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População em risco: maior barragem hidroelétrica da África, com 1.780 M e 5.150 MW, vira foco de alertas: estudo projeta inundações devastadoras, riscos sísmicos e tensão hídrica no Nilo Azul

Publicado em 15/02/2026 às 11:19
Atualizado em 15/02/2026 às 11:21
Barragem, África, Nilo
Imagem: Ilustração artística feita por IA
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A megaestrutura africana simboliza ambição energética e soberania nacional, mas provoca debates sobre riscos estruturais, apagões persistentes, biodiversidade ameaçada e cobranças por maior cooperação, planejamento, confiança e transparência entre países

Em janeiro deste ano, o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ofereceu-se para mediar as divergências entre Egito e Etiópia em torno das águas do Rio Nilo. O gesto reacendeu os holofotes sobre um impasse que se arrasta há mais de uma década e que ganhou novos contornos após a inauguração oficial da barragem em 9 de setembro de 2025.

Desde então, o tema deixou os gabinetes diplomáticos e passou a mobilizar especialistas, autoridades e populações diretamente afetadas, em meio a expectativas e apreensões.

Dimensões grandiosas, inquietações equivalentes

Com 1.780 metros de comprimento e capacidade de 5.150 megawatts, a maior barragem hidroelétrica da África em termos de capacidade consolidou-se como um feito de engenharia e um símbolo político de peso.

O empreendimento, estimado em 5 bilhões de dólares, foi financiado majoritariamente por etíopes e pelo governo, além de empréstimos e investimentos chineses.

Ao mesmo tempo em que impressiona pelas cifras e proporções, o projeto desperta questionamentos sobre segurança estrutural, gestão das águas e impactos ao longo do Nilo Azul.

O temor de uma falha catastrófica

Um estudo conjunto conduzido por pesquisadores de universidades do Egito, da Eslováquia e da Polônia modelou cenários de inundação em caso de colapso estrutural massivo.

As projeções indicam consequências severas: Cartum poderia transformar-se em lagos em cerca de 10 dias, com profundidade superior a 11 metros em áreas residenciais.

As ondas de cheia ainda transbordariam barragens sudanesas, com elevações estimadas em 11, 7 e 20 metros em Roseires, Sennar e Merowe, respectivamente.

No Egito, o nível do Lago Nasser alcançaria 188 metros acima do nível do mar, colocando a Barragem Alta de Aswan em grande perigo.

Os autores também destacaram que a barragem está localizada no coração do Vale do Rift, zona propensa a terremotos.

Entre as recomendações, aparecem a elaboração de um plano de emergência e estratégias de mitigação de desastres.

Embora o cenário seja hipotético, ele reforçou debates sobre protocolos de segurança, transparência técnica e cooperação regional.

Comunidades entre esperança e ansiedade

Nas áreas próximas ao empreendimento, o sentimento é ambivalente. Grandes reservatórios costumam alterar dinâmicas locais, afetando desde o uso da terra até a disponibilidade de recursos naturais.

Especialistas alertam que mudanças nos sistemas hídricos podem impactar a biodiversidade e modos de vida, especialmente quando avaliações ambientais e sociais não são amplamente divulgadas.

Durante a apuração, a Mongabay relatou não ter encontrado online uma avaliação oficial de impacto ambiental e social do projeto GERD.

A ausência do documento e a falta de resposta do Ministério da Água e Energia da Etiópia ampliaram críticas sobre transparência.

Um estudo de 2015 do Instituto Internacional de Sustentabilidade, no Egito, descreveu impactos potenciais ligados à criação de reservatórios, incluindo diminuição da biodiversidade e efeitos sobre espécies ameaçadas.

Energia prometida, realidade intermitente

Relatos vindos de Adis Abeba indicam que os cortes de energia persistem. Em uma única semana, moradores afirmaram ter enfrentado dois ou três apagões, com duração média de duas a três horas.

O quadro levanta dúvidas sobre o ritmo de integração da eletricidade gerada à rede doméstica, sobretudo em um país onde 56% da população ainda não tem acesso à eletricidade básica, segundo o Banco Mundial.

Mais de 92% dos domicílios dependem de biomassa para cozinhar, cenário associado a riscos à saúde e à conservação florestal.

Críticos questionam se a prioridade dada à exportação de energia pode adiar benefícios internos. O governo etíope sustenta que as divisas obtidas com vendas externas poderão financiar a expansão das linhas de transmissão e ampliar o acesso.

Celebrada como emblema de soberania e ambição continental, a barragem também enfrenta ceticismo.

Analistas apontam que megaprojetos podem carregar lacunas na avaliação ambiental, riscos institucionais e desafios de governança.

Para países a jusante, a preocupação central permanece sendo a segurança hídrica. Para milhões de etíopes, segue viva a expectativa de que a obra grandiosa se converta em estabilidade energética e desenvolvimento local, sem que comunidades vizinhas arquem com um custo alto demais.

Com informações de Mongabay.

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Romário Pereira de Carvalho

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