Estudos indicam impacto da inteligência artificial nas eleições 2026, com mudança de até 15,9 pontos em opiniões políticas, enquanto TSE discute regras, desinformação e uso de chatbots no pleito
A inteligência artificial nas eleições de 2026 já mobiliza pesquisadores, autoridades e eleitores diante de estudos que apontam potencial persuasivo dos chatbots, crescimento de desinformação e aumento da confiança pública nesses sistemas, enquanto o Tribunal Superior Eleitoral finaliza regras para o pleito.
A resposta do ChatGPT à pergunta sobre em quem votar nas eleições presidenciais de 2026 costuma ser direta: não opina.
Ainda assim, apresenta perfis dos candidatos a presidência, resume pesquisas eleitorais, aponta pontos fortes e fracos e sugere critérios para orientar a decisão.
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Na conclusão apresentada ao usuário, o sistema indica que quem prioriza experiência administrativa e políticas sociais amplas tenderia a ver um lado como mais forte.
Já eleitores focados em agenda conservadora, segurança e menor intervenção estatal em determinadas áreas encontrariam maior alinhamento ao outro lado.
Outros chatbots, como Gemini e Claude, adotam postura semelhante. Não indicam voto, mas estruturam comparações, listam prós e contras e propõem caminhos para que o usuário construa sua própria conclusão.
Inteligência artificial nas eleições 2026 e o poder de persuasão medido em pontos
Enquanto o TSE discute as regras sobre inteligência artificial nas eleições de 2026, o debate se intensifica sobre o impacto dessas ferramentas no processo democrático, seja por meio de chatbots, seja pelo avanço do conteúdo gerado por IA.
Duas pesquisas recentes reforçam esse alerta. Um estudo da Universidade de Oxford, publicado em dezembro, analisou 76.977 pessoas.
Antes de interagirem com sistemas programados para defender determinados pontos de vista, os participantes registravam suas opiniões políticas em uma escala de 0 a 100.
Após o diálogo, a medição era refeita. No cenário mais persuasivo, a média das respostas variou 15,9 pontos.
Outra pesquisa, publicada na Nature também em dezembro, ouviu seis mil eleitores nos EUA, Canadá e Polônia. No experimento americano, eleitores pró-Donald Trump e pró-Kamala Harris conversaram com sistemas que defendiam o candidato rival.
As preferências mudaram em até 3,9 pontos na escala de 0 a 100, cerca de quatro vezes o efeito médio da propaganda eleitoral registrado nas duas eleições anteriores no país.
No Canadá e na Polônia, a mudança alcançou cerca de 10 pontos.
Os resultados não significam que ferramentas convencionais atuem como cabos eleitorais. No entanto, indicam que modelos de linguagem podem se tornar altamente persuasivos quando configurados para sustentar um ponto de vista específico.
Nas eleições de 2024, o TSE restringiu o uso de robôs que se passassem por candidatos para interagir com eleitores. Também proibiu deepfakes e determinou aviso obrigatório sobre uso de IA na propaganda eleitoral.
Neste ano, organizações como o NetLab UFRJ defendem que chatbots sejam impedidos de indicar candidaturas e que anúncios eleitorais dentro dessas plataformas sejam vetados.
Confiança pública e riscos de viés na inteligência artificial nas eleições 2026
No Brasil, cresce a preocupação com o nível de confiança depositado nesses sistemas. Embora operem sob uma aura de neutralidade, podem cometer erros ou reproduzir vieses.
Estudo do Aláfia Lab aponta que 9,7% dos brasileiros veem sistemas como ChatGPT e Gemini como fonte de informação.
Matheus Soares, coordenador do laboratório e co-coordenador do Observatório IA nas Eleições, afirma que respostas confusas e imprecisas podem ser interpretadas como reais no contexto eleitoral.
O antropólogo David Nemer, professor da Universidade da Virgínia, cita pesquisa de Oxford que identificou distorções regionais.
Em análise com milhões de interações, o ChatGPT atribuiu menos inteligência a brasileiros do Norte e Nordeste.
Em uma disputa com milhares de candidaturas ao Executivo e ao Legislativo, o risco é que inclinações desse tipo apareçam de forma ampliada.
Segundo Nemer, trata-se de um ambiente em que as pessoas confiam que o que é produzido é verdade, mesmo que essa “verdade” se baseie em sistemas com origem e fundamentos pouco transparentes.
Ele ressalta que, diferentemente das redes sociais, os chatbots costumam ser vistos como neutros.
Fernando Ferreira, pesquisador da Netlab da UFRJ, observa que a presença da IA vai além dos chatbots.
Buscadores como o Google exibem respostas geradas por inteligência artificial, enquanto ferramentas como o Grok, do X, são utilizadas para checagem de fatos. As respostas passam a ser encaradas como uma fonte de verdade.
Em 2024, o Google restringiu respostas sobre eleições no Gemini, mas o filtro falhou. A IA respondia sobre alguns candidatos municipais e não sobre outros.
Já a OpenAI afirma que seus modelos podem tratar de política, desde que mantenham neutralidade. Em publicação de outubro, a empresa informou que testes internos indicaram que menos de 0,01% das respostas do ChatGPT apresentavam sinais de viés político.
Desinformação, deepfakes e violência de gênero no centro do debate
Outro foco de preocupação é a desinformação em vídeos, áudios e imagens ampliada pela inteligência artificial.
Pesquisadores avaliam que o impacto da tecnologia no processo eleitoral tende a ser maior do que há dois anos, diante da popularização de ferramentas mais acessíveis, rápidas e verossímeis.
Nemer destaca o risco de deepfakes que questionem a integridade do sistema eleitoral, como vídeos manipulados que simulem falhas em urnas eletrônicas, capazes de abalar a confiança dos eleitores.
Para Soares, os deepnudes também merecem atenção. Imagens hiperrealistas que simulam nudez já foram exploradas em 2024 e podem intensificar a violência política de gênero neste ano.
Há duas semanas, a Agência Lupa apontou que a fatia de conteúdos falsos produzidos com IA entre suas checagens saltou de 4,65% para 25,77% em um ano. Quase 45% dos casos apresentavam viés político.
Laura Schertel, professora do IDP e da UnB, avalia que o principal desafio do TSE será implementar as regras já existentes.
Entre as propostas enviadas à Corte, está a criação de um plano de conformidade obrigatório, no qual empresas expliquem previamente como aplicarão e fiscalizarão as normas eleitorais.
Segundo a advogada, o TSE não é um regulador digital, o que impõe o desafio de transformar novas regras em prática efetiva.
Nesse cenário, a inteligência artificial nas eleições de 2026 avança como tema central, cercado por estudos, alertas e discussões sobre integridade, confiança e capacidade de supervisão institucional.
Com informações de O Globo.

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