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Ilha japonesa desabitada de 1,2 km², vigiada pelos militares a 1.900 km de Tóquio, esconde 16 milhões de toneladas de terras-raras no fundo do mar

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 03/03/2026 às 13:49
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Minamitorishima, ilha isolada do Japão no Pacífico, abriga no fundo do mar um dos maiores depósitos de terras-raras do mundo e se torna peça-chave na estratégia mineral japonesa.

Em 11 de janeiro de 2026, o navio de pesquisa científica Chikyu partiu de Yokohama com uma missão que nenhum país havia executado antes em escala operacional real: afundar um tubo de vários quilômetros no fundo do Oceano Pacífico e extrair continuamente lama do leito marinho a 6.000 metros de profundidade — quase o dobro da altura do Monte Fuji. O destino era as águas ao redor de Minamitorishima, a ilha mais oriental do Japão, localizada na extremidade da Zona Econômica Exclusiva japonesa. O Chikyu permaneceria na região até 14 de fevereiro.

Nos 35 dias da operação, os cientistas extraíram 35 toneladas de lama rica em terras-raras — cada tonelada contendo cerca de dois quilos de minerais estratégicos essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, sistemas militares e baterias de alta eficiência.

Foi o primeiro teste de extração contínua de terras-raras do fundo do oceano na história mundial.

Minamitorishima: a ilha isolada que protege a maior aposta mineral do Japão

Minamitorishima fica a aproximadamente 1.900 quilômetros a sudeste de Tóquio, no meio do Pacífico. Com apenas 1,2 km² de área e formato triangular cercado por recifes de coral, a ilha é menor que muitos bairros urbanos japoneses. Não há moradores civis. Não há hotéis, infraestrutura turística ou acesso público.

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Civis são proibidos de entrar. Apenas funcionários da Agência Meteorológica do Japão, membros das Forças de Autodefesa e pesquisadores autorizados pelo governo têm acesso.

Não existem voos comerciais nem rotas marítimas regulares. A única massa de terra num raio de 1.000 quilômetros é o próprio oceano.

Historicamente, Minamitorishima foi utilizada para extração de guano e penas de albatroz. Durante a Segunda Guerra Mundial serviu como base militar. Após o conflito, foi ocupada pelos Estados Unidos e devolvida ao Japão em 1968. Desde então, funciona como ponto estratégico de observação científica e militar.

Hoje, porém, seu valor estratégico não está na superfície — mas no leito oceânico profundo ao seu redor.

O maior depósito oceânico de terras-raras já identificado

Em 2013, a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre (JAMSTEC) coletou amostras de sedimentos marinhos entre 5.600 e 5.800 metros de profundidade, cerca de 250 km ao sul da ilha.

O resultado surpreendeu a comunidade científica internacional: uma camada de lama entre dois e quatro metros abaixo do leito marinho com concentrações extremamente elevadas de elementos de terras-raras.

Em 2018, levantamentos ampliados confirmaram a presença de 15 tipos diferentes de terras-raras, com volume total estimado em 16 milhões de toneladas de óxidos.

Para comparação:

  • Reservas terrestres estimadas da China: 44 milhões de toneladas.
  • Depósito oceânico japonês: equivalente a mais de um terço disso.

Mas o diferencial está na composição.

A lama de Minamitorishima contém aproximadamente:

  • 50% de terras-raras pesadas
  • 50% de terras-raras leves

O minério chinês contém, em média, 25% de pesadas. As terras-raras pesadas — como disprósio e térbio — são críticas para ímãs permanentes de alta temperatura usados em motores elétricos de veículos elétricos e turbinas eólicas offshore.

Estimativas indicam que:

  • O disprósio disponível poderia abastecer a demanda global por cerca de 730 anos.
  • O térbio, por aproximadamente 420 anos.

Outro fator decisivo: a lama japonesa apresenta baixíssimas concentrações de tório e urânio, reduzindo drasticamente os riscos radiológicos e os custos ambientais associados ao processamento mineral terrestre.

O que são terras-raras e por que são o “petróleo da eletrificação”

Terras-raras são 17 elementos químicos com propriedades magnéticas e condutoras únicas. Entre eles:

  • Neodímio
  • Disprósio
  • Térbio
  • Lantânio
  • Cério

Estão presentes em:

  • Motores de carros elétricos
  • Turbinas eólicas
  • Painéis solares
  • Smartphones
  • Mísseis guiados
  • Satélites
  • Chips semicondutores
  • Baterias de alta densidade

Um carro elétrico utiliza entre 1 e 2 kg de terras-raras. Uma turbina eólica offshore pode conter centenas de quilos. Sem esses minerais, a transição energética global simplesmente desacelaria drasticamente.

O domínio chinês na cadeia global de terras-raras

A China controla aproximadamente:

  • 60% a 70% da produção global
  • Mais de 85% da capacidade de processamento

Mesmo quando o minério é extraído em outros países — Austrália, Estados Unidos, Vietnã — ele frequentemente precisa ser refinado na China. A dependência é estrutural: mineração, separação química, produção de ímãs, cadeia industrial completa.

Isso transforma as terras-raras em instrumento geopolítico.

2010: quando as terras-raras viraram arma diplomática

Em setembro de 2010, uma embarcação chinesa colidiu com navios da Guarda Costeira japonesa nas proximidades das Ilhas Senkaku, território disputado.

Após a detenção do capitão chinês, exportações de terras-raras para o Japão enfrentaram atrasos alfandegários e bloqueios indiretos.

Ilha japonesa desabitada de 1,2 km², vigiada pelos militares a 1.900 km de Tóquio, esconde 16 milhões de toneladas de terras-raras no fundo do mar
Ilha japonesa desabitada de 1,2 km², vigiada pelos militares a 1.900 km de Tóquio, esconde 16 milhões de toneladas de terras-raras no fundo do mar

Naquele momento, o Japão importava 89% de suas terras-raras da China. Os preços dispararam globalmente. A indústria japonesa entrou em alerta máximo.

O episódio deixou claro: minerais críticos podiam ser usados como ferramenta estratégica.

2026: a China impõe novas restrições — o Japão já estava no mar

Em 6 de janeiro de 2026, o Ministério do Comércio da China anunciou novas restrições à exportação de itens de duplo uso — civis e militares — incluindo terras-raras pesadas e ímãs permanentes.

Cinco dias depois, o Chikyu partiu. A coincidência foi estratégica. O Japão vinha investindo desde 2013 na construção de autonomia mineral.

Desde 2018, cerca de ¥40 bilhões (US$ 256 milhões) foram direcionados especificamente para o programa de extração oceânica profunda.

Como funciona a mineração de lama a 6.000 metros de profundidade

A extração em águas ultraprofundas é tecnologicamente distinta da mineração de nódulos polimetálicos. A lama de terras-raras é um sedimento fino, não forma blocos sólidos.

O sistema desenvolvido pela JAMSTEC utiliza:

  • Um tubo de múltiplos quilômetros
  • Dispositivo cilíndrico de escavação no fundo
  • Sistema hidráulico de sucção
  • Circulação contínua de água

A lama é bombeada até o navio. Depois transportada até Minamitorishima. Na ilha:

  • Centrífugas removem 80% da água do mar
  • Sedimento é compactado
  • Material segue para refino no Japão continental

Meta operacional testada: 350 toneladas de sedimento por dia. Sensores monitoram impacto ambiental no leito marinho.

Impacto ambiental da mineração oceânica profunda

A extração de terras-raras terrestres gera:

  • Desmatamento
  • Contaminação radioativa
  • Drenagem ácida
  • Resíduos tóxicos

A mineração oceânica apresenta desafios diferentes:

  • Distúrbio do ecossistema bentônico
  • Suspensão de sedimentos
  • Potencial impacto na fauna abissal

O Japão monitora o ecossistema para avaliar:

  • Turbidez
  • Dispersão de partículas
  • Impacto biológico

O debate ambiental ainda está em aberto na comunidade científica internacional.

2027–2028: a corrida para industrialização

O teste de 2026 foi classificado como sucesso. Próximos marcos:

  • 2027: demonstração piloto ampliada
  • 2028: início da industrialização

Uma instalação permanente de processamento será construída na ilha até 2027 dentro do Programa de Promoção da Inovação Estratégica (SIP).

Meta estimada: Fornecer até 5% da demanda global de neodímio até 2030. Não é independência total — mas é diversificação estratégica.

A dimensão geopolítica: soberania marítima e Zona Econômica Exclusiva

Minamitorishima é crucial porque amplia a Zona Econômica Exclusiva japonesa. O que está no fundo do mar não é apenas um depósito mineral.

É:

  • Segurança econômica
  • Independência industrial
  • Soberania energética
  • Estratégia militar

Em junho de 2025, um navio da Marinha chinesa entrou nas proximidades da área de pesquisa japonesa.

O episódio foi registrado oficialmente. Não houve confronto. Mas a mensagem foi clara.

A nova fronteira da mineração estratégica global

Se o projeto japonês escalar com sucesso, o impacto poderá:

  • Reduzir dependência da China
  • Estimular mineração oceânica em outros países
  • Redefinir cadeias globais de suprimentos
  • Reconfigurar disputas marítimas

A corrida por minerais críticos não está mais apenas na terra.

Está no fundo do oceano. A 6.000 metros de profundidade.

E o Japão foi o primeiro a testar a extração contínua em escala real. O que começou como lama pode redefinir a geopolítica mineral do século XXI.

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Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

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