Trajetória de Altaci Corrêa Rubim reúne trabalho precoce, discriminação, cinco tentativas no vestibular e uma ascensão acadêmica inédita, marcada pela passagem das ruas e do serviço doméstico à Universidade de Brasília, onde ela rompeu uma barreira histórica no ensino superior brasileiro.
Altaci Corrêa Rubim atravessou uma infância marcada pelo trabalho precoce, pela discriminação e pelas dificuldades de acesso à escola antes de se tornar a primeira professora indígena da Universidade de Brasília, após uma trajetória construída entre serviços braçais, magistério e pesquisa acadêmica.
Antes de chegar ao ensino superior como docente, a mulher do povo Kokama vendeu frutas, plantou capim, carregou areia, varreu ruas, trabalhou como empregada doméstica e enfrentou cinco tentativas até conquistar uma vaga na universidade e avançar na formação profissional.
Da infância no Amazonas ao trabalho nas ruas
Nascida em Santo Antônio do Içá, no interior do Amazonas, Altaci cresceu em uma família ligada aos povos Kokama e Kaixana, em uma região onde a sobrevivência dependia da roça, do trabalho coletivo e dos serviços temporários disponíveis no município.
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Após o avô cair e começar a sangrar dentro de casa, menina de 7 anos chama os bombeiros, confirma o número da residência, atualiza o quadro da vítima e aguarda o resgate na rua, atitude que surpreendeu até o profissional responsável por receber a ligação
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Ex-pedreiro interrompeu os estudos para ajudar a família, voltou à escola aos 24 anos pela EJA, tornou-se agente penitenciário, financiou Direito pelo Fies e chegou à magistratura aos 39 anos, dizendo que usaria o primeiro salário de juiz para quitar 22 parcelas atrasadas
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Pai criou 14 filhos trabalhando por mais de 40 anos como oleiro, voltou à escola aos 102 anos para melhorar a leitura e a escrita e passou a dividir a sala da EJA com o próprio filho, que antes era levado por ele e agora o acompanha nas aulas e em um curso de montagem e reparo de computadores
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Filho de doméstica e autônomo do Sertão da Paraíba, jovem de 18 anos estudava até nove horas por dia, trabalhava como garçom até a madrugada, desativou as redes sociais e foi aprovado em Medicina na UFRJ, a 2,3 mil quilômetros de casa
Conhecida também pelo nome indígena Tataiya Kokama, ela conciliava os estudos com a venda de frutas e, ao lado dos irmãos, carregava bacias pela cidade, aproveitando os intervalos para permanecer na única biblioteca local e ler antes de voltar às ruas.
Mesmo dentro da escola, o aprendizado vinha acompanhado de discriminação relacionada à língua, às roupas e às condições econômicas da família, enquanto o incentivo para permanecer nos estudos partia principalmente do pai, Francisco Pinto Rubim, que valorizava a alfabetização.
Levado ainda criança para um internato em Manaus, Francisco passou parte da juventude transportando roupas sujas e água, mas aprendeu a ler e a escrever escondido e, depois de formar a própria família, insistiu para que os filhos não abandonassem a escola.
Enquanto avançava na educação básica, Altaci acompanhava a mãe em diferentes serviços para ampliar a renda doméstica, participou do plantio de capim em antigas roças, carregou areia usada na pavimentação e varreu as mesmas ruas que ajudara a preparar.

Segundo a reportagem do Correio Braziliense que reconstruiu sua história, ela concluiu a educação básica e o magistério antes de começar a lecionar na vila Betânia, perto da avó Ticuna, onde permaneceu durante dois anos como professora.
A permanência na função terminou quando a prefeitura informou que não continuaria pagando os docentes, circunstância que levou Altaci a deixar o interior e seguir para Manaus em busca de trabalho, renda e condições para manter os estudos.
Trabalho doméstico e a proibição de tocar nos livros
Ao chegar a Manaus acompanhada de uma irmã e de parentes Ticuna, Altaci encontrou recursos suficientes apenas para alugar um quarto situado sobre um bueiro, cenário que obrigou as duas irmãs a procurar emprego doméstico em residências diferentes.
Na casa onde a irmã foi contratada, havia incentivo para que ela continuasse estudando, mas, no local em que Altaci trabalhava, a situação era oposta, pois a futura professora universitária relatou que não podia sequer tocar nos livros da residência.
A proibição de pegar nos livros tornou-se um dos episódios mais simbólicos de sua trajetória, porque a jovem que buscava oportunidades de leitura desde a infância encontrou outra barreira justamente dentro de uma casa onde o conhecimento estava fisicamente ao alcance.
Com a ajuda de uma amiga, que colaborou na preparação de um currículo e emprestou roupas para uma entrevista, Altaci deixou o trabalho doméstico, conseguiu uma vaga para ensinar matemática e alugou outro quarto para morar com a irmã.
O desempenho em sala de aula abriu caminho para um contrato vinculado à Secretaria Municipal de Educação, e o salário maior permitiu que ela enviasse dinheiro à mãe, pagasse um curso pré-vestibular e mantivesse a formação acadêmica como prioridade.
Cinco tentativas até entrar na universidade
A aprovação não veio de imediato, pois Altaci enfrentou cinco tentativas e sucessivas reprovações antes de ingressar, em 2001, no curso normal superior da Universidade Estadual do Amazonas, formação ligada à pedagogia e alcançada após anos divididos entre trabalho e estudo.
Quando a notícia da aprovação chegou ao pai, a celebração durou pouco, porque Francisco havia se ferido enquanto consertava uma canoa e morreu em decorrência de tétano, tendo recebido o ingresso da filha na graduação entre suas últimas notícias.

Depois de concluir a formação universitária, Altaci foi aprovada em concurso para a rede estadual de ensino em Manaus, concluiu duas especializações e seguiu para o mestrado em antropologia, ampliando a atuação como pesquisadora de povos e comunidades tradicionais.
Durante essa etapa, passou a participar de formações sobre direitos indígenas, saúde, educação e produção de materiais didáticos, além de percorrer áreas da Amazônia brasileira e peruana, onde manteve contato com comunidades que enfrentavam problemas semelhantes aos de sua família.
Em oficinas voltadas ao uso de instrumentos de localização e ao conhecimento dos processos de demarcação territorial, ela relatou situações de ameaça em áreas de conflito, enquanto a pesquisa avançava junto com atividades de formação e defesa de direitos.
Doutorado, saúde e educação indígena
A relação com a Universidade de Brasília começou como estudante de doutorado, quando Altaci foi selecionada para o programa em 2012 e passou a pesquisar o reordenamento político e cultural do povo Kokama, com foco na recuperação da língua e do território.
Pouco depois do início das aulas, um grave problema de saúde interrompeu a rotina acadêmica, pois ela entrou em coma e recebeu o diagnóstico de púrpura, doença autoimune que passou a exigir tratamento contínuo antes da retomada dos estudos.
Após o período de afastamento, Altaci voltou ao doutorado e defendeu a tese em 2016; posteriormente, já em Manaus, participou da criação da Gerência de Educação Escolar Indígena ao lado do professor Ely Macuxi, fortalecendo políticas voltadas ao ensino indígena.
A iniciativa se conectou ao trabalho que ela já desenvolvia com formação de professores, preservação linguística e elaboração de materiais didáticos, reunindo a experiência acumulada em comunidades amazônicas, escolas públicas e pesquisas acadêmicas sobre educação e território.
Primeira professora indígena da UnB
A transformação definitiva de sua relação com a UnB ocorreu em 2018, quando Altaci conquistou o primeiro lugar na seleção para professora adjunta de Letras, na área de português do Brasil como segunda língua, e ingressou no corpo docente da universidade.
A aprovação fez de Altaci Corrêa Rubim a primeira professora indígena da Universidade de Brasília, levando para uma sala de aula federal conhecimentos sobre línguas indígenas, identidade, educação, território e experiências construídas dentro e fora dos espaços acadêmicos.
Mesmo depois do ingresso na universidade, ela manteve atividades de formação no Amazonas, incluindo ações em municípios do interior, e passou a conectar a sala de aula em Brasília às comunidades que participaram de sua formação pessoal, profissional e política.
Na universidade, sua presença permite que estudantes tenham contato direto com conhecimentos e experiências indígenas que nem sempre integraram a formação acadêmica tradicional, ao mesmo tempo que amplia a visibilidade de trajetórias construídas longe dos centros de poder educacional.
Quantas pessoas com percursos semelhantes ainda encontram portas fechadas antes de transformar o acesso aos livros em uma carreira acadêmica, mesmo depois de atravessar trabalho precoce, discriminação, instabilidade financeira e sucessivas barreiras para permanecer estudando?
