Minamitorishima, ilha isolada do Japão no Pacífico, abriga no fundo do mar um dos maiores depósitos de terras-raras do mundo e se torna peça-chave na estratégia mineral japonesa.
Em 11 de janeiro de 2026, o navio de pesquisa científica Chikyu partiu de Yokohama com uma missão que nenhum país havia executado antes em escala operacional real: afundar um tubo de vários quilômetros no fundo do Oceano Pacífico e extrair continuamente lama do leito marinho a 6.000 metros de profundidade — quase o dobro da altura do Monte Fuji. O destino era as águas ao redor de Minamitorishima, a ilha mais oriental do Japão, localizada na extremidade da Zona Econômica Exclusiva japonesa. O Chikyu permaneceria na região até 14 de fevereiro.
Nos 35 dias da operação, os cientistas extraíram 35 toneladas de lama rica em terras-raras — cada tonelada contendo cerca de dois quilos de minerais estratégicos essenciais para veículos elétricos, turbinas eólicas, semicondutores, sistemas militares e baterias de alta eficiência.
Foi o primeiro teste de extração contínua de terras-raras do fundo do oceano na história mundial.
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Minamitorishima: a ilha isolada que protege a maior aposta mineral do Japão
Minamitorishima fica a aproximadamente 1.900 quilômetros a sudeste de Tóquio, no meio do Pacífico. Com apenas 1,2 km² de área e formato triangular cercado por recifes de coral, a ilha é menor que muitos bairros urbanos japoneses. Não há moradores civis. Não há hotéis, infraestrutura turística ou acesso público.
Civis são proibidos de entrar. Apenas funcionários da Agência Meteorológica do Japão, membros das Forças de Autodefesa e pesquisadores autorizados pelo governo têm acesso.
Não existem voos comerciais nem rotas marítimas regulares. A única massa de terra num raio de 1.000 quilômetros é o próprio oceano.
Historicamente, Minamitorishima foi utilizada para extração de guano e penas de albatroz. Durante a Segunda Guerra Mundial serviu como base militar. Após o conflito, foi ocupada pelos Estados Unidos e devolvida ao Japão em 1968. Desde então, funciona como ponto estratégico de observação científica e militar.
Hoje, porém, seu valor estratégico não está na superfície — mas no leito oceânico profundo ao seu redor.
O maior depósito oceânico de terras-raras já identificado
Em 2013, a Agência Japonesa de Ciência e Tecnologia Marinha-Terrestre (JAMSTEC) coletou amostras de sedimentos marinhos entre 5.600 e 5.800 metros de profundidade, cerca de 250 km ao sul da ilha.
O resultado surpreendeu a comunidade científica internacional: uma camada de lama entre dois e quatro metros abaixo do leito marinho com concentrações extremamente elevadas de elementos de terras-raras.
Em 2018, levantamentos ampliados confirmaram a presença de 15 tipos diferentes de terras-raras, com volume total estimado em 16 milhões de toneladas de óxidos.
Para comparação:
- Reservas terrestres estimadas da China: 44 milhões de toneladas.
- Depósito oceânico japonês: equivalente a mais de um terço disso.
Mas o diferencial está na composição.
A lama de Minamitorishima contém aproximadamente:
- 50% de terras-raras pesadas
- 50% de terras-raras leves
O minério chinês contém, em média, 25% de pesadas. As terras-raras pesadas — como disprósio e térbio — são críticas para ímãs permanentes de alta temperatura usados em motores elétricos de veículos elétricos e turbinas eólicas offshore.
Estimativas indicam que:
- O disprósio disponível poderia abastecer a demanda global por cerca de 730 anos.
- O térbio, por aproximadamente 420 anos.
Outro fator decisivo: a lama japonesa apresenta baixíssimas concentrações de tório e urânio, reduzindo drasticamente os riscos radiológicos e os custos ambientais associados ao processamento mineral terrestre.
O que são terras-raras e por que são o “petróleo da eletrificação”
Terras-raras são 17 elementos químicos com propriedades magnéticas e condutoras únicas. Entre eles:
- Neodímio
- Disprósio
- Térbio
- Lantânio
- Cério
Estão presentes em:
- Motores de carros elétricos
- Turbinas eólicas
- Painéis solares
- Smartphones
- Mísseis guiados
- Satélites
- Chips semicondutores
- Baterias de alta densidade
Um carro elétrico utiliza entre 1 e 2 kg de terras-raras. Uma turbina eólica offshore pode conter centenas de quilos. Sem esses minerais, a transição energética global simplesmente desacelaria drasticamente.
O domínio chinês na cadeia global de terras-raras
A China controla aproximadamente:
- 60% a 70% da produção global
- Mais de 85% da capacidade de processamento
Mesmo quando o minério é extraído em outros países — Austrália, Estados Unidos, Vietnã — ele frequentemente precisa ser refinado na China. A dependência é estrutural: mineração, separação química, produção de ímãs, cadeia industrial completa.
Isso transforma as terras-raras em instrumento geopolítico.
2010: quando as terras-raras viraram arma diplomática
Em setembro de 2010, uma embarcação chinesa colidiu com navios da Guarda Costeira japonesa nas proximidades das Ilhas Senkaku, território disputado.
Após a detenção do capitão chinês, exportações de terras-raras para o Japão enfrentaram atrasos alfandegários e bloqueios indiretos.

Naquele momento, o Japão importava 89% de suas terras-raras da China. Os preços dispararam globalmente. A indústria japonesa entrou em alerta máximo.
O episódio deixou claro: minerais críticos podiam ser usados como ferramenta estratégica.
2026: a China impõe novas restrições — o Japão já estava no mar
Em 6 de janeiro de 2026, o Ministério do Comércio da China anunciou novas restrições à exportação de itens de duplo uso — civis e militares — incluindo terras-raras pesadas e ímãs permanentes.
Cinco dias depois, o Chikyu partiu. A coincidência foi estratégica. O Japão vinha investindo desde 2013 na construção de autonomia mineral.
Desde 2018, cerca de ¥40 bilhões (US$ 256 milhões) foram direcionados especificamente para o programa de extração oceânica profunda.
Como funciona a mineração de lama a 6.000 metros de profundidade
A extração em águas ultraprofundas é tecnologicamente distinta da mineração de nódulos polimetálicos. A lama de terras-raras é um sedimento fino, não forma blocos sólidos.
O sistema desenvolvido pela JAMSTEC utiliza:
- Um tubo de múltiplos quilômetros
- Dispositivo cilíndrico de escavação no fundo
- Sistema hidráulico de sucção
- Circulação contínua de água
A lama é bombeada até o navio. Depois transportada até Minamitorishima. Na ilha:
- Centrífugas removem 80% da água do mar
- Sedimento é compactado
- Material segue para refino no Japão continental
Meta operacional testada: 350 toneladas de sedimento por dia. Sensores monitoram impacto ambiental no leito marinho.
Impacto ambiental da mineração oceânica profunda
A extração de terras-raras terrestres gera:
- Desmatamento
- Contaminação radioativa
- Drenagem ácida
- Resíduos tóxicos
A mineração oceânica apresenta desafios diferentes:
- Distúrbio do ecossistema bentônico
- Suspensão de sedimentos
- Potencial impacto na fauna abissal
O Japão monitora o ecossistema para avaliar:
- Turbidez
- Dispersão de partículas
- Impacto biológico
O debate ambiental ainda está em aberto na comunidade científica internacional.
2027–2028: a corrida para industrialização
O teste de 2026 foi classificado como sucesso. Próximos marcos:
- 2027: demonstração piloto ampliada
- 2028: início da industrialização
Uma instalação permanente de processamento será construída na ilha até 2027 dentro do Programa de Promoção da Inovação Estratégica (SIP).
Meta estimada: Fornecer até 5% da demanda global de neodímio até 2030. Não é independência total — mas é diversificação estratégica.
A dimensão geopolítica: soberania marítima e Zona Econômica Exclusiva
Minamitorishima é crucial porque amplia a Zona Econômica Exclusiva japonesa. O que está no fundo do mar não é apenas um depósito mineral.
É:
- Segurança econômica
- Independência industrial
- Soberania energética
- Estratégia militar
Em junho de 2025, um navio da Marinha chinesa entrou nas proximidades da área de pesquisa japonesa.
O episódio foi registrado oficialmente. Não houve confronto. Mas a mensagem foi clara.
A nova fronteira da mineração estratégica global
Se o projeto japonês escalar com sucesso, o impacto poderá:
- Reduzir dependência da China
- Estimular mineração oceânica em outros países
- Redefinir cadeias globais de suprimentos
- Reconfigurar disputas marítimas
A corrida por minerais críticos não está mais apenas na terra.
Está no fundo do oceano. A 6.000 metros de profundidade.
E o Japão foi o primeiro a testar a extração contínua em escala real. O que começou como lama pode redefinir a geopolítica mineral do século XXI.


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