Geoje abriga os estaleiros da Hanwha Ocean e da Samsung Heavy Industries, mas a retomada da indústria naval da Coreia do Sul ampliou a dependência de trabalhadores estrangeiros e abriu uma disputa sobre salários, vistos, segurança e integração urbana
A ilha estaleiro de Geoje, na Coreia do Sul, ultrapassou 15 mil residentes estrangeiros em outubro de 2025, mais de três vezes o total registrado cinco anos antes. Enquanto guindastes monumentais dominam a paisagem industrial, a mudança mais rápida aparece nas ruas, nos alojamentos e nas lojas da cidade.
A informação sobre essa dependência foi publicada em 12 de fevereiro de 2026 por The Business Times, veículo de notícias empresariais de Singapura. Os estaleiros sul coreanos recorrem cada vez mais a trabalhadores migrantes para cumprir uma nova onda de encomendas.
O crescimento provoca uma disputa difícil de resumir. As empresas afirmam que faltam profissionais para sustentar a produção, enquanto moradores, sindicatos e políticos defendem salários melhores, mais segurança e redução das cotas de vistos.
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A retomada naval sem trabalhadores locais aumenta a dependência de estrangeiros
Os novos pedidos recebidos em 2025 pela HD Korea Shipbuilding & Offshore Engineering, Hanwha Ocean e Samsung Heavy Industries chegaram a quase US$ 36 bilhões. Juntas, essas encomendas representaram cerca de 20% do volume mundial de novos navios naquele período.

Essa carteira exige milhares de pessoas em diferentes etapas da construção. No entanto, parte dos trabalhadores sul coreanos passou a evitar funções pesadas e perigosas, após anos de acidentes, salários considerados baixos e contratação por empresas terceirizadas.
Em abril de 2025, mais de 23 mil trabalhadores migrantes possuíam os principais vistos de trabalho usados nos estaleiros do país. O governo também passou a permitir estrangeiros em até 30% da mão de obra de determinadas funções navais especializadas, limite que não representa toda a força de trabalho do setor.
Mais de 15 mil estrangeiros mudam a rotina de uma ilha industrial
Geoje abriga duas gigantes da construção naval, Hanwha Ocean e Samsung Heavy Industries. A população estrangeira da ilha passou de aproximadamente 5 mil para mais de 15 mil pessoas em cinco anos, uma mudança rápida para uma cidade cuja economia gira em grande parte ao redor dos estaleiros.
O movimento lembra, apenas no aspecto econômico, cidades brasileiras marcadas por ciclos de contratação em estaleiros. Quando as encomendas crescem, chegam trabalhadores e o comércio tenta se adaptar; quando a produção cai, empregos, aluguéis e consumo também sentem o impacto. Isso não torna iguais as leis, os salários ou as realidades migratórias dos dois países.
Salário ou imigração vira o centro da disputa sobre a solução
Empresas da indústria naval afirmam que reduzir a entrada de estrangeiros deixaria vagas abertas e colocaria prazos de entrega sob pressão. Parte dos moradores, sindicatos e políticos sustenta outra leitura: melhorar salários e condições de trabalho poderia recuperar profissionais coreanos que deixaram os estaleiros.
O prefeito de Geoje pediu uma redução gradual das cotas de vistos para reconstruir uma base de trabalhadores coreanos qualificados. Também há críticas sobre integração urbana e consumo local, pois o crescimento da população estrangeira não teria produzido a recuperação econômica esperada por parte dos comerciantes.
The Business Times, veículo de notícias empresariais de Singapura, detalhou que o governo ampliou as cotas e que parte dos vistos vincula o trabalhador estrangeiro a um único empregador. Essa limitação reduz a possibilidade de trocar de empresa mesmo diante de salário menor que o esperado ou de condições ruins.
Os grupos também não podem ser somados como se fossem iguais. Residentes estrangeiros formam uma categoria populacional; portadores de vistos de trabalho compõem uma categoria migratória; terceirizados representam um tipo de contratação. Uma mesma pessoa pode pertencer aos três grupos, mas cada número mede uma realidade diferente.
Trabalhadores sem vínculo direto assumem parte dos serviços de maior risco
A segurança ajuda a explicar por que tantos coreanos evitam os estaleiros. Em 2024, a taxa de mortes no trabalho na construção naval ficou mais de quatro vezes a média nacional. O dado mostra como o risco se concentra nessa indústria.
Trabalhadores sem vínculo direto com as grandes empresas, grupo que inclui terceirizados e profissionais cedidos por outras companhias, representavam cerca de 63% dos empregos na construção naval. Na economia sul coreana como um todo, essa parcela girava em torno de 16%.
O número de 63% abrange a forma de contratação, não a nacionalidade. Ainda assim, relatos de trabalhadores migrantes indicam que serviços mais perigosos podem ser direcionados a equipes terceirizadas em horários com fiscalização menor, como no começo da manhã, à noite ou durante a madrugada.
Aslam Hassan, trabalhador do Sri Lanka, atuava como terceirizado em um estaleiro de Ulsan quando uma máquina de pintura sob alta pressão lançou material tóxico em seus olhos. A visão nunca se recuperou completamente. Em tradução para o português, ele contou o que pensou ao cair: “Então é assim que eu morro, sem nem ver meu bebê”.
Plano para levar 440 estrangeiros a Ulsan amplia os protestos
O mesmo conflito chegou a Ulsan, outro grande polo naval da Coreia do Sul. Um plano regional prevê levar até 440 trabalhadores do Uzbequistão, Tailândia, Vietnã e Indonésia aos estaleiros até o fim de 2026.
O governo local apresenta a medida como uma forma de estabilizar a oferta de profissionais e preservar a competitividade da indústria. Moradores e representantes trabalhistas alegam que a expansão dos vistos pode manter salários baixos e reduzir o espaço para a formação de jovens coreanos.
Parte do debate gerou declarações xenófobas sobre a presença de asiáticos de outras nacionalidades nos bairros. Essas falas revelam tensão social, mas não comprovam efeitos sobre segurança, emprego ou comércio. A discussão factual envolve quantidade de vagas, remuneração, acidentes, moradia e políticas de integração.
Geoje mostra o custo humano por trás da potência naval sul coreana
A Coreia do Sul mantém alguns dos estaleiros mais eficientes do mundo, mas a produção depende de funções que muitos trabalhadores locais já não aceitam nas condições oferecidas. Em Geoje, a chegada de mais de 15 mil residentes estrangeiros tornou essa contradição visível fora dos portões industriais.
Reduzir vistos, sozinho, não garante o retorno de profissionais coreanos. Ampliar a imigração sem enfrentar salários, segurança, terceirização e integração urbana também deixa o problema incompleto. A disputa envolve quem construirá os próximos navios e em quais condições esse trabalho será realizado.
Você acredita que a indústria naval deve reduzir os vistos ou melhorar salários e segurança antes de ampliar a contratação estrangeira? Comente e compartilhe esta discussão.


