Um Porsche Boxster comprado por cerca de US$ 13 mil foi transformado em uma réplica do 992 GT3 RS com 80 kg de PETG, quase 1.500 horas de impressão 3D e aerodinâmica ativa.
Um Porsche Boxster da geração 986 comprado por cerca de US$ 13 mil acabou transformado em uma réplica em tamanho real do 992 GT3 RS depois que o entusiasta australiano Mike Lake decidiu não desembolsar mais de A$ 750 mil — aproximadamente US$ 535 mil — por um exemplar usado do esportivo. Batizado de GT3D, o projeto consumiu cerca de 80 kg de plástico PETG e quase 1.500 horas de impressão 3D, antes de uma montagem final concluída em apenas seis dias.
O resultado foi apresentado no World Time Attack, no Sydney Motorsport Park, em setembro. A aparência funcionou bem o suficiente para que parte do público, observando o carro à distância, inicialmente acreditasse estar diante de um GT3 RS original de fábrica. De perto, porém, as discretas marcas das camadas de impressão denunciavam uma construção feita em uma garagem de Melbourne.
Porsche ganhou nova carroceria sem abandonar a base do antigo Boxster
Lake precisava primeiro de uma plataforma sobre a qual construir. Encontrou um Boxster 986 e percorreu aproximadamente 2 mil quilômetros para buscar o roadster, que manteve sua arquitetura de motor central durante a transformação.
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O desafio era fazer essa base assumir as proporções e a aparência do Porsche 992 GT3 RS. Para isso, a equipe não encomendou um kit convencional de fibra ou painéis moldados industrialmente. A carroceria começou a surgir em impressoras 3D domésticas, seção por seção.
Os cálculos mudaram conforme a construção avançou. O planejamento inicial indicava 477 componentes, aproximadamente 62 kg de material e cerca de 2 mil horas de impressão. Ao final, a quantidade de PETG utilizada chegou perto de 80 kg, enquanto o tempo efetivo de impressão foi revisto para aproximadamente 1.500 horas, sem incluir peças que falharam ou precisaram ser refeitas.

Para-choque mostra a escala da impressão 3D usada no Porsche
Algumas partes ajudam a dimensionar o trabalho melhor do que o número total de horas. Somente o para-choque dianteiro nasceu da união de 61 componentes separados, consumindo mais de 10 kg de plástico e 381 horas nas impressoras.
Um único para-lama exigiu outras 55 horas. O teto trouxe um problema adicional: o Boxster original é conversível, enquanto o GT3D precisava de uma cobertura rígida para assumir a silhueta desejada.
A solução foi construir o teto com aproximadamente 41 ou 42 peças, acumulando cerca de 120 horas de impressão. Durante essa etapa, pedaços de macarrão de piscina chegaram a ser utilizados como formas internas provisórias enquanto a estrutura ganhava contorno.
Depois da impressão, os segmentos não eram simplesmente encaixados no automóvel. Eles precisavam ser unidos por soldagem plástica e receber reforços antes de formar painéis maiores.
Fibra de vidro ajudou a endurecer painéis impressos do Porsche
O PETG sozinho precisava ganhar rigidez para suportar as exigências do projeto. Lake testou fibra de vidro e resina em um dos painéis laterais e percebeu que a combinação fortalecia significativamente a peça sem aumentar demais sua espessura.
A experiência levou a reforços em outras regiões. As colunas B e pontos ligados ao chassi receberam atenção especial para que a carroceria permanecesse estável quando o veículo atingisse velocidades maiores.
Os vidros também foram substituídos por peças da Lightweight Plastics for Performance que pesam aproximadamente 50% menos que os originais. Nem tudo funcionou logo de primeira: uma película de proteção solar reagiu mal à exposição ao sol e formou bolhas, obrigando a equipe a aplicar outro produto.
No acabamento, a Hammer Coatings forneceu a pintura em tom pêssego, acompanhada por detalhes em preto acetinado e uma camada de verniz.

Peças originais da Porsche convivem com suportes impressos
Apesar da quantidade de componentes produzidos na garagem, o GT3D incorpora algumas peças retiradas diretamente de outros modelos da marca.
Na traseira foi instalada uma barra de iluminação genuína do 992. Os faróis vieram do 991.1, escolhidos porque as unidades do 992 exigiriam um sistema de cambagem que Lake não possuía.
Capas de retrovisores de fibra de carbono do 992 foram colocadas sobre suportes impressos em 3D. Ao mesmo tempo, componentes do antigo Boxster continuaram cumprindo suas funções, incluindo as maçanetas e o mecanismo do bocal de combustível, incorporados às novas estruturas.

As rodas forjadas de duas peças produzidas pela Artka deram ao Porsche a largura visual desejada sem recorrer a espaçadores.
Asa DRS ativa adiciona função ao visual inspirado no GT3 RS
A transformação não ficou restrita a painéis decorativos. O pacote aerodinâmico inclui uma asa DRS ativa personalizada projetada por Ryan, do Fat Lip Collective.
Hastes de alumínio atravessam as pás produzidas em 3D, enquanto atuadores elétricos instalados nos suportes conversam com uma ECU Haltech. Segundo o projeto, o mecanismo funcionou corretamente já na primeira conexão.
Na dianteira foi colocado um spoiler da Project Eero. Atrás, um aerofólio no estilo “rabo de pato”, também impresso, complementa a construção.
Essa combinação aproximou o GT3D visualmente do carro que inspirou Mike Lake, mas sem esconder completamente sua origem artesanal.
Motor do Porsche recebeu turbo, mas potência ainda não foi medida
O projeto também passou por alterações mecânicas. O motor boxer de seis cilindros do Boxster foi preservado, mas recebeu um turbo Turbosmart 5862.
A instalação inclui tubulação feita pela Legacy Fab, intercooler Phoenix montado na parte superior e ponteiras de escape de titânio presas por abraçadeiras V-band.
Ainda falta uma etapa importante para saber o resultado dessas modificações: o carro não passou pelo dinamômetro. Por isso, não existe no material uma potência final confirmada para o GT3D.
Essa indefinição diferencia claramente o projeto de uma réplica puramente estética. A transformação alcançou motor, aerodinâmica e estrutura, mas alguns números ainda dependerão de testes posteriores.

Porsche ficou pronto seis dias antes de enfrentar o público
A fase derradeira foi particularmente curta. A equipe reuniu todos os elementos e completou a montagem final em seis dias intensos antes da apresentação no World Time Attack.
Ali veio uma espécie de teste visual inesperado. Observadores que viam o carro à distância chegaram a confundi-lo com um GT3 RS de produção, antes de se aproximarem e perceberem os sinais deixados pela fabricação aditiva.
A experiência também explica por que Lake escolheu o caminho mais trabalhoso. Em vez de esperar uma oportunidade de compra ou desembolsar mais de A$ 750 mil pelo esportivo desejado, ele partiu de um Boxster muito mais barato e construiu uma interpretação própria.

