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Imagens feitas do espaço revelam algo colossal escondido no deserto africano: 280 túmulos de pedra, sendo 260 estruturas que arqueólogos nem sabiam que existiam e monumentos de até 82 metros construídos há milhares de anos

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Escrito por Ana Alice Publicado em 31/08/2026 às 22:51 Atualizado em 31/08/2026 às 22:52
Imagens de satélite revelam 280 túmulos no deserto de Atbai, 260 deles inéditos, e ajudam a reconstruir a vida de antigos pastores. - Imagem: Ilustrativa
Imagens de satélite revelam 280 túmulos no deserto de Atbai, 260 deles inéditos, e ajudam a reconstruir a vida de antigos pastores. – Imagem: Ilustrativa
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Imagens de satélite revelaram uma extensa paisagem funerária no deserto de Atbai, onde centenas de estruturas de pedra ajudam arqueólogos a reconstruir a vida de comunidades pastoris que ocuparam o nordeste da África há milhares de anos.

Imagens de satélite ajudaram arqueólogos a identificar uma extensa paisagem funerária pré-histórica espalhada pelo deserto de Atbai, região entre o Nilo núbio e o mar Vermelho.

Ao todo, pesquisadores mapearam 280 estruturas monumentais de pedra, das quais 260 não haviam sido registradas anteriormente, algumas com até 82 metros de diâmetro.

A descoberta foi apresentada em estudo publicado em 27 de abril de 2026 na revista científica African Archaeological Review.

Liderado por Julien Cooper, o trabalho reuniu evidências de uma tradição funerária associada a comunidades pastoris que ocuparam essa faixa do nordeste da África milhares de anos atrás.

Chamadas pelos pesquisadores de Atbai Enclosure Burials, ou AEBs, as construções aparecem como grandes recintos circulares ou ovais delimitados por pedras, geralmente com sepultamentos em seu interior.

O levantamento encontrou exemplos desde o Alto Egito até áreas próximas à atual Eritreia, revelando uma distribuição muito mais ampla do que se conhecia.

Imagens de satélite revelaram 260 estruturas desconhecidas

A equipe utilizou sensoriamento remoto por satélite dentro do Atbai Survey Project para procurar formas semelhantes às estruturas funerárias já conhecidas no deserto.

O resultado foi um catálogo com 280 monumentos, incluindo 20 que já haviam aparecido em levantamentos de campo ou reconhecimentos anteriores e outros 260 detectados pela nova análise.

Isso não significa que 260 túmulos tenham sido escavados ou confirmados individualmente no solo.

A maior parte foi classificada a partir da forma, da localização e das semelhanças com monumentos conhecidos, enquanto apenas alguns exemplos da tradição passaram por investigações arqueológicas detalhadas.

As dimensões chamaram atenção.

Os recintos variam de aproximadamente 5 a 82 metros de diâmetro, escala que levou os autores a interpretar essas construções como pontos importantes da paisagem social e funerária das comunidades que viviam no Atbai.

A estrutura mais ao norte considerada segura pelo estudo está em Wadi Khashab, no Egito, aproximadamente na latitude 24,32° norte.

O exemplo mais ao sul aparece em Khor Baraka, na Eritreia, a cerca de 16,69° norte.

À esquerda, o recinto funerário de Wadi Khashab, no deserto oriental do Egito; à direita, outro monumento da mesma tradição fotografado do alto no Atbai. Crédito: Piotr Osypiński / Museo Castiglioni / African Archaeological Review.
À esquerda, o recinto funerário de Wadi Khashab, no deserto oriental do Egito; à direita, outro monumento da mesma tradição fotografado do alto no Atbai. Crédito: Piotr Osypiński / Museo Castiglioni / African Archaeological Review.

Wadi Khashab revela o que havia dentro dos recintos funerários

A interpretação como monumentos funerários não depende apenas das imagens de satélite.

Um dos principais pontos de comparação é Wadi Khashab, no deserto oriental do Egito, onde uma expedição polonesa escavou parte de um recinto circular de aproximadamente 18 metros de diâmetro.

Os arqueólogos encontraram mais de 25 sepultamentos humanos e animais dentro da estrutura.

Um enterro humano ocupava posição central, enquanto ao redor dele estavam sepultamentos de bovinos, ovelhas e uma criança.

Datações por radiocarbono revelaram uma história complexa, com deposições realizadas em diferentes momentos dos quintos e quartos milênios a.C.

O monumento ainda voltou a ser utilizado muito mais tarde, durante o segundo milênio a.C., quando sua aparência também foi modificada.

Outros exemplos escavados no deserto, como Wadi el-Ku e Bir Asele, também apresentaram restos de animais domésticos.

Os autores ressaltam, porém, que não é possível afirmar que todos os 280 monumentos contenham o mesmo tipo de sepultamento, justamente porque a maioria ainda não foi escavada.

Túmulos monumentais ficavam próximos de wadis e áreas de pastoreio

Um dos resultados mais reveladores surgiu quando os pesquisadores compararam a posição dos monumentos com a paisagem.

A maioria está próxima de wadis, canais ou vales secos que podem conduzir água temporariamente após chuvas e que, em períodos mais úmidos do passado, ofereciam condições importantes para pessoas e rebanhos.

Em média, os monumentos ficam aproximadamente 196 metros de um canal de wadi atual, com mediana de 158 metros.

Alguns também aparecem perto de poços, reservatórios naturais e áreas favoráveis à pastagem.

Para os pesquisadores, a distribuição sugere que os recintos não eram colocados aleatoriamente no deserto, mas próximos a lugares importantes para abastecimento de água, circulação e criação de animais.

Vestígios de antigas trilhas pastorais identificadas nas proximidades reforçam essa interpretação.

Em terrenos pedregosos, o deslocamento repetido de pessoas e rebanhos deixou marcas lineares que ainda podem ser percebidas por sensoriamento remoto.

Os grandes monumentos, portanto, podem ter desempenhado uma função que ia além do sepultamento.

Segundo o estudo, provavelmente serviam como locais cerimoniais e referências territoriais para grupos nômades que precisavam organizar seus deslocamentos em torno de água e pastagens.

O recinto funerário de Wadi Khashab, no deserto oriental do Egito - Crédito: Reprodução/African Archaeological Review.
O recinto funerário de Wadi Khashab, no deserto oriental do Egito – Crédito: Reprodução/African Archaeological Review.

Tradição funerária pode ter durado cerca de dois mil anos

A cronologia ainda possui incertezas porque poucos monumentos foram datados diretamente.

Reunindo escavações, cerâmicas e comparações arqueológicas, os pesquisadores propõem uma duração ampla para a tradição, aproximadamente entre 4500 e 2500 a.C.

No resumo científico, os autores situam de forma mais geral a cultura responsável pelas estruturas principalmente entre o quarto e o terceiro milênios a.C.

As diferenças refletem justamente as limitações de trabalhar com centenas de locais que ainda não foram investigados arqueologicamente no terreno.

Essa época coincidiu com uma transformação profunda do ambiente do nordeste africano.

A região atravessava o fim progressivo do chamado Período Úmido Africano, quando áreas hoje extremamente áridas ainda possuíam mais chuvas, vegetação e disponibilidade de água.

À medida que as chuvas diminuíram, as populações pastoris precisaram adaptar a composição dos rebanhos, aumentar a mobilidade ou procurar áreas mais favoráveis.

O estudo relaciona o desaparecimento gradual da tradição funerária às condições ambientais cada vez mais severas, à redução das águas subterrâneas e, possivelmente, à pressão humana e dos rebanhos sobre a vegetação.

Descoberta amplia o conhecimento sobre o deserto de Atbai

O Atbai ocupa uma extensa área entre dois espaços muito mais conhecidos pela arqueologia: o vale do Nilo e a costa do mar Vermelho.

Apesar dessa localização, sua pré-história permanece relativamente pouco documentada por causa das grandes distâncias, do terreno difícil e das condições extremas do deserto.

As 260 estruturas inéditas ajudam a preencher justamente essa lacuna.

Em vez de uma área praticamente vazia entre centros mais conhecidos do Egito e da Núbia, o levantamento aponta para uma paisagem utilizada regularmente por comunidades pastoris com práticas funerárias compartilhadas em uma extensão territorial enorme.

A arquitetura também varia.

Alguns monumentos são simples recintos circulares, enquanto outros possuem túmulos menores distribuídos no interior ou estruturas centrais mais destacadas.

Em certos casos, imagens de satélite revelam padrões nos quais sepultamentos menores parecem organizados ao redor de um ponto principal.

Essa diversidade impede tratar todos os sítios como construções idênticas ou necessariamente contemporâneas.

Os próprios autores reconhecem que futuras escavações poderão revelar fases distintas dentro de uma tradição que hoje está sendo reconstruída principalmente por meio da paisagem.

À esquerda, mapa mostra a distribuição dos recintos funerários identificados no deserto de Atbai, no nordeste da África. À direita, imagem de satélite revela algumas dessas estruturas de pedra preservadas no terreno, parte de um conjunto de 280 monumentos mapeados pelos pesquisadores, sendo 260 até então desconhecidos.
À esquerda, mapa mostra a distribuição dos recintos funerários identificados no deserto de Atbai, no nordeste da África. À direita, imagem de satélite revela algumas dessas estruturas de pedra preservadas no terreno, parte de um conjunto de 280 monumentos mapeados pelos pesquisadores, sendo 260 até então desconhecidos.

Satélites indicam onde arqueólogos podem procurar agora

O levantamento demonstra ainda como o sensoriamento remoto pode ampliar a arqueologia em regiões de difícil acesso.

Em vez de percorrer inicialmente milhares de quilômetros de deserto à procura de estruturas pouco visíveis, pesquisadores podem identificar padrões em imagens de satélite e selecionar locais prioritários para futuras expedições.

Agora, o principal desafio é verificar no terreno uma parcela maior das construções encontradas, obter novas datações e descobrir quem foi enterrado nelas.

Esses dados poderão mostrar se os diferentes recintos realmente pertenciam à mesma tradição, como mudaram ao longo dos séculos e de que forma as comunidades responderam ao avanço da aridez.

Por enquanto, as 280 estruturas transformam pontos quase invisíveis no deserto em evidências de uma ocupação humana muito mais organizada e extensa do que o registro arqueológico anteriormente permitia enxergar.

Os círculos de pedra preservados por milhares de anos passaram a fornecer novas pistas sobre grupos que conduziam rebanhos, buscavam água e construíam monumentos para seus mortos em uma paisagem que seria progressivamente tomada pela aridez.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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