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Linhas de energia que “cortam” a natureza viram rodovias de insetos na Suíça após motosserras deixarem 15 hectares vazios sob os cabos; o plano troca terra morta por prado em camadas, abrigos de pedra para doninhas e lagoas para o sapo-parteiro, e pode destravar a maior renaturalização escondida do mundo, com 500 mil hectares só na Europa

Publicado em 07/01/2026 às 19:06
Assista o vídeoNa Suíça, linhas de energia viram rodovia de insetos e modelo de renaturalização que recupera biodiversidade em larga escala e redefine o uso de corredores elétricos.
Na Suíça, linhas de energia viram rodovia de insetos e modelo de renaturalização que recupera biodiversidade em larga escala e redefine o uso de corredores elétricos.
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Na Suíça, motosserras mantêm 15 hectares vazios sob linhas de energia para evitar apagões, mas um plano troca terra morta por prado em camadas. A ideia inclui abrigos de pedra para doninhas e lagoas para o sapo-parteiro. Na Europa, o potencial chega a 500 mil hectares.

As linhas de energia costumam parecer cicatrizes inevitáveis: cabos que cortam florestas, corredores vazios e um zumbido constante onde antes havia vida. Só que, na Suíça, esse espaço obrigatório sob os cabos está sendo redesenhado para virar habitat, conectividade e biodiversidade.

A proposta parte de um dado concreto: uma única linha de energia, do ponto onde o projeto acontece até Basileia, abre cerca de 15 hectares de área desmatada e mantida sem árvores. Em vez de deixar esse chão como terra morta, o plano transforma o corredor em um mosaico de prado, refúgios e água, com foco em insetos, pequenos predadores e anfíbios.

Por que existe terra vazia sob linhas de energia

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As linhas de energia são sensíveis ao contato com árvores. Se a vegetação encostar nos cabos, o risco é real: pode faltar energia, inclusive para uma cidade inteira como Basileia.

Por isso, a manutenção costuma ser brutal e simples: derrubar o que cresce demais, manter o espaço “limpo” e repetir o ciclo.

O resultado desse método é previsível: nenhum animal, pouca ou nenhuma planta útil, baixa biodiversidade.

Fica um corredor aberto que não serve para agricultura, não serve para floresta e quase não serve para a vida, mesmo estando no meio de áreas naturais.

O tamanho do problema e a oportunidade escondida

A rede elétrica do mundo é estimada em cerca de 100 milhões de quilômetros de extensão. E ela tende a crescer, porque a transição energética para “zero líquido” exige produção mais descentralizada, com necessidade de aumentar em 30% o comprimento da rede existente.

Nem toda essa extensão causa o mesmo impacto. Cabos menores ligados às casas existem por toda parte, mas o choque maior aparece nas grandes linhas de transmissão de alta tensão, especialmente quando atravessam florestas e abrem corredores largos e permanentes.

A conta feita para a Europa aponta um potencial impressionante: aproximadamente 500.000 hectares de terra desmatada diretamente abaixo das linhas de energia.

Quem está tocando o plano na Suíça

Na Suíça, a iniciativa é conduzida por uma equipe ligada à Pro Natura, organização ambiental com mais de 100 anos de atuação.

Um dos responsáveis, Thomas, deixou a carreira de estatístico para se dedicar integralmente à proteção da natureza e desenhou um plano em três etapas para converter o corredor vazio em um oásis de biodiversidade.

A lógica é pragmática: já que o corredor precisa existir, então ele pode ser reconfigurado para gerar benefícios ecológicos mensuráveis sem comprometer a segurança das linhas de energia.

Etapa 1: Rodovia de insetos com prado em camadas

A primeira virada é trocar a limpeza total por um “corte de cabelo” planejado: um prado em camadas, com uma transição gradual de vegetação, usando uma mistura diversificada de plantas de pequeno e médio porte.

Isso muda tudo porque, quando a área é raspada e volta a ser ocupada por poucas espécies dominantes, a diversidade de plantas e insetos permanece baixa.

Com o prado em camadas, o corredor sob as linhas de energia deixa de ser um vazio e vira caminho.

O objetivo é criar uma rodovia de insetos que conecte populações que hoje ficam isoladas por cidades, monoculturas e florestas comerciais.

Um exemplo citado no projeto é a borboleta-pavão, ameaçada pela fragmentação populacional. Ao ganhar um corredor longo e biodiverso, ela encontra locais para pouso, alimentação e deslocamento.

E essa conexão não vale só para insetos: ao atuar como polinizadora, a borboleta transporta pólen e conecta também populações de plantas ao longo da faixa.

O projeto recebe apoio financeiro direto para acelerar a escala. A iniciativa mencionada envolve 25.000 euros para ajudar a alcançar uma meta de renaturalizar 30 hectares em um piloto, que deve destravar mais financiamento e servir de modelo replicável.

Etapa 2: Abrigos de pedra para doninhas

A segunda etapa parece simples, mas é estratégica: abrigos de pedra instalados ao longo das linhas de energia, próximos aos pilares.

Eles são pensados como refúgios seguros para doninhas, que ficam muito expostas a predadores em áreas agrícolas abertas.

A função desses abrigos é dupla. Primeiro, oferecer proteção e pontos de descanso.

Segundo, criar uma peça de equilíbrio ecológico: com doninhas presentes, há um componente de controle natural no mosaico do corredor, reforçando a ideia de que o espaço não é “apenas grama”, e sim um habitat funcional.

Etapa 3: Lagoas para anfíbios e o sapo-parteiro

A terceira etapa fecha o ciclo com água: uma rede de lagoas de vida selvagem sob as linhas de energia.

Cada lagoa funciona como um pequeno oásis para anfíbios e répteis se reproduzirem, criarem filhotes ou simplesmente beberem.

O personagem central aqui é o sapo-parteiro, famoso por um comportamento raro: o macho carrega os ovos e os leva até a água.

O desenho do habitat considera isso, combinando a lagoa para reprodução com estruturas de pedra próximas, onde os animais podem se abrigar.

O sapo-parteiro é descrito como ameaçado por uma falta grave de espaços aquáticos na paisagem.

Por isso, criar lagoas conectadas dentro do corredor transforma um trecho antes estéril em uma cadeia de microhabitats, com potencial de impacto para várias espécies além do próprio sapo.

O efeito dominó: por que isso pode virar a maior renaturalização “escondida”

A tese é direta: a terra sob as linhas de energia existe em escala continental, é mantida vazia por necessidade operacional e, hoje, em muitos lugares não entrega quase nada em termos ecológicos.

Ao transformá-la em prado em camadas, refúgio e água, você cria conectividade em longa distância sem “comprar terra” nova e sem deslocar cidades ou agricultura.

Se o piloto for replicado, a soma de corredores pode liberar um salto de biodiversidade que estava escondido à vista de todos, especialmente em regiões com infraestrutura densa como a Europa, onde se estima 500 mil hectares disponíveis abaixo das linhas.

Você acha que as linhas de energia deveriam ser tratadas como cicatrizes inevitáveis ou como uma chance prática de renaturalizar grandes áreas sem disputar espaço com moradia e agricultura?

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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