Hisense e Haier avançam em negociações com estados brasileiros para produzir linha branca no país, enquanto LG, Midea e Whirlpool também reorganizam fábricas e ampliam a disputa por capacidade industrial local
Duas gigantes chinesas de eletrodomésticos estão se movimentando para ampliar a produção no Brasil. Hisense e Haier negociam com governos estaduais a instalação de unidades capazes de fabricar geladeiras e máquinas de lavar, em um mercado que já acumula mais de R$ 7 bilhões em investimentos anunciados desde 2022 para abertura ou expansão de fábricas.
As informações foram divulgadas pelo Valor Econômico e reproduzidas no clipping industrial do INDA em 5 de outubro de 2026. Segundo a Eletros, associação que reúne fabricantes de eletroeletrônicos, as duas companhias mantêm conversas com estados para estruturar a produção dessas categorias no país.
O movimento acontece em um momento particularmente competitivo.
-
Gigante americana Sukup coloca Mato Grosso no radar e avalia instalar fábrica em Lucas do Rio Verde para produzir sistemas de armazenagem de grãos em um dos maiores polos do agronegócio brasileiro
-
Grupo Michelin amplia presença industrial no Brasil com nova fábrica da Fenner em Guarulhos e projeto prevê aumento de 40% na capacidade para atender mineração, cimento, siderurgia e outros setores pesados
-
Indústria da soja acelera no Brasil, capacidade cresce 13% em um ano e setor prepara R$ 7,65 bilhões em novas fábricas e expansões para adicionar 7,4 milhões de toneladas ao processamento nacional
-
Gigante chinesa Zhongtong chega ao Brasil, prepara fábrica de até R$ 100 milhões para ônibus elétricos e aposta em montagem local antes de avançar para produção em maior escala
A LG iniciou neste ano a produção nacional de geladeiras em seu novo complexo industrial no Paraná, enquanto a Midea já fabrica refrigeradores e máquinas de lavar em Minas Gerais e prepara novas ampliações.
Para Hisense e Haier, portanto, produzir no Brasil deixa de ser apenas uma possibilidade de redução logística. Passa a ser parte de uma disputa por presença industrial em um mercado onde os principais concorrentes estão aumentando capacidade e nacionalizando produtos.
Hisense quer deixar de importar parte da linha branca
A Hisense já vende no Brasil refrigeradores, lava e seca, televisores e aparelhos de ar-condicionado, mas geladeiras e lavadoras da marca ainda dependem de importação.
Esse modelo pode mudar.
Matheus Benatti, diretor de marketing e produtos da Hisense no Brasil, afirmou que a companhia inclui em seu planejamento a fabricação local dessas categorias em um futuro próximo. Segundo a reportagem publicada em outubro, a empresa pretende triplicar o tamanho de sua operação brasileira em 2027 na comparação com 2025.
Produzir geladeiras e lavadoras no país seria um passo diferente da simples expansão comercial.
São linhas que exigem instalações industriais de grande porte, fornecedores de aço, plástico, vidro, componentes elétricos, motores, sistemas eletrônicos e uma cadeia logística capaz de movimentar produtos volumosos.
O peso do transporte ajuda a explicar por que fabricantes de linha branca costumam buscar produção próxima ao mercado consumidor quando atingem escala suficiente.
Haier já iniciou produção no Brasil e agora avalia ampliar presença
A estratégia da Haier parte de um estágio diferente.
A companhia já iniciou no Polo Industrial de Manaus a produção de televisores e aparelhos de ar-condicionado por meio de parceiros locais, segundo informações divulgadas pelo Centro da Indústria do Estado do Amazonas.
O próximo passo pode ser maior.
A Haier informou que possui um plano de investimento industrial em fases para ampliar gradualmente a produção no Brasil, e que esse movimento está entre as prioridades para os próximos 12 meses.
Em agosto, representantes da companhia estiveram no Amazonas para discutir expansão e novos investimentos. A Federação das Indústrias do Estado do Amazonas chegou a defender formalmente a implantação de uma fábrica própria da Haier em Manaus.
O CIEAM também registrou que a empresa avalia novos projetos para 2027 e 2028, incluindo a possibilidade de uma unidade própria na capital amazonense.
Isso não significa que Manaus já tenha sido escolhida para fabricar geladeiras e lavadoras.
As negociações divulgadas em outubro continuam envolvendo estados, e a companhia ainda não anunciou oficialmente onde instalará essas novas linhas.
Mais de R$ 7 bilhões já foram anunciados pela indústria
A movimentação chinesa ocorre dentro de um ciclo bem maior.
Segundo a Eletros, fabricantes de eletrodomésticos anunciaram mais de R$ 7 bilhões em investimentos no Brasil desde 2022, destinados à abertura de unidades, modernização e expansão da capacidade produtiva.
Esse volume mostra que a competição não está acontecendo apenas nas prateleiras.
Ela acontece também dentro das fábricas.
Empresas que antes dependiam mais de importações passaram a buscar produção nacional, enquanto grupos já estabelecidos ampliam instalações para reduzir custos logísticos, responder mais rapidamente ao varejo e disputar participação em categorias de grande volume.
Geladeiras e máquinas de lavar estão justamente entre os produtos mais relevantes nesse movimento.
LG colocou R$ 1,5 bilhão em novo complexo no Paraná
Um dos exemplos recentes mais claros é a LG.
A companhia começou em 2026 a fabricar geladeiras em seu novo complexo de Fazenda Rio Grande, na Região Metropolitana de Curitiba, estrutura que recebeu investimento de aproximadamente R$ 1,5 bilhão.
Segundo a própria empresa, a planta possui capacidade para produzir mais de 600 mil unidades por ano e foi estruturada para reduzir em até 80% o tempo de entrega dos equipamentos ao varejo brasileiro.
O dado ajuda a dimensionar o tipo de estrutura que Hisense e Haier precisarão considerar caso avancem para uma produção nacional em grande escala.
Uma fábrica de linha branca exige centenas de fornecedores, equipamentos de conformação metálica, pintura, injeção de plástico, montagem, controle de qualidade e sistemas logísticos preparados para produtos de grande volume físico.
Entrar nesse mercado como fabricante local exige bem mais do que importar componentes e montar pequenos lotes.
Midea já fabrica 1,3 milhão de unidades por ano em Minas Gerais
A Midea também elevou significativamente sua presença industrial.
A companhia fabrica geladeiras e máquinas de lavar em Pouso Alegre, Minas Gerais, desde o fim de 2024.
A capacidade declarada da unidade é de aproximadamente 1,3 milhão de produtos por ano, considerando essas duas categorias. A própria empresa já indicou planos de expansão para aproveitar melhor a estrutura instalada.
A companhia também prevê novos investimentos em Pouso Alegre e em Manaus, segundo a Eletros.
Esse crescimento ajuda a entender por que Hisense e Haier estão acelerando.
Quanto mais concorrentes nacionalizam a produção, maior tende a ser a diferença de custos logísticos e de prazo para empresas que continuam dependendo exclusivamente de produtos importados.
Whirlpool transfere produção argentina para São Paulo
Até fabricantes tradicionais estão reorganizando sua geografia industrial.
A Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, encerrou a produção em sua fábrica de Pilar, na Argentina, e transferiu a linha para Rio Claro, no interior de São Paulo.
A empresa atribuiu a decisão aos custos elevados da unidade argentina e afirmou que os ganhos resultantes da transferência para o Brasil devem aparecer a partir do quarto trimestre.
É um movimento diferente do avanço das chinesas, mas aponta para a mesma conclusão: a localização das fábricas voltou a ocupar o centro da estratégia competitiva do setor.
Aço, plástico e vidro entram na disputa pela competitividade
A construção de fábricas não resolve sozinha o desafio da produção nacional.
A Eletros vem alertando que empresas brasileiras enfrentam custos maiores justamente em insumos básicos como aço, plástico e vidro, materiais essenciais para refrigeradores, máquinas de lavar, fogões e outros eletrodomésticos.
A entidade discute com o governo formas de equilibrar a proteção aplicada a esses insumos e aos produtos acabados.
O argumento do setor é simples: se a matéria-prima nacional fica mais cara enquanto o eletrodoméstico importado entra com maior competitividade, a fabricação local perde espaço.
Para empresas que estudam construir uma nova fábrica, esse tipo de diferença pesa diretamente na decisão de investimento.
Incentivos fiscais, logística, preço de energia, disponibilidade de fornecedores e custo de mão de obra também entram nessa conta.
É justamente por isso que Hisense e Haier estão negociando com diferentes estados em vez de anunciar imediatamente um endereço.
Haier considera fábrica própria em Manaus
Entre os estados interessados, o Amazonas aparece de forma explícita.
Em agosto, o presidente da FIEAM, Antonio Silva, recebeu representantes da Haier e defendeu a implantação de uma fábrica própria da companhia no Polo Industrial de Manaus.
A região já reúne uma ampla cadeia de eletrônicos, componentes, climatização e bens de consumo duráveis.
Para a Haier, há ainda uma vantagem adicional: a empresa já produz televisores e condicionadores de ar no polo por meio de parceiros.
Uma fábrica própria representaria outro nível de compromisso industrial.
A companhia passaria de uma operação baseada parcialmente em parceiros para uma estrutura diretamente controlada pelo grupo.
Até agora, entretanto, a Haier não confirmou que Manaus receberá a produção de geladeiras e lavadoras.
Hisense quer triplicar operação brasileira
No caso da Hisense, a meta comercial ajuda a explicar a urgência de produzir localmente.
A fabricante quer que sua operação brasileira em 2027 seja três vezes maior que em 2025.
A companhia já possui um portfólio amplo no mercado brasileiro, incluindo televisores, refrigeradores, lava e seca e aparelhos de ar-condicionado.
Quanto maior a venda de produtos volumosos, mais relevante se torna a estrutura industrial local.
Uma geladeira fabricada no Brasil não precisa atravessar oceanos em contêiner para chegar ao varejo. Isso reduz exposição a fretes internacionais, câmbio, atrasos portuários e variações de disponibilidade.
A nacionalização também permite desenvolver produtos específicos para o consumidor brasileiro e reagir mais rapidamente a mudanças no mercado.
Duas novas fábricas ainda não estão confirmadas
A movimentação é concreta, mas exige uma distinção importante.
Hisense e Haier estão negociando a produção local de geladeiras e lavadoras, porém ainda não anunciaram oficialmente duas fábricas fechadas, com endereço, investimento e cronograma definidos.
A Hisense afirma que produzir no Brasil faz parte de sua visão para o futuro próximo.
A Haier possui um plano industrial por etapas e já negocia sua expansão, inclusive com possibilidade de fábrica própria.
O valor de R$ 7 bilhões também não corresponde apenas às duas chinesas. Trata-se do conjunto de investimentos anunciados pelo setor de eletrodomésticos desde 2022.
Essa separação evita transformar uma negociação industrial relevante em um anúncio que as empresas ainda não fizeram.
Próxima disputa será decidir onde essas linhas serão instaladas
A corrida agora entra em uma fase decisiva.
Hisense e Haier precisam escolher onde produzir, qual será o grau de nacionalização e quanto capital será necessário para sustentar as novas linhas.
Os estados interessados, por sua vez, disputarão os projetos oferecendo infraestrutura, incentivos e acesso a cadeias de fornecedores.
Enquanto essa definição não chega, concorrentes continuam avançando.
LG já fabrica geladeiras no Paraná. Midea produz refrigeradores e máquinas de lavar em Minas Gerais. Whirlpool concentrou parte de sua operação em São Paulo.
Se Hisense e Haier confirmarem seus projetos, a próxima etapa da disputa dos eletrodomésticos no Brasil não acontecerá apenas no preço ou na tecnologia.
Ela acontecerá dentro das fábricas brasileiras.
