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O ‘tsunami’ de investimentos direcionados a empresas de Inteligência Artificial (IA) e de semicondutores, que priorizam segurança e lucros mais previsíveis, tem sido determinante para a trajetória declinante do Bitcoin

Escrito por Marcello Sigwalt
Publicado em 10/06/2026 às 09:37
Atualizado em 10/06/2026 às 09:39
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Mas não é apenas o seu caráter ‘volátil’ que inibe o avanço dos criptoativos. A acirrada disputa por capital visando o lançamento de IPOs ou ofertas públicas iniciais, na tradução livre para o português, também ganhado a preferência do investidor, mais avesso ao risco. Como resultado, o Bitcoin amarga uma queda acumulada de 40% nos últimos 12 meses  

Migração de capital para ações e tecnologia e Inteligência Artificial (IA); resgates recordes em ETFs de Bitcoin à vista; vendas de grandes investidores corporativos, acrescida de indefinições regulatórias nos EUA e incertezas geopolíticas globais.

A combinação adversa desses fatores, seguida da disparada da aversão global ao risco, é apontada por especialistas como determinante da derrocada consistente do Bitcoin, desde o ano passado, o que lhe valeu uma desvalorização acumulada de até 40% no período de 12 meses, quando derreteu do patamar de US$ 105.788, em junho de 2025, para os US$ 63.500.

Bitcoin acumula perdas de 27% em 2026

Fustigado por ‘entradas fracas’ e redirecionamento de investidores de varejo para ações de inteligência artificial, o Bitcoin amarga perdas de até 27%, até agora, em 2026, ainda que analistas do banco de investimentos Bernstein firmem posição de que está em curso uma ‘estabilidade institucional’, e não um declínio estrutural.

Projeções otimistas à parte, o fato é que as entradas líquidas de fundos negociados em bolsa e compradores de tesouraria corporativa ‘despencaram’ de um montante de US$ 60 bilhões, no ano passado, para um acumulado no ano de apenas US$ 12 bilhões, o que corresponde a um ‘tombo’ de 80%.    

Nessa última terça-feira (9), a principal criptomoeda do planeta desceu para US$ 62,715 mil (R$ 325.421), a despeito do viés positivo exibido pelas bolsas globais e do recuo da cotação do petróleo. Em contraponto, enquanto o quadro macro é de relativo alívio, dados on-chain e de fluxo de ETFs de Bitcoin reforçam uma percepção de pessimismo. Para analistas da Bitfinex, após exibir uma fase de acumulação – com viés de alta, até o início deste ano – o mercado cripto passou a exibir um ‘regime de distribuição’.

Após o indicador ‘Delta de Volume Cumulativo’ à vista se mostrar negativo e ao forte período de acumulação (sobretudo, nos meses de abril e maio), os compradores passaram a se desfazer de suas posições. Ao mesmo tempo, observou-se que o custo médio dos detentores de curto prazo ficou abaixo da média real de mercado (US$ 77.800), o que denota que os novos investidores apuram prejuízos e oferecem maior resistência a cada recuperação. 

Corrida por IPOs é forte concorrente de ativos cripto

Com visão similar, o head de research da Anchorage Digital, David Lawant avalia que a trajetória declinante do bitcoin também decorre de variáveis externas, como a acirrada disputa por capital que viabilize IPOs (Initial Public Offering ou Ofertas Públicas Iniciais, na tradução para o português) por parte das empresas.

Uma IPO é o instrumento pelo qual uma empresa de capital fechado passa a vender, pela primeira vez, suas ações na bolsa de valores, no caso do Brasil, a B3 (B3SA3). O objetivo aqui é a captação de recursos financeiros, visando o financiamento de projetos de expansão, pagamento de dívidas, investimentos em novas tecnologias e para aquisição de empresas.

Como exemplos de IPOs recentes, Lawant cita a oferta da SpaceX, e de outras companhias ligada, direta ou indiretamente, à tese de inteligência artificial, movimento que aponta como responsável por ‘drenar’ liquidez de diferentes classes de ativos, o que inclui o mundo cripto.

‘Rotação de temas’ marca cenário atual

Outra tese defendida pelo head da Anchorage Digital é de que o mercado vive o que denominou ‘rotação de temas’, em que os preços sofrem influência de um leque de fatores, que vai da geopolítica, à política comercial ou monetária, inflação ou o crescimento econômico.  

Ao lembrar que as criptomoedas já ‘encararam’ movimentos adversos semelhantes, o diretor regional da Coinbase para as Américas, Fábio Plein, explica que “períodos de consolidação podem criar espaço para o ecossistema amadurecer, enquanto os desenvolvedores continuam a criar produtos e serviços que expandem a utilidade dessa tecnologia”.

No que toca ao curto prazo, o VP de negócios cripto do Mercado Bitcoin (MB). Fabrício Tota, recomenda ‘cautela’ aos investidores, uma vez que os fluxos dos ETFs, o comportamento das companhias detentoras dos ativos no longo prazo e a evolução do cenário geopolítico são fatores que devem continuar influindo sobre as cotações.

Fatores que pesam para a ‘maré baixa’ do Bitcoin

Rotação de Capital para IA e Tech: o frenesi em torno de empresas de Inteligência Artificial e semicondutores tem atraído volumes expressivos de investimentos. Com o Nasdaq em forte alta, muitos investidores têm preferido a segurança e os lucros tradicionais de gigantes como a Nvidia a ativos de alto risco como as criptomoedas. 

Saída de capital dos ETFs: os fundos negociados em bolsa (ETFs) de Bitcoin à vista nos EUA, que foram grandes impulsionadores da valorização do ativo, registraram longas sequências de resgates líquidos negativos, diminuindo a demanda institucional. 

Vendas institucionais: a confiança do mercado sofreu um abalo após a Strategy (conhecida por sua política de acumulação estrita) e outras “baleias” realizarem vendas de Bitcoin para cobrir dividendos ou obrigações corporativas.

Incerteza regulatória: a expectativa em torno de marcos regulatórios nos EUA — como a estagnação do progresso da Lei Clarity — gerou um ambiente de indefinição que afasta investidores institucionais que exigem mais segurança jurídica. 

Tensões geopolíticas: conflitos no Oriente Médio impactaram os preços do petróleo e as expectativas de inflação, fazendo com que investidores globais reduzissem a exposição a ativos de risco. 

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Marcello Sigwalt

Sou um profissional de comunicação, especializado em Economia, Política, Meio Ambiente, Ciência & Tecnologia, Educação, Esporte e Polícia, nas quais exerci as funções de editor, repórter, consultor de comunicação e assessor de imprensa. Destaco as atividades de edição e reportagem, mediante o uso de linguagem informativa e fluente que estimule o debate, a reflexão e a consciência crítica. No período de 2003-2011, em Brasília, atuei como assessor de imprensa no Congresso Nacional (na Câmara dos Deputados e no Senado federal); consultor de comunicação do Projeto de Gestão Ambiental Rural (PGAR), do Ministério do Meio Ambiente e das Nações Unidas, em 2006; editor da Assessoria de Comunicação do Ministério de Ciência e Tecnologia (Ascom/MCTI), em 2012. Como repórter especial, assinei a capa das revistas: Veja (prisão do senador Luiz Estevão, 2000); Galileu (Peritos criminais, 2010) e Conjuntura Econômica-FGV (Comércio exterior do Brasil e Crise Argentina, 2002). Atuei como editor-assistente do Portal iG para as eleições de 2010. Em 2013, cobri a cobertura do seminário internacional sobre energia, para a Câmara de Comércio Americana do Rio de Janeiro (Amcham-Rio). De 2014 a 2015, atuei como repórter especial da revista Desafios do Desenvolvimento (Ipea); repórter da revista Brasil Energia Petróleo (RJ) e editor do site Janus Investimentos (SP), em 2018 e 2019, e redator e editor do site Capitalist. De 2022 a 2025, fui editor de Economia do jornal Correio da Manhã (RJ). Atualmente, produzo conteúdo para os sites Linkedin e Substack.

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