Levantamento da CNI aponta 610 mil projetos financiados desde 2023, com recursos para produtividade, inovação e energia limpa, enquanto atividade industrial perde força.
A indústria brasileira acumulou R$ 755,2 bilhões em financiamentos para 610 mil projetos entre 2023 e junho de 2026, segundo levantamento divulgado em 27 de outubro pela Confederação Nacional da Indústria (CNI). O crédito foi direcionado à modernização de fábricas, desenvolvimento de tecnologias, exportações e projetos ligados à transformação ecológica, mas o aumento dos recursos ocorreu em meio à perda de ritmo da produção industrial.
Os números foram publicados no Radar da Indústria nº 7, divulgado pela CNI. O documento acompanha instrumentos da política Nova Indústria Brasil (NIB), incluindo o Plano Mais Produção, e mostra que as aprovações anuais passaram de R$ 155 bilhões em 2023 para R$ 225,1 bilhões em 2025, crescimento nominal próximo de 45%.
Crédito industrial chega a R$ 755 bilhões, com maior parcela destinada à produtividade
A maior parte do financiamento identificado pela CNI está relacionada ao aumento da produtividade das empresas. Essa frente recebeu R$ 507,7 bilhões, aproximadamente 67% do total acumulado no levantamento.
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O objetivo dos projetos é apoiar investimentos capazes de melhorar processos produtivos, ampliar a capacidade das indústrias e incorporar equipamentos ou soluções tecnológicas às operações.
Outros R$ 82,5 bilhões foram direcionados à inovação, enquanto R$ 53,5 bilhões ficaram associados ao eixo verde. O financiamento voltado às exportações somou R$ 51,2 bilhões.
Esses quatro grupos representam as principais frentes destacadas pela CNI, mas não esgotam a classificação do volume total informado no levantamento.
O superintendente de Política Industrial da confederação, Fabrício Silveira, relacionou a ampliação do crédito à combinação de instrumentos como o Plano Mais Produção, o Brasil Mais Produtivo, o programa Mover e as políticas voltadas à inovação.
As iniciativas possuem formatos diferentes. Algumas oferecem crédito para investimentos, enquanto outras apoiam melhorias de processos, pesquisa e desenvolvimento tecnológico ou mecanismos tributários específicos.
A ampliação do financiamento pode ser observada em projetos industriais concretos, como o desenvolvimento de uma plantadeira autônoma financiada pelo BNDES, que recebeu aprovação de R$ 22,5 milhões para incorporar inteligência artificial e operação automatizada.
Sudeste concentra 46% dos recursos, mas Norte registra avanço nas aprovações
A distribuição regional mostra que o financiamento industrial continua concentrado nas regiões com maior presença de fábricas e cadeias produtivas.
Dos aproximadamente R$ 695 bilhões com informações regionalizadas, cerca de 46% foram destinados ao Sudeste. A região Sul recebeu 22%, enquanto o Nordeste respondeu por aproximadamente 14%.
O Centro-Oeste ficou com 10% e o Norte com 7%. Os percentuais são aproximados e correspondem somente à parcela para a qual a CNI dispõe de distribuição geográfica.
Apesar da concentração, o crescimento das aprovações apresentou diferenças importantes entre as regiões.
De 2023 a 2025, o Norte registrou expansão de aproximadamente 72% no volume aprovado, partindo de uma base inferior à das regiões mais industrializadas.
No mesmo período, o Sudeste teve crescimento próximo de 57%, enquanto o Sul registrou avanço de 55%.
Os resultados mostram que o aumento do crédito alcançou diferentes partes do país, embora a participação regional nos valores totais permaneça desigual.
Um balanço divulgado pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) em 26 de outubro informou que 61% dos 428 mil projetos contabilizados até dezembro de 2025 estavam nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste.
Os dados não representam a mesma medida: o levantamento do MDIC destaca a quantidade de projetos, enquanto a distribuição apresentada pela CNI considera valores financeiros regionalizados.
Transformação energética recebe bilhões para novos projetos industriais
A agenda de descarbonização também aparece entre os destinos do financiamento industrial brasileiro.
A CNI identificou R$ 73,8 bilhões mobilizados pelo Plano Mais Produção, até junho de 2026, em aproximadamente 26 mil projetos vinculados à Missão 5 da Nova Indústria Brasil.
Essa missão concentra iniciativas relacionadas à bioeconomia, redução das emissões industriais, transição energética e segurança no fornecimento de energia.
Outro instrumento utilizado é o Fundo Clima, que disponibilizou R$ 11,7 bilhões para a indústria entre 2023 e setembro de 2026.
Desse montante, R$ 8,1 bilhões foram destinados à transição energética, enquanto R$ 2,6 bilhões ficaram associados à indústria verde. O FINAME Verde respondeu por R$ 443 milhões voltados a máquinas e equipamentos sustentáveis.
Os valores pertencem a instrumentos e classificações diferentes e não devem ser somados diretamente ao total de R$ 755,2 bilhões, pois podem existir sobreposições entre os programas.
A utilização de financiamento climático aparece também na captação de recursos do BNDES para o Fundo Clima, incluindo operações voltadas à mobilidade de baixo carbono.
Segundo a CNI, projetos de transformação ecológica exigem financiamentos capazes de acompanhar períodos longos de desenvolvimento e implantação, uma característica presente em investimentos industriais de maior complexidade.
Digitalização das fábricas mobiliza R$ 119,8 bilhões em 57 mil projetos
A modernização tecnológica aparece como outra prioridade do financiamento industrial.
Pelos dados apresentados pela CNI, o Plano Mais Produção aprovou R$ 119,8 bilhões para 57 mil projetos relacionados à Missão 4 da Nova Indústria Brasil, dedicada à transformação digital.
O volume anual de recursos dessa frente mais que dobrou entre 2023 e 2025.
O financiamento contempla iniciativas que envolvem a incorporação de novas tecnologias aos processos industriais e o desenvolvimento de capacidades produtivas associadas à digitalização.
A necessidade de modernização aparece em indicadores do Comitê Gestor da Internet no Brasil, citados pela CNI. Em 2021, apenas 23,5% das empresas industriais estavam classificadas como digitalizadas, e a meta estabelecida é alcançar 50% até 2034.
No programa Brasil Mais Produtivo, mais de 20 mil micro, pequenas e médias indústrias foram atendidas na modalidade de otimização de processos.
Já no programa Mover, direcionado à cadeia automotiva, foram aprovados 170 projetos de pesquisa, desenvolvimento e inovação, com mais de R$ 577 milhões lançados em recursos para essas atividades.
O fortalecimento da produção nacional de equipamentos também está entre os objetivos da política industrial. O BNDES informa em seu painel de acompanhamento que os financiamentos são organizados em eixos de produtividade, inovação, exportação e desenvolvimento verde.
Indústria de transformação recua mesmo com aumento dos financiamentos
O crescimento dos recursos aprovados contrasta com o desempenho recente da indústria de transformação brasileira.
Após registrar expansão de 3,9% em 2024, o setor apresentou retração de 0,2% em 2025, segundo os indicadores reunidos pela CNI.
A entidade também apontou enfraquecimento de diferentes indicadores em 2026. No acumulado até agosto, o faturamento real da indústria de transformação recuou 0,2%.
As horas trabalhadas na produção diminuíram 0,8%, enquanto o indicador de utilização da capacidade instalada também apresentou queda de 0,8%, conforme o levantamento.
Para a confederação, os juros elevados estão entre os fatores que dificultam a reação da atividade industrial. Taxas maiores encarecem os financiamentos e podem limitar investimentos, compras de máquinas e a demanda por produtos industrializados.
A entidade também menciona os custos de energia e outros fatores associados ao chamado Custo Brasil, estimado em R$ 1,7 trilhão por ano.
Esse conceito reúne despesas adicionais relacionadas a problemas tributários, logísticos, regulatórios e de infraestrutura que afetam a competitividade das empresas brasileiras.
Outro fator observado pela CNI é o ambiente internacional, com barreiras comerciais, tensões geopolíticas e pressões sobre custos industriais.
Em setembro, o BNDES anunciou uma nova etapa de crédito de R$ 22,6 bilhões no Plano Brasil Soberano, incluindo medidas direcionadas a empresas afetadas por tarifas comerciais dos Estados Unidos.
A iniciativa representa uma frente específica de financiamento, distinta do total acumulado compilado pela CNI.
Próxima etapa será acompanhar o efeito dos recursos sobre a produção
O governo federal mantém o Plano Mais Produção como instrumento de financiamento da Nova Indústria Brasil. Segundo o MDIC, o monitoramento do programa reúne informações das instituições financeiras participantes e apresenta dados atualizados até junho de 2026.
O desafio apontado pelo levantamento da CNI é acompanhar a transformação das aprovações de crédito em investimentos executados, incorporação de tecnologia e resultados de produtividade.
A próxima atualização dos indicadores industriais permitirá verificar se a expansão dos financiamentos será acompanhada por recuperação do faturamento e das atividades produtivas.

