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Cientistas fizeram elétrons fluírem como um líquido sem atrito dentro do grafeno — o resultado violou em 200 vezes uma lei da física que funcionava havia mais de um século…

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 18/04/2026 às 19:00
Estrutura hexagonal de grafeno brilhando em laboratório de física quântica
Elétrons no grafeno ultralimpo violaram a lei de Wiedemann-Franz por mais de 200 vezes, fluindo como líquido sem atrito a baixas temperaturas.
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Pesquisadores da Índia e do Japão criaram amostras ultralimpas de grafeno e observaram elétrons fluindo como líquido sem atrito — violando em mais de 200 vezes uma lei da física que funcionava desde o século XIX

Cientistas do Indian Institute of Science (IISc) e do National Institute for Materials Science do Japão anunciaram em 15 de abril de 2026 a observação de um fenômeno que a física considerava impossível em materiais comuns.

Em amostras de grafeno ultralimpo, os elétrons pararam de se comportar como partículas individuais.

Em vez disso, passaram a fluir coletivamente, como um líquido praticamente sem atrito.

O resultado violou a lei de Wiedemann-Franz por mais de 200 vezes em baixas temperaturas. Essa lei, estabelecida no século XIX, diz que em qualquer metal a condução de calor e a condução de eletricidade devem ser proporcionais.

No grafeno, elas se desacoplaram completamente.

O que é o fluido de Dirac encontrado no grafeno

O fenômeno observado tem um nome específico na física quântica: fluido de Dirac.

Trata-se de um estado exótico da matéria no qual os elétrons deixam de agir individualmente e passam a se mover em conjunto, como se fossem um único fluido.

Aniket Majumdar, estudante de PhD no IISc e primeiro autor do estudo publicado na revista Nature Physics, explicou: “Since this water-like behaviour is found near the Dirac point, it is called a Dirac fluid — an exotic state of matter which mimics the quark-gluon plasma, a soup of highly energetic subatomic particles observed in particle accelerators at CERN”.

Em tradução livre: o fluido de Dirac imita o plasma de quarks e glúons — uma sopa de partículas subatômicas de altíssima energia que só havia sido observada em aceleradores como o CERN, na Suíça.

Agora, pela primeira vez, esse comportamento foi reproduzido em uma bancada de laboratório, usando apenas grafeno.

Cientista operando microscópio eletrônico avançado no Indian Institute of Science

Um fluido 100 vezes menos viscoso que a água

Os pesquisadores mediram que a viscosidade do fluido de Dirac é 100 vezes menor que a da água.

Isso significa que os elétrons no grafeno fluem com quase zero resistência — próximo do que os físicos chamam de fluido perfeito.

Em metais convencionais, quando a condutividade elétrica aumenta, a condutividade térmica sobe junto. As duas estão sempre acopladas.

No grafeno ultralimpo, porém, elas se inverteram.

A condutividade elétrica e a condutividade térmica passaram a se mover em direções opostas.

Esse desacoplamento viola diretamente a lei de Wiedemann-Franz — e não por uma margem pequena, mas por um fator de mais de 200.

Representação artística de elétrons fluindo como líquido através de estrutura hexagonal de grafeno

O segredo está no ponto de Dirac

O fenômeno acontece em uma condição muito específica: o ponto de Dirac.

Esse ponto é o limite exato entre o grafeno se comportar como metal ou como isolante.

Ajustando o número de elétrons na amostra, os pesquisadores conseguiram levar o material até esse ponto.

Ali, os elétrons param de se comportar como partículas que colidem umas com as outras e passam a se mover como um fluido coordenado.

O desafio era que, durante décadas, impurezas e defeitos nos materiais impediam a observação desse estado.

A equipe indiana-japonesa resolveu o problema fabricando amostras de grafeno excepcionalmente limpas, eliminando as impurezas que mascaravam o efeito.

Aplicações em sensores quânticos ultrassensíveis

Além do impacto na física fundamental, a descoberta tem implicações práticas.

A presença do fluido de Dirac no grafeno pode viabilizar sensores quânticos capazes de detectar sinais elétricos extremamente fracos e campos magnéticos tênues.

Esses dispositivos seriam úteis em aplicações de ultra-baixo ruído, como instrumentação científica avançada e diagnósticos médicos de precisão.

O grafeno, descoberto em 2004 pelos físicos Andre Geim e Konstantin Novoselov — que receberam o Prêmio Nobel de Física em 2010 pela descoberta —, continua revelando propriedades que desafiam o conhecimento estabelecido.

Em matéria anterior do Click Petróleo e Gás, mostramos como o grafeno pode ser 200 vezes mais resistente que o aço na construção civil, alcançando mais de 13 mil visualizações.

Sensor quântico miniaturizado em bancada de laboratório

Ressalvas: ainda é pesquisa de laboratório

O estudo é uma demonstração de física fundamental, não um produto pronto.

As amostras exigem condições de ultrabaixo ruído e temperaturas muito baixas, difíceis de replicar fora de laboratórios avançados.

Contudo, o fato de um fenômeno antes restrito a aceleradores de partículas do CERN ter sido reproduzido em bancada de laboratório abre uma porta que antes nem existia.

A colaboração entre Índia e Japão demonstra que o grafeno ainda guarda surpresas — mesmo duas décadas depois de sua descoberta.

Se um material de uma única camada de átomos de carbono pode violar uma lei da física em 200 vezes, o que mais ele pode fazer que ainda não sabemos?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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