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Islândia enterra tubarão por 6 meses sob pedras para criar hákarl, prato nacional que apodrece propositalmente: carne tóxica de tubarão da Groenlândia é fermentada 12 semanas no solo, pendurada 5 meses ao vento gelado e libera cheiro de amônia tão forte que turistas vomitam, mas tradição viking de 1.000 anos salvou islandeses da fome

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Escrito por Valdemar Medeiros Publicado em 24/02/2026 às 12:10 Atualizado em 24/02/2026 às 12:13
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Reprodução/Wikipedia
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Hákarl, o prato nacional da Islândia feito de tubarão-da-Groenlândia fermentado por meses, foi chamado por Anthony Bourdain de “a coisa mais nojenta” que já provou.

Anthony Bourdain, chef celebridade que viajou o mundo experimentando comidas exóticas das mais variadas culturas, declarou categoricamente que o hákarl era “a pior coisa e a mais nojenta” que ele comeu na vida. O arqueólogo Neil Oliver descreveu como “queijo azul cem vezes mais forte”. O apresentador Ainsley Harriott não conseguiu engolir e comparou a experiência a “mastigar um colchão encharcado de urina”. Todos estavam falando do hákarl, o prato nacional da Islândia. Literalmente significa “tubarão podre” em islandês. E não é exagero publicitário — é exatamente o que é: carne de tubarão-da-Groenlândia (Somniosus microcephalus) propositalmente apodrecida por meio de um processo de fermentação anaeróbica que dura meses e produz um cheiro intenso de amônia, comparável a produtos de limpeza industrial.

A primeira recomendação que turistas recebem ao se prepararem para experimentar hákarl: tape o nariz antes de colocar o cubo de carne na boca. Caso contrário, o reflexo de vômito é praticamente inevitável.

Por que enterrar um tubarão venenoso virou tradição na Islândia

A origem do hákarl não vem de experimentalismo gastronômico ou desejo de criar experiências culinárias extremas. Vem da necessidade brutal de sobrevivência.

Quando vikings escandinavos colonizaram a Islândia a partir do século IX, encontraram uma ilha vulcânica no meio do Atlântico Norte onde as temperaturas mergulhavam abaixo de -20 °C no inverno, árvores praticamente não existiam e as opções de alimento eram severamente limitadas.

O tubarão-da-Groenlândia, abundante nas águas geladas do Ártico e do Atlântico Norte, era uma fonte óbvia de proteína. Esses peixes podem atingir 6,5 metros de comprimento e pesar mais de 1.000 quilos — um único animal poderia alimentar uma família por meses.

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Havia apenas um problema: a carne fresca do tubarão-da-Groenlândia é altamente tóxica para humanos.

Para sobreviver nas águas árticas que chegam a -2 °C, o animal desenvolveu altas concentrações de ácido úrico e óxido de trimetilamina no tecido muscular — substâncias que impedem o congelamento do sangue. Algumas mordidas na carne não curada podem provocar sintomas semelhantes a embriaguez extrema, convulsões e até morte.

Os vikings inicialmente sofreram envenenamentos. A solução veio com a fermentação prolongada, que neutraliza as toxinas e torna o tubarão comestível.

O processo tradicional do hákarl: 6 meses de fermentação e secagem ao vento

O preparo do hákarl, mantido há mais de 1.000 anos, é um ritual rigoroso:

Etapa 1 – Abate e decapitação:
O tubarão é capturado, abatido e decapitado.

Etapa 2 – Enterro e prensagem (6 a 12 semanas):
O corpo é enterrado em areia ou cascalho. Pedras pesadas são colocadas sobre a carcaça para forçar a saída dos líquidos tóxicos. Durante esse período, ocorre a fermentação anaeróbica subterrânea.

Etapa 3 – Exumação e corte:
Após semanas enterrado, o tubarão é desenterrado e cortado em tiras.

Etapa 4 – Secagem ao ar livre (4 a 5 meses):
As tiras são penduradas em cabanas abertas, expostas ao vento gelado islandês. Forma-se uma crosta marrom oxidada na superfície.

Etapa 5 – Finalização:
A crosta externa é removida e a carne interna é cortada em cubos de 1 a 2 centímetros.

O processo completo leva de 5 a 7 meses. O resultado é uma carne firme, seca, com sabor que lembra queijo extremamente envelhecido com notas intensas de amônia.

Dois tipos de hákarl: diferenças entre barriga e corpo

Existem duas variedades principais:

Glerhákarl:
Extraído da barriga, possui cor avermelhada e textura mais mastigável. Considerado relativamente mais suave.

Skyrhákarl:
Vem do corpo do tubarão, tem cor branca, textura mais macia e sabor mais intenso.

Brennivín: a aguardente islandesa que acompanha o hákarl

Nenhum islandês consome hákarl sem brennivín, aguardente feita de batata fermentada com sementes de cominho, com 37,5% de teor alcoólico.

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A bebida ajuda a mascarar o gosto persistente de amônia que permanece na garganta após a degustação.

O tubarão de 400 anos: o vertebrado mais longevo do planeta

O tubarão-da-Groenlândia é considerado o vertebrado mais longevo da Terra. Estudos publicados na revista Science em 2016 indicam que pode viver cerca de 400 anos, com estimativas entre 272 e 500 anos.

Fêmeas só atingem maturidade sexual aos 150 anos, quando alcançam cerca de 4 metros de comprimento. Seu metabolismo extremamente lento — o coração bate apenas 4 a 6 vezes por minuto — contribui para essa longevidade.

A espécie é classificada como vulnerável à extinção pela União Internacional para Conservação da Natureza.

Experiência sensorial: o que turistas realmente sentem ao comer hákarl

Relatos são consistentes:

  • Cheiro: forte odor de amônia
  • Textura: firme e levemente borrachuda
  • Sabor inicial: queijo envelhecido muito intenso
  • Sabor residual: amônia persistente

Islandeses brincam que turistas são identificados pela expressão de choque após a primeira mordida.

Consumo moderno: supermercados e festival Þorrablót

Hoje, hákarl é vendido em supermercados islandeses durante todo o ano. O pico de consumo ocorre durante o Þorrablót, festival de inverno celebrado em janeiro e fevereiro.

Reprodução/Megacurioso

O prato integra o Þorramatur, conjunto de comidas tradicionais que inclui cabeça de ovelha defumada e outras receitas históricas.

Hákarl: legado viking de sobrevivência extrema

A história do hákarl é sobre adaptação humana a ambientes extremos. O tubarão venenoso não era luxo gastronômico — era a diferença entre sobreviver ou morrer no inverno islandês.

O gosto de amônia não é erro culinário. É lembrança química de uma solução engenhosa desenvolvida há mil anos para transformar um recurso tóxico em alimento.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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