Fabricante que ocupa posição de destaque no mercado chinês estreia no país por meio da TEVX, já vendeu o primeiro lote de veículos e coloca a produção brasileira como parte obrigatória do acordo de expansão
A fabricante chinesa Zhongtong está entrando no mercado brasileiro de ônibus elétricos com um plano que pode resultar em até R$ 100 milhões de investimento industrial no país. A estratégia começa com veículos produzidos na China, passa pela montagem em território nacional e tem como objetivo chegar à fabricação local em uma unidade ainda não anunciada oficialmente.
A operação será conduzida pela TEVX Motors, que criou com a montadora a TEVX Zhongtong para representar a marca no Brasil. Segundo reportagem publicada pela Folha de S.Paulo, o investimento previsto para a implantação industrial pode alcançar R$ 100 milhões, enquanto a produção brasileira faz parte do acordo firmado entre as empresas.
A entrada não ficará apenas no papel. Os primeiros dez ônibus já foram comercializados e a previsão é que cheguem ao Brasil no primeiro trimestre de 2027. O comprador ainda não foi revelado.
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O ponto que transforma a chegada da Zhongtong em uma pauta industrial, e não apenas comercial, está na sequência planejada: importar, montar e, depois, fabricar localmente.
Fábrica brasileira está prevista no acordo com a Zhongtong
Carlos Eduardo Souza, CEO da TEVX, afirmou à AutoData que a produção no Brasil é uma condição prevista no acordo de representação firmado com a fabricante chinesa.
A expectativa apresentada pelo executivo é que a primeira unidade efetivamente produzida no Brasil esteja pronta em até dois anos. A reportagem especializada publicada em 5 de outubro aponta 2028 como horizonte para essa etapa.
Antes disso, a operação deverá passar por uma fase de nacionalização gradual.
Segundo as informações divulgadas pela Folha, a unidade brasileira poderá começar utilizando o sistema CKD — Completely Knocked Down, no qual conjuntos e componentes chegam desmontados ao país para serem montados localmente.
Essa diferença é importante.
Montar um veículo a partir de kits importados não significa que todos os seus componentes passaram a ser produzidos no Brasil. Trata-se, normalmente, de uma etapa intermediária para implantação de uma operação industrial, treinamento de mão de obra, desenvolvimento de fornecedores e aumento progressivo do conteúdo nacional.
No caso da Zhongtong, a estratégia vai além da montagem inicial. Souza afirmou à Technibus que a transferência de tecnologia e a preparação de profissionais brasileiros fazem parte das premissas do projeto.
Onde ficará a fábrica ainda não foi anunciado
Um dos principais detalhes continua sob sigilo: qual cidade receberá a fábrica.
As informações publicadas nos últimos dias mostram que a definição está avançada, mas há uma pequena diferença entre as versões divulgadas.
A Folha informou que o local já teria sido escolhido e que o anúncio deverá ocorrer depois do período eleitoral de outubro, inclusive em razão de questões fiscais.
Já a AutoData, após entrevistar o CEO da TEVX, informou que existem três locais mapeados e negociações avançadas, com decisão final também prevista para depois das eleições.
Por isso, enquanto a própria companhia não divulgar oficialmente o município, o mais preciso é tratar a localização como em definição final, e não como uma fábrica já confirmada para determinada cidade.
Esse é também um dos pontos que deverão determinar o formato definitivo do investimento. Benefícios fiscais, estrutura logística, disponibilidade de mão de obra, proximidade dos mercados compradores e fornecedores locais pesam diretamente na escolha de uma fábrica de veículos pesados.
Investimento pode chegar a R$ 100 milhões
O valor apresentado para a futura unidade chega a R$ 100 milhões, mas deve ser entendido como teto previsto para o investimento e não como dinheiro já desembolsado.
A origem dos recursos e a estrutura financeira definitiva do projeto ainda estão em negociação, segundo informações divulgadas nesta semana.
A implantação também estará ligada ao desempenho comercial da Zhongtong no país.
A empresa trabalha com uma referência próxima de 900 ônibus vendidos por ano para justificar uma operação produtiva local em escala. Esse volume corresponderia a aproximadamente 15% do mercado brasileiro considerado pela companhia.
O número não foi escolhido por acaso.
A Zhongtong já opera em grande escala no Chile, mercado usado como uma espécie de vitrine regional para a estratégia brasileira. A fabricante entrega aproximadamente 900 ônibus por ano no país vizinho, segundo a reportagem da Folha.
O objetivo da TEVX é tentar reproduzir no Brasil uma operação com dimensão suficiente para sustentar a produção local.
Primeiros dez ônibus chegam em 2027
Enquanto a fábrica não entra em operação, a Zhongtong começa pelo mercado.
A TEVX confirmou a comercialização do primeiro lote, composto por até dez ônibus elétricos, que deverão desembarcar no país durante o primeiro trimestre de 2027. O cliente não foi divulgado.
A operação brasileira terá inicialmente seis modelos.
A linha anunciada inclui:
TZ9, miniônibus de nove metros;
TZ10, midi de dez metros;
TZ12, ônibus de doze metros;
TZ13, modelo padron de treze metros;
TZ18, articulado de dezoito metros;
e TZR, destinado ao transporte rodoviário.
Todos foram apresentados inicialmente em configuração elétrica, com piso baixo e construção monobloco.
O modelo monobloco integra estrutura e carroceria em uma única arquitetura, diferente da configuração ainda muito comum no mercado brasileiro, em que fabricantes de chassis e encarroçadoras atuam em etapas distintas.
Segundo a TEVX, essa solução pode reduzir o peso do conjunto em até 30% em comparação com determinadas configurações tradicionais, com reflexos sobre autonomia e consumo energético.
Marcopolo e Caio podem entrar na cadeia brasileira
A produção local também abre uma questão importante para a indústria brasileira de ônibus: quanto da cadeia já instalada no país será aproveitado pela chinesa?
Ainda não existe uma resposta definitiva.
Uma das possibilidades discutidas é manter carrocerias chinesas. Outra é utilizar chassis ou plataformas da Zhongtong combinados a carrocerias de fabricantes nacionais.
Entre os nomes mencionados nas discussões aparecem Marcopolo e Caio, duas empresas tradicionais da indústria brasileira de ônibus.
Se essa segunda alternativa avançar, a chegada da Zhongtong poderá envolver muito mais do que a criação de uma linha própria de montagem.
Ela poderá inserir fornecedores brasileiros, fabricantes de carrocerias, componentes elétricos, sistemas eletrônicos, estruturas metálicas e serviços industriais dentro da cadeia produtiva da companhia.
É justamente nessa etapa que a diferença entre simplesmente importar ônibus chineses e criar uma operação industrial brasileira ficará mais clara.
Empresa quer 15% do mercado brasileiro
A Zhongtong chega com uma meta ambiciosa.
A TEVX trabalha com objetivo de conquistar até 15% do mercado nacional, além de colocar entre 5 mil e 6 mil ônibus da fabricante em operação no Brasil nos próximos anos, segundo o CEO Carlos Eduardo Souza.
A companhia encontrará um setor que já deixou a fase de pequenos projetos-piloto.
Dados da Associação Brasileira do Veículo Elétrico citados pelo Diário do Transporte mostram que 589 ônibus elétricos foram emplacados no Brasil somente entre janeiro e junho de 2026. No mesmo período de 2025 haviam sido 306.
O crescimento foi de 92,5%.
Em todo o ano de 2025 foram registrados 844 veículos desse tipo.
São Paulo concentra grande parte dessa transformação. Em 30 de setembro de 2026, a capital atingiu 2 mil ônibus elétricos em sua frota municipal, ampliando a escala das encomendas e tornando o país mais atraente para fabricantes que antes observavam o mercado brasileiro à distância.
A Zhongtong, portanto, não chega a um mercado vazio.
Scania, Volkswagen, Volvo, Mercedes-Benz, Iveco, Eletra, Agrale, Marcopolo e BYD já disputam diferentes espaços no segmento de ônibus elétricos, segundo levantamento citado pela imprensa especializada.
Zhongtong traz ao Brasil experiência acumulada no Chile
A experiência chilena é uma das peças centrais da estratégia.
A fabricante chinesa conseguiu estabelecer uma presença relevante no transporte público daquele país, e o Chile passa agora a servir como referência para a expansão da companhia no restante da América Latina.
Em 2025, segundo a Frota&Cia, a Zhongtong produziu 12.930 ônibus e comercializou mais de 15 mil unidades em diferentes mercados.
Na China, a empresa aparece entre as maiores fabricantes do setor e detém aproximadamente 9% do mercado, atrás da Yutong.
É uma escala bastante diferente da de uma companhia que chega ao Brasil apenas para testar algumas unidades importadas.
A intenção declarada é utilizar a venda de veículos como porta de entrada para uma operação mais ampla.
Negócio também inclui carregadores e consultoria para cidades
A Zhongtong e a TEVX querem vender mais do que ônibus.
O modelo apresentado pela parceria inclui infraestrutura de recarga, planejamento das garagens, avaliação das rotas e até consultoria para municípios interessados em eletrificar sistemas de transporte público.
Para cidades menores, esse componente pode ser tão importante quanto o veículo.
Um ônibus elétrico exige planejamento da potência instalada, localização dos carregadores, tempo disponível para recarga, dimensionamento das baterias e desenho das linhas. Comprar o veículo sem estruturar essa parte do sistema pode comprometer a operação.
A estratégia da TEVX é entrar justamente nessa lacuna e oferecer uma solução integrada.
Fábrica é a etapa que poderá transformar chegada comercial em projeto industrial
O cronograma ainda tem etapas abertas.
A Zhongtong já possui representação, modelos definidos e o primeiro lote comercializado. A localização da fábrica, o formato final do investimento, os incentivos envolvidos e a parcela de componentes efetivamente nacionalizados ainda precisam ser anunciados.
Também falta saber quando a montagem CKD começará e em que ritmo essa operação migrará para uma fabricação mais completa no Brasil.
É nessa passagem que estará o principal teste do projeto.
Se a empresa cumprir o plano de investir até R$ 100 milhões, instalar a unidade e atingir a produção local prevista para os próximos dois anos, sua chegada deixará de representar apenas mais uma marca chinesa vendendo veículos elétricos no país.
Passará a significar uma nova fabricante disputando espaço dentro da própria indústria brasileira de ônibus.
