Segundo reportagem publicada pelo Correio Braziliense, com base no estudo Juventudes Negras e Empregabilidade, divulgado a partir de levantamento realizado em novembro de 2025 pela Fundação Itaú e pelo Pacto de Promoção da Equidade Racial, o avanço da população negra no ensino superior e na pós-graduação ainda não foi acompanhado pela mesma evolução no mercado de trabalho. Embora a escolaridade tenha crescido de forma consistente, mulheres jovens pretas e pardas continuam enfrentando salários menores, baixa inserção no emprego formal e dificuldades para alcançar posições de liderança.
Escolaridade cresce, mas salários menores continuam marcando a trajetória das jovens negras
O acesso de jovens negros à educação superior aumentou significativamente nos últimos anos. Entretanto, os dados mostram que a qualificação acadêmica, sozinha, ainda não é suficiente para garantir igualdade de oportunidades profissionais.
Entre os estudantes de especialização, os negros representam 39%, enquanto os brancos correspondem a 60%. No mestrado, a participação negra sobe para 41%, contra 58% de estudantes brancos. Já no doutorado, a presença de negros alcança 46%, enquanto os brancos somam 54%.
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Apesar desse avanço educacional, a realidade salarial permanece desigual. Conforme o levantamento, jovens negros recebem, em média, R$ 1.727, enquanto jovens brancos têm rendimento médio de R$ 2.365. Na prática, isso representa uma remuneração aproximadamente 37% menor, mesmo diante de níveis semelhantes de qualificação.
Para chegar a essas conclusões, o estudo reuniu informações de quatro importantes bases oficiais: o Índice ESG de Equidade Racial da Juventude Negra (IEERJN), a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), a Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) e o Censo Demográfico da Educação Superior.
Indicadores revelam que a exclusão aumenta conforme cresce a escolaridade
O levantamento também mostra um fenômeno considerado preocupante pelos pesquisadores.
No Brasil, aproximadamente 6 em cada 10 jovens entre 15 e 29 anos são negros, conforme o Estatuto da Juventude (Lei nº 12.852/2013). Ainda assim, o Índice de Equidade Racial da Juventude Negra demonstra que essa população permanece concentrada justamente nas ocupações que exigem menor escolaridade.
O indicador registra +0,15 para trabalhadores com ensino fundamental incompleto, mostrando super-representação nesse grupo.
Quando o ensino fundamental é concluído, o índice praticamente se equilibra, chegando a -0,01.
Entretanto, conforme a formação acadêmica avança, a participação diminui. Entre profissionais com ensino superior completo, o índice cai para -0,29. Na pós-graduação, atinge -0,38, considerado o pior resultado do levantamento.
Segundo os autores do estudo, esse comportamento demonstra que investir em educação é essencial, mas ainda insuficiente para eliminar barreiras estruturais presentes no mercado de trabalho brasileiro.
Mulheres negras enfrentam a menor inserção no emprego formal
Entre todos os grupos analisados, as mulheres negras aparecem como aquelas com menor participação no mercado formal.
Essa realidade é ilustrada pela trajetória de Melissa Regina de Sousa, formada em enfermagem, mas que encontrou na estética uma alternativa para complementar a renda e financiar sua pós-graduação.
Ela divide sua rotina entre um emprego com carteira assinada e o trabalho como profissional autônoma.
Melissa afirma que seu diploma abriu portas apenas parcialmente e relata que frequentemente precisou demonstrar desempenho muito superior para que sua capacidade profissional fosse reconhecida.
Situação semelhante foi vivida pela professora de dança Lady Bárbara, graduada em Educação Física.
Apesar da formação universitária, ela relata que não conseguiu permanecer na área fitness devido aos estigmas relacionados ao corpo, à cor da pele e aos padrões estéticos impostos pelo setor.
Hoje trabalha com crianças, mas afirma sentir falta de atuar diretamente na profissão para a qual se formou. Segundo ela, mulheres negras ainda precisam conquistar condições básicas garantidas por direitos trabalhistas, como melhor remuneração, plano de saúde e férias remuneradas.
Falta de representatividade também dificulta o crescimento profissional
Outro relato presente no estudo é o da arte-educadora Schayla Ferreira Acacio, que desistiu da graduação em enfermagem após perceber a baixa presença de mulheres negras ocupando cargos de liderança.
Segundo ela, a ausência de referências influencia diretamente a forma como jovens negras enxergam suas possibilidades de crescimento profissional.
A professora doutora Norma Diana Hamilton, coordenadora do Núcleo de Estudos Afro-Brasileiros da Universidade de Brasília (NEAB-UnB), explica que esse cenário pode ser compreendido a partir das reflexões da psicóloga e pesquisadora Cida Bento, autora do livro O Pacto da Branquitude.
De acordo com essa interpretação, profissionais brancos em posições de liderança tendem, muitas vezes de forma inconsciente, a selecionar e promover pessoas semelhantes, perpetuando a baixa presença de profissionais negros em cargos de maior prestígio e influência, mesmo quando possuem qualificação equivalente.
Além disso, fatores como dificuldades para ingressar e permanecer na universidade, preconceito contra estudantes cotistas, limitações financeiras, deficiência no transporte público, menor acesso a cursos de idiomas, estágios e redes de contatos também ampliam as desigualdades.
Em Brasília, por exemplo, o estudo mostra que mais de 70% da juventude negra vive nas regiões administrativas, enquanto as áreas centrais de maior renda concentram predominantemente população branca. Essa distribuição territorial aumenta o tempo de deslocamento e reduz o acesso a oportunidades profissionais.
Projeto de lei propõe ampliar oportunidades para jovens negros
Como alternativa para reduzir essas desigualdades, tramita no Senado o Projeto de Lei nº 4.116/2021, de autoria do senador Jader Barbalho (MDB-PA).
A proposta altera a Lei do Estágio (Lei nº 11.788/2008) para reservar pelo menos 30% das vagas de estágio em órgãos públicos e empresas privadas para pessoas negras, indígenas e quilombolas.
Segundo Guibson Trindade, gerente executivo do Pacto de Promoção da Equidade Racial, combater esse cenário exige muito mais do que ampliar o acesso à educação.
Para ele, empresas e instituições também precisam adotar processos seletivos inclusivos, estabelecer metas de diversidade, garantir transparência na progressão de carreira, criar programas de desenvolvimento profissional e manter ambientes livres de discriminação.
Somente com políticas permanentes de equidade, afirma o especialista, será possível transformar a qualificação acadêmica em oportunidades reais de crescimento, liderança e remuneração compatível para as mulheres negras no mercado de trabalho brasileiro.
