Plano federal aposta em concessões de rodovias e ferrovias, amplia papel do BNDES e reorganiza regras para destravar investimentos bilionários em logística, com foco em corredores do agronegócio, eixos portuários e regiões estratégicas do país.
O governo federal prepara um novo ciclo de concessões de rodovias e ferrovias, com previsão de levar a leilão 14 trechos rodoviários e oito ferroviários, em uma carteira que soma quase R$ 300 bilhões em investimentos ao longo dos contratos.
A estratégia central para sustentar o ritmo é ampliar o papel do BNDES tanto na estruturação quanto no financiamento, reduzindo incertezas para investidores em projetos de longo prazo, segundo reportagem publicada pelo jornal O Globo.
Na frente rodoviária, o pipeline divulgado pelo Ministério dos Transportes reúne corredores com forte peso logístico, incluindo ligações no Sudeste, rotas de exportação e eixos associados ao agronegócio e a áreas portuárias.
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O banco de fomento aparece como peça-chave ao oferecer crédito e participar da engenharia financeira das concessões, com mecanismos desenhados para suavizar a exposição a oscilações de juros durante o ciclo das obras.
BNDES no centro da estratégia para destravar concessões
O Ministério dos Transportes trabalha com a expectativa de que o BNDES amplie, em 2026, o volume de crédito destinado a projetos de rodovias e ferrovias em relação ao observado em 2025, de acordo com apuração do jornal O Globo.
A leitura interna é que a presença do banco funciona como fator de estabilidade para o mercado e facilita a formação de consórcios em projetos de grande porte e retorno diluído no tempo.
O secretário executivo do Ministério dos Transportes, George Santoro, afirmou que a proximidade do calendário eleitoral não representa um entrave para o cronograma.
“Zero”, disse, ao ser questionado sobre o impacto das eleições nos leilões previstos, em entrevista concedida ao jornal O Globo.
Ainda assim, Santoro reconheceu que pode haver algum atraso caso aumentem as demandas no Tribunal de Contas da União, responsável por autorizar as licitações.
Segundo ele, a atual modelagem das concessões busca corrigir falhas observadas em experiências passadas, como análises insuficientes de risco e projeções de receita consideradas pouco realistas.
Nesse contexto, destacou que a engenharia financeira preparada pelo BNDES inclui instrumentos capazes de mitigar choques de taxa de juros.
“O BNDES acaba ancorando as expectativas do mercado”, afirmou.
“O banco tem uma equipe especializada em infraestrutura muito experiente e, quando apoia um projeto, atrai investidores privados”, acrescentou.
Rodovias estratégicas e concessões reestruturadas
A carteira do Ministério dos Transportes reúne projetos em diferentes estágios para 2026, incluindo novas concessões e processos competitivos de contratos já existentes, conhecidos no setor como concessões otimizadas.
Nesse modelo, o contrato é relicitado com regras reformuladas e o atual operador pode manter a concessão se igualar a melhor proposta apresentada.
Entre os projetos destacados está a Rota dos Sertões, na BR-116 entre Bahia e Pernambuco.
Também consta a Rotas Gerais, que envolve trechos das BRs 116 e 251 em Minas Gerais.
O pipeline contempla ainda a Rota Agro Central, que integra trechos das BRs 070, 174 e 364 entre Mato Grosso e Rondônia, considerada estratégica para o escoamento da produção agropecuária.
No Sul, aparece a Rota Integração do Sul, com trechos das BRs 116, 158, 290 e 392 no Rio Grande do Sul.
A lista inclui ainda a Rota Portuária do Sul, a Rota 2 de Julho, na Bahia, e projetos em Santa Catarina agrupados sob a marca de Rodovias Integradas, como também apontou o jornal O Globo ao detalhar o pipeline de concessões.
Financiamento, garantias e maior apetite a risco
Ao detalhar a política de crédito, a diretora de Infraestrutura e Energia do BNDES, Luciana Costa, afirmou que o foco da instituição está em apoiar “projetos que se pagam”.
Segundo ela, esse é o caso de concessões rodoviárias em que o pedágio é a principal fonte de recursos para quitar o financiamento.
Antes do início das obras, explicou, todos os riscos do empreendimento são mensurados e cada projeto recebe um pacote específico de garantias.
“Diferentemente do passado, em que o financiamento era ao concessionário, o banco agora corre mais risco do projeto”, afirmou.
De acordo com a diretora, essa mudança vem ocorrendo desde 2023 e ganhou força à medida que os leilões seguiram competitivos.
Luciana Costa disse não acreditar em prejuízos para o banco, ressaltando que os projetos são bem estruturados.
Ela destacou que os contratos preveem alternativas para lidar com imprevistos, como a entrada de fluxos adicionais de receita e, se necessário, o uso de carta fiança.
Ferrovias ganham tração com foco em carga e passageiros
Na frente ferroviária, o Ministério dos Transportes projeta a concessão de oito trechos, com potencial de investimento estimado em cerca de R$ 140 bilhões ao longo dos contratos.
Entre os projetos estão o Corredor MG-RJ, o Anel Ferroviário Sudeste, a Malha Oeste, a Ferrogrão e diferentes corredores da Malha Sul, além de extensões da Ferrovia Norte-Sul.
O planejamento também inclui concessões voltadas ao transporte de passageiros a partir de 2026.
A ligação entre Brasília e Luziânia é apontada como o primeiro projeto desse tipo.
Infraestrutura, riscos e papel do Estado
Especialistas avaliam que a aceleração das concessões responde a uma restrição estrutural do setor público.
Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, afirmou que o investidor privado só entra em projetos que oferecem retorno ao capital investido.
“O Estado não tem dinheiro para fazer investimentos e isso não vai mudar tão cedo”, disse. “É preciso aperfeiçoar os modelos de concessão para atrair o capital privado”, acrescentou.
Quintella citou pesquisa da CNT segundo a qual 62% das rodovias brasileiras estão classificadas como regulares, ruins ou péssimas.
Para Letícia Queiroz, sócia do escritório Queiroz Maluf Reis, a política de concessões passou por mudanças ao longo dos anos e se consolidou como política de Estado. “A modelagem vem sendo aperfeiçoada nos vários governos”, afirmou.
Segundo ela, os projetos estão mais robustos, com matrizes de risco detalhadas e maior capacidade de atrair novos investidores, especialmente no setor ferroviário, que exige investimentos iniciais elevados.


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