Projeto Caldeira, no sul de Minas, integra uma cadeia potencial de fornecimento aos Estados Unidos que envolve mineração, processamento e fabricação de ímãs, mas ainda depende de contratos definitivos e avanço das operações.
O Projeto Caldeira, empreendimento de terras raras desenvolvido no sul de Minas Gerais, está inserido em uma cadeia de fornecimento que pode levar até 3 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras aos Estados Unidos.
A rota envolve a australiana Meteoric Resources, a canadense Ucore Rare Metals e a fabricante americana de ímãs Vulcan Elements, que recebeu investimento da 1789 Capital, fundo do qual Donald Trump Jr. é sócio.
O fornecimento brasileiro, porém, ainda não está contratado e depende do avanço dos projetos envolvidos.
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A conexão começa em Minas Gerais. A Meteoric desenvolve o Projeto Caldeira em uma região que abrange áreas no entorno de Caldas, Poços de Caldas e municípios vizinhos, onde pesquisa depósitos de argilas iônicas com concentração de elementos usados na fabricação de ímãs permanentes.
Entre os minerais de maior interesse estão neodímio, praseodímio, disprósio e térbio. Esses elementos são utilizados em motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, eletrônicos, drones e diferentes equipamentos industriais e de defesa.

Segundo dados apresentados pela empresa, o empreendimento possui 78 títulos minerários distribuídos por aproximadamente 19,2 mil hectares e recursos estimados em cerca de 1,6 bilhão de toneladas de material.
A previsão apresentada para o projeto contempla produção média de aproximadamente 12,5 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras durante mais de duas décadas de operação.
O Projeto Caldeira ainda não iniciou produção comercial. A companhia avançou em testes e em uma planta-piloto, mas a implantação da mina e das estruturas industriais depende das etapas de licenciamento e construção.
Em dezembro de 2025, a Fundação Estadual do Meio Ambiente de Minas Gerais registrou a aprovação da licença prévia do empreendimento da Meteoric em Caldas.
A autorização representa uma etapa do processo ambiental, mas não corresponde à liberação automática para iniciar a operação comercial. Fases posteriores ainda exigem atendimento a condicionantes e novas autorizações.

Memorando prevê rota de até 3 mil toneladas por ano aos EUA
A possível rota até os Estados Unidos começou a ganhar forma em agosto de 2024, quando Meteoric e Ucore Rare Metals assinaram um memorando de entendimento.
Pelo documento, as empresas passaram a trabalhar na possibilidade de estabelecer um contrato definitivo para o fornecimento de carbonato misto de terras raras produzido em Caldeira.
O memorando estabelece como referência que, quando os dois projetos estiverem em produção, a Ucore poderia comprar um volume mínimo equivalente a 3 mil toneladas métricas de óxidos de terras raras por ano.
Segundo a empresa canadense, esse montante poderia conter mais de 900 toneladas de neodímio e praseodímio, aproximadamente seis toneladas de térbio e 24 toneladas de disprósio.
O acordo, no entanto, não é um contrato definitivo de venda.
As empresas afirmaram no próprio memorando que trabalhariam para chegar a um documento vinculante no futuro. A Meteoric também esclareceu posteriormente que amostras enviadas à Ucore eram destinadas a testes e que não havia naquele momento obrigação formal de fornecimento.
Esse ponto é importante porque as 3 mil toneladas anuais representam uma intenção comercial associada ao desenvolvimento dos projetos, e não um volume já contratado ou atualmente exportado pelo Brasil.
Caso a cadeia avance, o material de Caldeira seguiria para o complexo que a Ucore desenvolve na Louisiana.
A empresa pretende usar sua tecnologia RapidSX para separar os diferentes elementos presentes no concentrado e transformá-los em óxidos individuais de terras raras.
Uma atualização divulgada pela Ucore em maio de 2026 prevê para o complexo da Louisiana capacidade planejada de aproximadamente 9,6 mil toneladas anuais de óxidos de terras raras, formada por uma primeira unidade de cerca de 600 toneladas e três linhas posteriores com capacidade próxima de 3 mil toneladas cada.
Elo com fundo de Donald Trump Jr. é indireto
É na etapa seguinte que aparece a ligação com a Vulcan Elements.
Em março de 2026, Ucore e Vulcan anunciaram outro memorando de entendimento para integrar suas operações nos Estados Unidos.
Pelo acordo, a Ucore pretende fornecer óxidos de neodímio-praseodímio e disprósio à Vulcan, que transforma terras raras processadas em ímãs permanentes.
A parceria prevê amostras iniciais e busca estabelecer uma relação comercial em escala industrial a partir de 2027.
A Vulcan está construindo em Benson, na Carolina do Norte, uma unidade projetada para atingir 10 mil toneladas de capacidade anual de fabricação de ímãs. A empresa informa que a estrutura deverá entrar em comissionamento em 2027.
A ligação citada no título aparece no financiamento da fabricante americana.
Em agosto de 2025, a 1789 Capital participou de uma rodada de investimentos na Vulcan Elements. Donald Trump Jr. é sócio do fundo.
A relação, portanto, é indireta. O Projeto Caldeira não pertence à 1789 Capital, e Donald Trump Jr. não aparece como investidor direto da mina brasileira.
A cadeia potencial passa por Meteoric e Caldeira, depois Ucore, na Louisiana, e posteriormente Vulcan Elements, empresa que recebeu recursos de um grupo de investidores que inclui a 1789 Capital.
Lynas negocia aquisição da Meteoric
Desde a reportagem original, outra mudança relevante ocorreu na estrutura do projeto mineiro.
Em 1º de outubro de 2026, a australiana Lynas Rare Earths e a Meteoric anunciaram um acordo para que a Lynas adquira 100% das ações da Meteoric por meio de um esquema de incorporação submetido à aprovação de acionistas, Justiça e autoridades regulatórias.
A operação ainda não foi concluída.
Pelo cronograma divulgado pelas empresas, os acionistas da Meteoric devem receber a documentação formal em dezembro de 2026, com votação prevista para janeiro de 2027.
Se todas as aprovações forem obtidas, a implementação é esperada até março de 2027.
A transação foi estimada em aproximadamente R$ 3,5 bilhões. A aquisição colocaria o Projeto Caldeira dentro do portfólio da Lynas, uma das maiores produtoras de terras raras fora da China, mas ainda depende das condições previstas no acordo.
O projeto também entrou no radar do BNDES.
Em outubro, o banco passou a negociar financiamento para Caldeira e a avaliar, por meio do BNDESPar, uma eventual participação minoritária.
O investimento necessário para implantação do empreendimento foi estimado em cerca de US$ 498 milhões, embora o valor de eventual crédito do banco ainda não tenha sido definido.
O interesse em Caldeira ocorre em meio à busca de diferentes países por cadeias de fornecimento de terras raras fora da China, que concentra etapas relevantes de processamento e fabricação de ímãs.
No caso mineiro, a possível ligação com o mercado americano depende de uma sequência de projetos que ainda estão em diferentes estágios de desenvolvimento.
As 3 mil toneladas anuais permanecem como volume previsto para uma possível relação comercial futura, condicionado ao início da produção e à assinatura de acordos definitivos entre as empresas.
