Plano indiano busca ampliar o acesso a minerais críticos no exterior até 2031, enquanto acordos recentes aproximam o país do Brasil em áreas como terras raras, lítio, níquel, cobre e grafita.
A Índia está ampliando sua estratégia para garantir minerais críticos fora de seu território e colocou o Brasil entre os países considerados relevantes nessa busca.
Segundo a Folha de S.Paulo, o plano indiano mobiliza cerca de US$ 4 bilhões e prevê que empresas do país assegurem pelo menos 50 ativos minerais no exterior até 2031, enquanto Nova Déli tenta reduzir a dependência de cadeias concentradas na China.
A ofensiva faz parte da Missão Nacional de Minerais Críticos, lançada pelo governo indiano em janeiro de 2025.
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O programa cobre desde pesquisa geológica e mineração até beneficiamento, processamento, reciclagem e aquisição de ativos internacionais.
Documentos oficiais do Ministério de Minas da Índia preveem ₹ 16,3 mil crores em gastos públicos e institucionais, somados a ₹ 18 mil crores em investimentos esperados de estatais e outros participantes, totalizando ₹ 34,3 mil crores, valor próximo de US$ 4 bilhões.
Índia mira ao menos 50 ativos minerais no exterior
A meta internacional é dividida entre empresas estatais e privadas.
De acordo com o documento oficial da missão, 26 ativos minerais no exterior deverão ser assegurados por empresas públicas e outros 24 por companhias privadas, alcançando pelo menos 50 operações até o ano fiscal de 2030-31.
Entre os recursos citados como prioritários estão lítio, níquel, cobre, cobalto e grafita.
O objetivo é que esses ativos ajudem a atender parte da demanda interna indiana por matérias-primas utilizadas em baterias, veículos elétricos, energias renováveis, eletrônicos, equipamentos industriais e tecnologias de defesa.
A própria missão estima que as aquisições externas possam responder por aproximadamente 5% da demanda anual indiana por minerais críticos em 2031.
O país também pretende realizar 1.200 projetos domésticos de exploração mineral até 2031, além de estimular reciclagem, centros de pesquisa e parques de processamento.
A estratégia mostra que a Índia não busca apenas comprar minério pronto no mercado internacional, mas construir diferentes fontes de suprimento e ampliar sua capacidade de transformação.
O movimento já começou fora da Ásia.
A estatal Khanij Bidesh India Limited, conhecida como KABIL, obteve direitos exclusivos para explorar lítio em uma área de 15.703 hectares na província de Catamarca, na Argentina.
Criada por três empresas públicas indianas, a KABIL tem justamente o mandato de identificar, avaliar e adquirir ativos estratégicos em outros países.
Brasil entra na estratégia indiana de minerais críticos
É nesse contexto que o Brasil aparece com mais força.
O país reúne ocorrências e projetos associados a lítio, níquel, grafita, cobre, nióbio e terras raras, justamente alguns dos elementos acompanhados pela política indiana de segurança mineral.
A aproximação ganhou um marco formal em fevereiro de 2026, durante visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Índia.
Brasil e Índia assinaram memorandos voltados à cooperação em terras raras, minerais críticos e matérias-primas ligadas à cadeia do aço.
O memorando sobre terras raras e minerais críticos abre espaço para cooperação em exploração, mineração, infraestrutura, processamento, reciclagem e tecnologias relacionadas ao setor.
Também prevê intercâmbio de informações e aproximação entre instituições e empresas dos dois países.
A movimentação não ficou restrita à assinatura do acordo.
Em maio, o embaixador indiano no Brasil, Dinesh Bhatia, reuniu-se com a diretoria da Agência Nacional de Mineração, em Brasília, para discutir oportunidades de investimentos.
Segundo a ANM, o interesse apresentado pela delegação incluiu de forma específica o potencial brasileiro em terras raras e a possibilidade de ampliar a participação de empresas indianas no setor mineral.
Durante o encontro, a agência apresentou aos representantes indianos o funcionamento do sistema brasileiro de pesquisa e exploração mineral, os processos de autorização e concessão de lavra e as plataformas utilizadas para consultar títulos minerários e informações geológicas.
Brasil também busca ampliar processamento dentro do país
Esse interesse ocorre em um momento em que o Brasil tenta ampliar o valor agregado de sua produção mineral.
Em setembro de 2026, entrou em vigor a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, que prevê instrumentos para estimular pesquisa, lavra, beneficiamento e transformação no país, além de mecanismos de financiamento e incentivos fiscais.
A política também criou o Conselho Nacional para Industrialização de Minerais Críticos e Estratégicos, responsável por coordenar prioridades e acompanhar projetos considerados relevantes.
A diretriz brasileira é tentar evitar que o país participe dessas cadeias apenas como fornecedor de minério bruto, ampliando etapas de processamento e transformação dentro do território nacional.
Essa questão aparece também na aproximação com a Índia.
A cooperação bilateral prevê investimentos não apenas em extração, mas em infraestrutura e tecnologias de processamento.
Na cadeia do aço, o acordo firmado em fevereiro menciona atração de investimentos para exploração mineral, mineração, infraestrutura, reciclagem e processamento de matérias-primas.
Disputa por minerais críticos envolve vários países
Para Nova Déli, a diversificação ganhou importância à medida que setores industriais indianos passaram a exigir volumes maiores de minerais que o país não produz em quantidade suficiente.
O governo já identificou 30 minerais considerados críticos, dos quais 24 foram incluídos em uma categoria legal que permite ao governo central conduzir diretamente leilões de direitos minerários.
O Brasil, por sua vez, aparece em uma disputa global por novas fontes desses materiais.
Empresas australianas, canadenses, americanas e de outros países já mantêm projetos de pesquisa e produção de terras raras e minerais críticos em diferentes estados brasileiros, enquanto governos procuram estabelecer acordos de longo prazo para reduzir riscos de fornecimento.
No caso indiano, ainda não existe anúncio de que os 50 ativos previstos serão adquiridos especificamente no Brasil.
O país é um dos parceiros considerados estratégicos dentro de uma política mais ampla de diversificação, que também envolve Argentina, Austrália, Chile, Peru, Zâmbia e outros produtores minerais.
A meta de 50 ativos representa um objetivo para empresas indianas ao redor do mundo até 2031.
A presença do Brasil nessa estratégia depende da transformação dos memorandos e reuniões bilaterais em investimentos concretos, participação em projetos e contratos de fornecimento ao longo dos próximos anos.
