Megaprojeto no Lesoto amplia transferência de água para a África do Sul, combina barragem de 166 metros e túnel de 38 km em área de montanha, movimenta canteiros e estradas e impõe reassentamentos rurais, enquanto governos ajustam metas de fornecimento e discutem efeitos sobre energia, receita e segurança hídrica.
Nas montanhas do Lesoto, um país pequeno e sem saída para o mar, o governo autorizou uma das maiores obras de infraestrutura hídrica em curso no sul da África: a Barragem de Polihali, com altura projetada em torno de 166 metros, e um túnel de transferência de cerca de 38 quilômetros para enviar água por gravidade até o sistema já operado na região.
A intervenção faz parte da Fase II do Lesotho Highlands Water Project (LHWP), projeto binacional que amplia o envio de água ao território sul-africano e reorganiza decisões de abastecimento e energia no entorno.
Embora o Lesoto seja uma das menores economias do continente, a água tornou-se um ativo estratégico.
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O país é frequentemente descrito como alguém que “exporta água” ao abastecer centros urbanos e industriais da África do Sul por meio de um arranjo construído com barragens, túneis e acordos intergovernamentais.
A nova fase concentra obras em terreno de montanha, com grandes canteiros, logística pesada e efeitos diretos sobre comunidades rurais em áreas isoladas.
Barragem de Polihali e a escala da Fase II do LHWP
A Autoridade de Desenvolvimento das Terras Altas do Lesoto (LHDA), que executa o empreendimento no país, descreve Polihali como uma barragem de enrocamento com face de concreto, projeto conhecido pela sigla em inglês CFRD.
Nesse modelo, camadas compactadas de rocha formam o corpo principal, enquanto uma laje de concreto funciona como barreira de impermeabilização.
O plano divulgado para o conjunto prevê crista extensa e uma estrutura dimensionada para suportar tanto o armazenamento quanto a operação de descargas e vertedouro.
Os números associados à obra ajudam a explicar por que ela é chamada de “colossal” mesmo em padrões internacionais.
A barragem é apresentada em documentos técnicos e setoriais com altura de referência em torno de 166 metros, crista por volta de 921 metros de extensão e largura aproximada de nove metros, além de demanda na casa de 14 milhões de metros cúbicos de rocha para a construção do maciço.
No reservatório, a escala também é grande.
As especificações citadas para o lago projetado indicam área de cerca de 5.053 hectares e capacidade total em torno de 2,325 bilhões de metros cúbicos, patamar associado ao “nível máximo” do armazenamento planejado.
É esse volume adicional que, no desenho do projeto, dá margem para elevar a capacidade anual de fornecimento a jusante.
Túnel Polihali–Katse e a ligação subterrânea com o sistema existente
Mais do que a barragem em si, o elo físico da Fase II é o chamado túnel Polihali–Katse.
A estrutura, com cerca de 38 quilômetros de extensão e diâmetro nominal em torno de cinco metros, foi concebida para conduzir água por gravidade do novo reservatório até o lago de Katse, que já integra a espinha dorsal do LHWP.
Na prática, isso significa esculpir um corredor subterrâneo em maciços rochosos, alternando métodos como tuneladora e perfuração com detonação conforme as condições geológicas.
O arranjo inclui tomadas d’água, estruturas de saída e conexões submersas no reservatório existente, além de acessos e obras subterrâneas auxiliares.
Por outro lado, o canteiro não se limita ao subsolo: a própria LHDA descreve um pacote de “infraestrutura avançada” necessário antes do avanço dos blocos principais, com estradas, linhas de energia, telecomunicações, oficinas, escritórios e alojamentos.
Em projetos dessa natureza, as obras que não aparecem na fotografia final costumam determinar o ritmo do cronograma.
Pontes e adaptações viárias entram no planejamento para manter rotas funcionando quando o vale começar a se transformar em lago, enquanto a energia elétrica e a comunicação precisam alcançar canteiros longínquos para viabilizar operação contínua.
Metas de transferência de água para Gauteng e governança binacional
O LHWP é estruturado como iniciativa binacional entre Lesoto e África do Sul, com instrumentos formais para governança, operação e compensações.
Na Fase II, o objetivo declarado é aumentar a capacidade de transferência anual de água do patamar atual para um teto maior, ajustado progressivamente conforme acordos entre os governos.
Documentos de instituições envolvidas no financiamento e materiais oficiais sul-africanos citam a ampliação da capacidade anual de 780 milhões para cerca de 1,270 bilhão de metros cúbicos por ano.
Nesse desenho, Polihali tem papel específico: adicionar armazenamento e permitir que a oferta extra seja sustentada no sistema integrado que alimenta a região de Gauteng, área onde estão Joanesburgo e Pretória e onde se concentra parte do consumo industrial e urbano do país vizinho.
Em comunicados e relatórios, aparece também a referência de acréscimo de aproximadamente 490 milhões de metros cúbicos por ano ao fluxo disponível para o sistema sul-africano quando a fase estiver concluída.
Ainda assim, o projeto não é apresentado apenas como “venda” de água.
Textos oficiais ressaltam que o aumento do fluxo também pode se relacionar à geração de energia no Lesoto, ao ampliar possibilidades de operação do arranjo hidrelétrico associado ao sistema.
Há, porém, descrições públicas apontando que componentes de energia na Fase II passaram por estudos e ajustes ao longo do planejamento, o que influencia como e quando a eletricidade se integra ao pacote de obras.
Reassentamento, compensações e impactos no vale que vai virar reservatório
O impacto social aparece como parte inevitável do empreendimento porque a formação do reservatório exige inundação permanente de áreas hoje usadas para moradia, cultivo e pastagem.
Esse efeito recai sobre comunidades rurais em regiões remotas, com mudanças no acesso a terras e a recursos locais.
Materiais de avaliação socioambiental associados ao projeto registram que reassentamento e compensações fazem parte das obrigações, com programas para lidar com perda de ativos, deslocamentos e reorganização de meios de vida.
Ao mesmo tempo, a escala do lago e a complexidade do túnel ampliam a sensibilidade do cronograma.
Qualquer atraso em etapa crítica tende a repercutir em cadeia, porque o sistema depende de integração fina entre barragem, escavação subterrânea e obras de suporte.
Isso se soma à exigência de coordenação política: água atravessa fronteiras, atende interesses econômicos e urbanos a jusante e, ao mesmo tempo, impõe custos diretos ao território de origem.
Se o Lesoto constrói uma estratégia rara ao “exportar” água, a Fase II do LHWP coloca a decisão em escala maior: como garantir abastecimento regional e ganhos fiscais sem transformar o vale que será inundado em um passivo social permanente para as próximas gerações?


Caros amigos : Lesotho poderá aproveitar áreas alagadas para criar peixes de águas frias como trutas salmonadas, salmões etc visando tanto o abastecimento doméstico qto a exportações para a África do Sul (aproveitando que está dentro da África do Sul).