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Indígenas potiguara recuperam mais de 3,5 quilômetros de rio após três anos de mutirões aos sábados, enfrentam assoreamento histórico e já observam retorno de espécies de peixes

Escrito por Noel Budeguer
Publicado em 20/02/2026 às 17:25
Atualizado em 20/02/2026 às 17:27
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Na Baía da Traição, indígenas potiguara iniciaram em 21 de janeiro de 2021 a revitalização do Rio do Aterro, já recuperaram mais de 3,5 quilômetros e trabalham para liberar cerca de 1 quilômetro restante, provocando impacto ambiental, social e cultural dentro do território.

O sábado amanheceu com chuva forte, mas isso nunca foi motivo para desistência. Desde as 6h30 da manhã, voluntários já estavam reunidos na aldeia Alto Tambá para mais um mutirão.

Todo sábado, essa rotina se repete e indígenas potiguaras se encontram para abrir novamente o leito do Rio do Aterro, que ficou praticamente soterrado após décadas de abandono e intervenções inadequadas.

O que começou durante a pandemia se transformou em um dos projetos ambientais mais simbólicos do território local.

Projeto Águas Potiguara nasceu na pandemia e virou ação permanente

O Águas Potiguara surgiu em um momento de isolamento, em meio à pandemia de covid 19. Com a comunidade fechada para o mundo exterior, lideranças começaram a discutir gestão territorial e questões ambientais. A constatação foi direta. Era preciso cuidar do rio.

Sem esperar por promessas políticas, o grupo decidiu agir. Em novembro e dezembro de 2020 a ideia ganhou força. No dia 21 de janeiro de 2021 ocorreu a primeira ação de limpeza.

O projeto atua nas aldeias Forte e Alto do Tambá, na Baía da Traição, litoral norte da Paraíba. O foco inicial foi o Rio do Aterro, afluente do Rio Sinimbu, que corta as duas aldeias.

Trabalho pesado remove raízes, lama e vegetação acumulada por décadas

A limpeza não é simples. Com facões, enxadas e cavadeiras retas, os voluntários cortam blocos densos formados por raízes de aninga, terra e matéria orgânica acumuladas ao longo do tempo.

Em um dos dias acompanhados ainda em 2023, pouco mais de sete metros foram avançados. Pode parecer pouco, mas o trecho era considerado o mais difícil, com sedimentos consolidados e vegetação extremamente densa.

Mesmo assim, após três anos, mais de 3,5 quilômetros já foram recuperados. Falta aproximadamente 1 quilômetro para liberar completamente o curso do rio.

O avanço é lento, mas constante. E cada metro aberto é comemorado.

Assoreamento começou há cerca de 30 anos após dragagem inadequada

Relatos de moradores mais antigos indicam que o processo de destruição do rio se intensificou há cerca de três décadas.

Uma dragagem alterou a sinuosidade natural do rio e praticamente eliminou a mata ciliar. O curso que antes era cheio de meandros se tornou reto.

Com o tempo, o uso coletivo diminuiu. A chegada da água encanada no final dos anos 1990 afastou as famílias do rio. O plantio nas margens também foi abandonado.

Sem cuidado e sem uso social, as aningas cresceram descontroladamente. O rio foi sendo aterrado até praticamente desaparecer.

Recuperação ambiental inclui viveiro com meta de 10 mil mudas por ano

Abrir o leito não é suficiente. Para manter o rio vivo, o grupo iniciou a recuperação da mata ciliar.

Na sede do projeto, instalada em uma casa recuperada coletivamente na aldeia Alto Tambá, está sendo estruturado um viveiro de mudas.

A meta é ambiciosa. Produzir 5 mil mudas a cada seis meses, totalizando 10 mil mudas por ano.

Espécies como jenipapo, ipê, copaíba e pau brasil já estão sendo preparadas para plantio no início do período chuvoso.

Segundo integrantes do projeto, o reflorestamento pode levar anos ou até décadas, já que a mata praticamente não existe mais em vários trechos.

Mesmo antes da conclusão total, já há resultados. Espécies de peixes que não eram vistas há anos começaram a reaparecer.

Dimensão social e espiritual fortalece identidade potiguara

O impacto vai além do meio ambiente. O rio sempre foi espaço de banho, lazer, pesca, agricultura e convivência.

Antigamente havia regras claras de uso, horários e divisões de espaço. Com o abandono, essa dinâmica social se perdeu.

Hoje, o projeto também busca resgatar o uso coletivo, incentivar roçados comunitários e fortalecer a agrofloresta como modelo de produção sustentável.

Há ainda uma dimensão espiritual reconhecida pelo grupo. Um episódio envolvendo uma jararaca durante a limpeza, em setembro de 2022, marcou uma virada.

Após o susto, o grupo criou uma campanha para aquisição de equipamentos de proteção e lançou oficialmente o nome Águas Potiguara nas redes sociais.

A partir dali, o projeto ganhou visibilidade na mídia local e passou a ser visto também como um fortalecimento do sagrado e da identidade cultural.

O resgate do rio acabou impulsionando também o resgate de símbolos, pinturas, artesanato e do sentimento de pertencimento entre os jovens.

Exemplo de convivência sustentável inspira novas gerações

Um dos exemplos citados pelos participantes é a propriedade de cerca de oito hectares de seu Cedinha, agricultor familiar de 64 anos.

A área é dividida entre zona alagável usada no verão, área seca para roçado no inverno e trecho de mata nativa preservada.

O modelo demonstra que é possível plantar e preservar ao mesmo tempo. Pai e filho participam ativamente dos mutirões e sonham em ver novamente crianças nadando no rio como antigamente.

O projeto já pensa em ampliar a atuação para todo o território potiguara. Mas para isso, os voluntários reforçam que são necessárias parcerias e apoio.

O Águas Potiguara deixou de ser apenas um mutirão ambiental. Tornou se um movimento de longo prazo voltado às próximas gerações.

Você acredita que ações comunitárias como essa podem transformar territórios inteiros no Brasil? Compartilhe sua opinião nos comentários.

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Zé das couves
Zé das couves
21/02/2026 19:54

Parabéns pela iniciativa, o terceiro poder é o que muda.Esperar o poder público tomar iniciativa é acreditar em papai Noel. O mundo é comandado por incompetentes.

Ione da Silva Melo
Ione da Silva Melo
21/02/2026 13:11

Parabéns!!!
Estou torcendo que mais pessoas como vocês, comecem a ver que precisamos fazer a nossa parte.
Se esperarmos dos políticos, estamos ferrado,eles só pensam nos interesses deles, apanhar nosso dinheiro, com cada dia mais impostos,e aumentando o número de impostos.
Que Deus proteja e abençoe vocês 🙏

Joice Senna
Joice Senna
21/02/2026 09:14

Linda iniciativa! Está na hora de todos acordarem para o potencial do nosso grande país e colaborar para que ele não seja destruído….

Noel Budeguer

Sou jornalista argentino baseado no Rio de Janeiro, com foco em energia e geopolítica, além de tecnologia e assuntos militares. Produzo análises e reportagens com linguagem acessível, dados, contexto e visão estratégica sobre os movimentos que impactam o Brasil e o mundo. 📩 Contato: noelbudeguer@gmail.com

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