naturalmente lucrativo.
No fim, a mensagem é clara: cidades flutuantes parecem atacar tudo ao mesmo tempo, tecnologia, estilo de vida aquático, auto suficiência e modelos de governo, e isso vira parte do problema. A tentação é tratar como solução brilhante e simples para um desafio gigantesco como a crise climática, mas esse atalho mental pode esconder consequências complexas e de longo prazo.
Mas e aí, se fosse para apostar hoje, essa ideia está mais perto de um futuro inevitável ou de uma fantasia escapista bem embalada? Conte-nos a sua opinião.


A águ seja ” doce”, salobra ou salgada, deve ser respeitada. Segundo a PALAVRA Adão e Eva foram criados n terra.
O idealizador do protótipo para morada sobre âgua, 9
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