Uma lembrança guardada por anos levou pesquisadores a uma área pouco conhecida do semiárido baiano, onde diferentes vestígios arqueológicos começaram a revelar pistas sobre ocupações humanas que ainda desafiam a ciência.
Uma lembrança guardada desde um passeio em família acabou levando pesquisadores a um lugar que ainda não aparecia nos registros arqueológicos conhecidos daquela área de Xique-Xique, no norte da Bahia.
O caminho começou com Cassiano Santos da Conceição, de 17 anos, estudante do ensino médio do Instituto Federal Baiano (IF Baiano), que contou a um professor sobre pinturas vistas anos antes perto de um córrego na comunidade do Rumo.
Quando uma equipe decidiu conferir o relato, encontrou mais do que os desenhos mencionados pelo jovem.
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No mesmo espaço apareceram pinturas rupestres, um polidor de pedra e fragmentos de cerâmica pré-colonial, vestígios que ajudam pesquisadores a investigar como diferentes grupos humanos ocuparam o semiárido baiano no passado.
O local recebeu o nome de sítio arqueológico Olhos D’Água e teve seu registro encaminhado e reconhecido no sistema oficial do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), conforme divulgado pelo IF Baiano em agosto de 2026.
A descoberta chama atenção também pela forma como começou: não a partir de uma escavação planejada em uma área já conhecida pela arqueologia, mas da memória de um adolescente que havia visitado o lugar com a família anos antes.
Lembrança de 2020 levou pesquisadores ao sítio Olhos D’Água
Cassiano mora na comunidade do Rumo, onde está localizada a área estudada.
O primeiro contato dele com o lugar ocorreu em 2020, quando foi ao córrego Olhos D’Água acompanhado do pai e de outros familiares.
Na época, aquela visita não fazia parte de uma pesquisa científica.
Anos depois, já como estudante do IF Baiano, Cassiano participou do Projeto Assuruá, iniciativa dedicada à identificação, catalogação e estudo de sítios arqueológicos no território de Irecê e em municípios da região.
Foi nesse ambiente que a lembrança das pinturas voltou à conversa.
O estudante relatou ao professor Romeu Leite, coordenador do projeto, o que tinha visto no córrego.

A informação foi suficiente para despertar o interesse da equipe e motivar uma visita técnica.
A primeira expedição ocorreu em 27 de abril de 2026, segundo informações divulgadas sobre o trabalho do projeto.
Cassiano disse ao g1 que ficou satisfeito por ter contribuído para o reconhecimento do local e por poder mostrar aspectos da própria região que considerava importantes.
O estudante também afirmou que a experiência aumentou seu interesse pela ciência e que pretende ingressar na universidade para cursar Agronomia.
Pinturas rupestres, polidor de pedra e cerâmica foram encontrados
A equipe chegou ao local inicialmente interessada nas pinturas mencionadas pelo aluno.
Durante a visita, porém, os pesquisadores identificaram outros elementos arqueológicos no mesmo ambiente.
Entre eles estavam pinturas rupestres associadas à chamada Tradição São Francisco, além de uma estrutura de pedra utilizada para polimento e, posteriormente, fragmentos de cerâmica.
As pinturas incluem formas humanas, representações de animais e desenhos geométricos.
Parte dos registros estava desgastada pela exposição natural ao longo do tempo, o que exigiu o uso de recursos digitais para realçar vestígios dos pigmentos e facilitar a análise.

A presença dos desenhos é apenas uma das informações fornecidas pelo sítio.
O polidor encontrado pelos pesquisadores consiste em uma área de rocha utilizada no processo de preparação e acabamento de instrumentos de pedra.
Em termos simples, a superfície funcionava como um local onde materiais podiam ser desgastados e moldados até adquirir a forma desejada para determinado uso.
Durante outra passagem pela área, uma trilha diferente levou a equipe até fragmentos de cerâmica, ampliando o conjunto de vestígios documentados.
Segundo os pesquisadores, esse material poderá contribuir para estudos destinados a compreender quais grupos ocuparam a região e como essa ocupação ocorreu.
Nascente de água chama atenção no semiárido de Xique-Xique
O cenário onde os vestígios foram encontrados trouxe outra informação importante para a pesquisa.
Além das formações rochosas, há no local uma nascente de água, característica considerada relevante para entender a ocupação humana da área.
Romeu Leite afirmou que a equipe desconhecia tanto a existência de um sítio arqueológico naquele ponto quanto a presença da nascente naquela serra de baixa altitude.
Segundo o pesquisador, grupos humanos buscavam áreas onde houvesse condições para obter água e alimento.
Ele descreveu o lugar como uma espécie de oásis dentro do semiárido de Xique-Xique, município fortemente associado à paisagem do Vale do São Francisco.
A relação entre água e ocupação humana é uma das razões pelas quais cursos d’água, abrigos rochosos e áreas próximas ao Rio São Francisco aparecem com frequência em pesquisas arqueológicas realizadas no Nordeste.
O próprio Iphan já destacou que a bacia do São Francisco concentra grande quantidade de bens arqueológicos e registra ocupações humanas de milhares de anos.
No Olhos D’Água, entretanto, a idade exata dos vestígios ainda não foi determinada.
Essa diferença é importante.
A existência de sítios muito antigos em outras partes da bacia não permite atribuir automaticamente a mesma idade às pinturas, à cerâmica ou às estruturas encontradas em Xique-Xique.
Cerâmica pode ajudar a identificar antigas ocupações humanas
Os fragmentos encontrados durante a pesquisa são especialmente úteis porque características da cerâmica podem fornecer informações sobre técnicas de produção e tradições associadas a diferentes populações.
Ainda assim, os pesquisadores responsáveis pelo projeto não apontaram qual grupo específico teria vivido ou passado pelo Olhos D’Água.
Romeu Leite explicou que uma sucessão de populações ocupou a região ao longo de centenas ou milhares de anos, o que exige estudos mais aprofundados antes de qualquer identificação.
Até o momento divulgado pelo projeto, não havia uma datação definida para o sítio.
O trabalho realizado inicialmente tem caráter de documentação e identificação, sem intervenções que permitam responder todas as questões sobre a idade dos materiais.
A possibilidade mencionada pela equipe é que futuras parcerias com arqueólogos e outras instituições permitam novas pesquisas e métodos capazes de ampliar esse conhecimento.
Por isso, pinturas, cerâmica e polidor não devem ser interpretados isoladamente como peças de uma história já completamente conhecida.
Eles funcionam como evidências que podem orientar investigações posteriores sobre a presença humana naquela área do semiárido.
Registro no Iphan oficializa sítio arqueológico de Xique-Xique
Depois das visitas de campo, a equipe reuniu informações técnicas sobre o local.
Foram produzidos registros fotográficos, descrição da área, dados de localização e delimitação do espaço identificado como sítio arqueológico.
A documentação foi encaminhada ao Iphan.
O instituto é o órgão federal responsável pelo reconhecimento e registro do patrimônio arqueológico brasileiro.
Pelas regras vigentes, descobertas arqueológicas precisam ser comunicadas ao órgão, e o cadastro oficial reúne informações destinadas à identificação e gestão desses bens.
No caso de Olhos D’Água, o IF Baiano informou que o sítio passou a integrar o cadastro oficial de sítios arqueológicos do Iphan.
O registro não encerra as pesquisas.
Na prática, ele documenta oficialmente a existência da área e cria uma referência para trabalhos posteriores de arqueólogos e outros pesquisadores.
Pinturas rupestres apresentam sinais de desgaste
Parte das pinturas identificadas apresenta desgaste causado pela exposição ao ambiente.
Sol, chuva e outros processos naturais atuam continuamente sobre superfícies rochosas, o que pode reduzir a visibilidade dos pigmentos ao longo do tempo.
Por essa razão, o registro fotográfico realizado pela equipe também tem função documental.
Romeu Leite explicou que a catalogação permite uma caracterização inicial do sítio e cria material que poderá ser consultado por outros profissionais interessados em pesquisá-lo.
O professor também destacou a participação dos moradores na conservação do espaço e afirmou que a descoberta passou a despertar interesse entre pessoas da própria cidade.
A localização reúne diferentes tipos de vestígios dentro de uma área relativamente pequena.
Segundo o pesquisador, pinturas, polidor e cerâmica aparecem em um espaço de menos de um quilômetro, combinação que permite observar mais de um tipo de evidência da presença humana.

