Pesquisa com camundongos e pacientes indica que corações transplantados assumem características biológicas próximas à idade do receptor, com sinais de envelhecimento acelerado em idosos e rejuvenescimento parcial em pessoas mais jovens após a cirurgia cardíaca
Um coração transplantado não parece carregar para sempre a idade biológica do doador. Um novo estudo indica que a idade biológica do coração pode mudar após o transplante e se aproximar daquela apresentada pelo organismo do receptor.
Coração jovem envelheceu mais rápido em animais idosos
A descoberta foi apresentada em um estudo publicado como preprint no servidor bioRxiv e ainda não passou por revisão por pares.
O trabalho foi conduzido por Jesse Poganik, pesquisador de envelhecimento da Universidade Harvard, e seus colegas.
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Primeiro, a equipe realizou experimentos com camundongos. Corações adicionais de animais jovens, de três meses, de meia-idade, com um ano, e idosos, entre 1,5 e 1,67 ano, foram enxertados em animais das três faixas etárias.
Os camundongos permaneceram com o coração original e o órgão transplantado. Entre quatro e seis meses depois, os cientistas coletaram tecidos para procurar sinais associados ao envelhecimento das células.
O resultado chamou atenção. Corações jovens colocados em animais mais velhos apresentaram sinais de envelhecimento acelerado.
Já órgãos retirados de animais idosos e transplantados para receptores jovens mostraram o movimento contrário.
Em outras palavras, o ambiente do novo organismo parece ter peso importante sobre a idade biológica daquele coração.
DNA mostrou mudança na idade biológica do coração
Para chegar a essa conclusão, os pesquisadores analisaram a metilação do DNA em aproximadamente 320 mil regiões genéticas.
A metilação envolve a adição ou retirada de grupos químicos no DNA. Algumas dessas alterações são usadas como indicadores do desgaste celular acumulado ao longo do envelhecimento.
A equipe comparou os sinais encontrados nos corações transplantados com aqueles observados nos corações naturais dos próprios animais.
Os órgãos enxertados passaram a apresentar padrões mais próximos da idade dos receptores. Isso ocorreu nos dois sentidos: envelhecimento de corações jovens em organismos idosos e aparente rejuvenescimento de órgãos mais velhos em animais jovens.
Os resultados seguem uma linha observada anteriormente em estudos de parabiose, experimento no qual dois animais são ligados cirurgicamente e passam a compartilhar a circulação sanguínea.
Mesmo efeito apareceu em transplantes realizados em pessoas
A equipe então analisou transplantes históricos realizados no Brigham and Women’s Hospital, em Boston, nos Estados Unidos.
Foram selecionados 11 casos com diferenças relevantes de idade entre doador e receptor e com amostras de biópsia disponíveis para análise da metilação do DNA.
Nos casos em que pessoas mais jovens receberam corações mais velhos, a diferença de idade variava de 8 a 24 anos. No sentido contrário, corações jovens foram transplantados para receptores entre 38 e 50 anos mais velhos.
Segundo Poganik, os cientistas encontraram nos pacientes o mesmo padrão observado nos camundongos: os corações transplantados apresentaram sinais biológicos associados à idade dos novos hospedeiros.
Funcionamento do órgão também acompanhou idade do receptor
Os pesquisadores ainda consultaram prontuários eletrônicos de centenas de pessoas cerca de um ano após o transplante.
Frequência cardíaca, espessura da parede posterior do coração e capacidade de exercício estavam mais relacionadas à idade do receptor do que à idade original do doador.
Nem tudo, porém, apresentou o mesmo comportamento.
Poganik afirmou que apenas algumas medidas funcionais acompanharam a previsão de rejuvenescimento ou envelhecimento biológico. Segundo ele, determinadas alterações podem simplesmente ser irreversíveis.
O estudo ainda é preliminar e precisa passar por revisão científica. Mesmo assim, os resultados levantam a possibilidade de que a idade cronológica do doador, sozinha, não explique como um coração transplantado envelhecerá dentro de outro organismo.
Fonte usada como base: Nature.
